terça-feira, 8 de janeiro de 2019

CURTI SUA FOTO



Cheguei no aeroporto e vi no monitor que o voo chegaria com algum atraso. Só serviu para aumentar um pouco mais a ansiedade que já tomava conta de mim nos dias que antecederam aquele encontro.

Nos conhecemos pela internet. Sorrisos e poses estáticos que mostravam um pouco da rotina. Comentários que davam pequenos sinais do que seria a essência. Era a impessoalidade com vontade de ser pessoalidade. As redes sociais permitem essas tentativas, no entanto nada substitui o “olho no olho”, o toque, o cheiro...

No aeroporto, a espera era composta de idas e voltas entre saguão principal e a área de desembarque. Mil pensamentos passavam pela cabeça, que iam desde a troca das primeiras mensagens até combinarmos passar alguns dias juntos. Aos poucos, a movimentação de pessoas próximas a área de desembarque aumentava. Conferi o monitor e lá informava que o avião estava em solo e que o desembarque já iniciara. O coração acelerado e a ansiedade de ver aquele sorriso eram visíveis.

Quando Ela enfim apareceu, o mundo ao meu redor perdeu o sentido. Pelo menos momentaneamente. Armou-se de olhar doce e sorriso que irradiava felicidade. Me desarmou completamente. Até havia ensaiado discurso, como se isso fosse me dar algum controle sobre a situação. Nada do tudo que pensei dizer, saiu naquele instante. Toda a expectativa, pensamentos, ansiedade e os pouco mais de mil quilômetros de distância entre nossas cidades foram interrompidos num longo e encaixado abraço. Os corações acelerados combinavam ritmos e se permitiam em beats compassados. Ainda abraçados, a troca de olhares pedia um beijo. O toque naqueles lábios macios, substituiu meses e meses de longas conversas madrugada adentro.  Nenhuma palavra havia sido dita até então. Apenas a pura reciprocidade no carinho do encontro.

No caminho para casa, conversamos sobre a viagem e a expectativa pela programação dos próximos dias. Como estávamos de férias, tratei de providenciar um roteiro que pudesse mostrar os lugares mais atraentes da minha região, além dos locais que eu mais gostava de frequentar. As extensas conversas pela internet permitiram saber que temos preferências em comum.

Chegando em casa, conduzi Ela até o quarto e a deixei a vontade para guardar suas malas, tomar um banho e descansar. Enquanto isso, prepararia o jantar. Já sabia que a correria da viagem não permitiria uma refeição decente, por isso procurei caprichar no cardápio. Obviamente o vinho não poderia ficar de fora.

Ela estava bem a vontade. Saiu do quarto vestindo roupão, deixando a mostra suas pernas bem torneadas. Os cabelos molhados estavam envoltos num turbante feito com uma toalha. Seus olhos sorriam livremente, sem esforço. Sentou-se e aproveitou o jantar enquanto dávamos risadas contando as situações mais inusitadas que ambos haviam passado na vida. A conversa fluiu solta e leve, como a vida deve ser.

Após o jantar, recolhemos as louças e tratamos de lava-las. Minha mania por organização não permitia que pudéssemos relaxar na sala enquanto houvesse louças sujas na cozinha. Ela, a vontade, me acompanhou. Enquanto conversávamos, eu lavava, ela secava. Simples assim. Em certos momentos, Ela se aproximava por trás, me abraçava, estendia sua mão até deixar molhar e, brincando, jogava água em meu abdômen. O jeito leve, o sorriso fácil e o carinho recíproco faziam aquele instante, mais que especial.

Sentamos no sofá, cada qual com sua taça de vinho. No ambiente, o som da música era testemunha das conversas divertidas que, aos poucos eram substituídas por trocas de olhares que se intensificavam a medida que a noite caía. Palavras eram quase desnecessárias. O desejo mostrava força através dos beijos que surgiram, misturando carinho, paixão e lascividade. Nossos corpos conversavam sem palavras. Encaixavam perfeitamente. Nossas mãos viajavam leves e intensamente pelos corpos quase nus, intercalando visitas as taças para que o vinho pudesse regar ainda mais aquela intensidade.

As conversas de vários meses via internet, deram lugar aos olhares que falavam por si. As telas do computador e do celular, ao toque. A distância, ao abraço. A vontade, aos beijos. Éramos um universo, dentro de um quarto do meu pequeno apartamento. Nossos corpos misturavam o suor e desejo, em movimentos completos. Os sons dos gemidos recheados de prazer, abafavam a música do ambiente. A madrugada assistiu, passiva. Nada poderia ser feito, a não ser viver.

Foram noites intensas e dias inesquecíveis. Momentos eternizados por entrega sem restrições. Na hora da partida, a promessa do reencontro. Diante do que se apresentava, os pouco mais de mil quilômetros se transformavam em pouco mais de cem.

E pensar que tudo isso começou com uma curtida despretensiosa, numa foto em redes sociais.


João Borges
Joinville/SC


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

...COM CHUVA MESMO




Era um fim de semana qualquer. Daqueles que você tira pra descansar, pensar em nada e aproveitar o dia. Pra completar a cena, a chuva resolveu dar o ar da graça aumentando ainda mais a vontade de permanecer na cama aqueles famosos “mais cinco minutinhos”.
Como de costume, tomei banho tão logo saí da cama. Vesti uma roupa trivial, entenda-se bermuda, camisa e chinelo. Arrumei o quarto e preparei o café. Uma das coisas que curto é ouvir música enquanto faço qualquer atividade, por isso escolhi uma playlist de rock dos anos setenta e oitenta para ouvir num aplicativo de celular. Talvez uma das rotinas mais típicas de quem mora sozinho.
Sem me prender a rotina doméstica, parei por dois minutos para observar a chuva. Minha mente viajou pelo passado até encontrar o dia em que Ela me fez um convite inusitado.
Foi o dia em que ambos estavam em período de férias e, sem combinar, escolheram os mesmos destinos: a praia. Na temporada de verão, aquele lugar triplica a população.

Resolvi saí para caminhar pela faixa de areia, lotada de guarda-sóis, pessoas estendidas sobre toalhas de praia ou sentadas em cadeiras, enquanto tomavam suas cervejas e observavam o movimento, muitas vezes com olhares escondidos pela lente escura dos óculos de sol.

Durante a caminhada, senti que alguma coisa bateu nas minhas costas. Olhei pra trás e vi uma bolinha e uma jovem que corria ao meu encontro. Sem jeito, pedia desculpas por ter me acertado em cheio. Olhei acima dos seus ombros e percebi que na verdade ela não havia me acertado, mas sim uma mulher que estava jogando com ela. Sem me importar por ter levado aquela bolada, sorri e devolvi a bola, acenei e continuei caminhando. Segui até praticamente o fim da orla. Calculei uns 5km de caminhada, sem cansar. O efeito da atmosfera da praia é incrível. Parafraseando a internet, não é água com açúcar que acalma. É água com sal.

Fiquei sentado na areia, no mesmo lugar que resolvi parar a caminhada. O sol aos poucos dava lugar as nuvens, que chegavam escuras e pesadas. A chuva se anunciava e eu ainda tinha 5km de caminhada para voltar. Não havia percebido, mas a mulher que me acertou a bolada também veio caminhar. Estava sentada, mais ao longe, observando a chegada da chuva.

Fiquei olhando o movimento das pessoas que deixavam a faixa de areia enquanto eu pensava as formas de cortar caminho pra fugir da chuva. Iniciei meu retorno pela faixa de areia mesmo, até chegar a um ponto que pudesse ser usado de abrigo. Distraído, ouvi uma voz que vinha por trás de mim. “Vamos continuar a caminhada?”, convidava. Meu olhar perdido ainda buscava um abrigo, enquanto a voz insistia: “Vem, vamos caminhar na chuva”. Olhei pra trás e me deparei com aquela bela mulher. Num primeiro momento, travei sem saber direito o que dizer. “Quer me acompanhar?”, insistia. No momento seguinte, retomei meus sentidos, sorri e continuei caminhando ao lado dela. Foram mais 5km de caminhada sob uma chuva que aumentava a cada instante, inversamente proporcional ao ritmo da caminhada, que diminuía a medida que o papo fluía. Como não havia queda de raios ou trovões, a caminhada seguiu tranquila. Ela me contou o que tinha passado aquele ano pra chegar até ali. Falou um pouco do trabalho e muito dos seus gostos musicais, o que gosta de fazer enquanto ouve música, dos lugares que frequenta, do divórcio, dos filhos e da sua rotina. Os poucos mais de 30 minutos que usei caminhando na ida, transformaram-se em quase três horas no caminho da volta. Não percebemos o tempo passar, nem mesmo o trajeto que havíamos feito.

Mais ou menos na metade do trajeto, interrompemos a caminhada. Sentamos na areia molhada para alongar o papo e a presença. Sorrisos tentavam disfarçar o envolvimento da troca de olhares que de vez em quando eram feitos. Nos poucos momentos de silêncio, ambos buscavam no horizonte alguma resposta para entender o que estava acontecendo ali. O vento soprava leve e as gotas de chuva já tomavam conta dos nossos corpos. 

Quando resolvemos finalizar o trajeto, poucas pessoas ainda estavam na praia. Nossa conversa foi boa, descolada e relaxada. Já no fim da caminhada, Ela virou de frente para mim e me beijou. No início um leve toque dos lábios, depois a intensidade aumentou.
Ainda abraçados, Ela agradeceu a companhia e o bom papo. Aqueles olhos castanhos sorriam naturalmente. Puro encanto.

Não trocamos contato, apenas o compromisso de sempre lembrarmos daquele momento de chuva. Um último beijo e a despedida. Ela desapareceu no movimento das ruas.

Passados os dois minutos para visitar minhas lembranças do passado, enquanto ouvia rock e o som da chuva, segui meu fim de semana. Quem sabe no fim da tarde faça uma caminhada na praia, com chuva mesmo.

sábado, 17 de novembro de 2018

HOJE É UM DIA IMPORTANTE



A noite passou num sopro. Acordei assustado e fui direto pegar o celular pra ver a hora. Minha nossa! Estava muito atrasado. Nem ouvi o despertador tocar. O coitado do aplicativo insistiu tanto que até desistiu. Num salto, saí da cama e corri para o banheiro. Tomei um banho em tempo recorde. 

Escovei os dentes, encarei rapidamente o espelho pra ver o estado crítico do cabelo, me vesti com as primeiras peças de roupa que encontrei pela frente e saí. Mais tarde, descobri que minhas meias estavam trocadas e escolhi roupas que dariam inveja a qualquer paleta de cores. Paciência. Agora eu precisava me concentrar em chegar. 

Fome? Sono? A adrenalina do atraso fez esquecer qualquer falta da necessidade básica de se alimentar ou querer alguns minutos a mais de descanso. Foco, foco. Preciso me concentrar em apresentar o melhor trabalho... Trabalho, trabalho. Meu Deus! Esqueci o trabalho e o pen drive sobre a mesa. Caminho de volta, mais atraso. Te concentra, homem! O que mais pode acontecer de errado? 

Deixa ver, coloquei os impressos e o pen drive na bolsa e a bolsa está sobre a mesa. Isso! É só chegar, pegar e voltar. Por que fui insistir em não enviar isso por e-mail? Eu sei, é aquele bendito medo de enviar e alguém se apropriar da sua ideia ou modifica-la antes de apresentar, não é? Foco, homem. Você precisa se concentrar. Logo hoje, que eu preciso apresentar e voltar para preparar a surpresa pra... Espera! A surpresa. Será que minha família preparou a... Deixa pra lá! Você precisa dar atenção a essa apresentação e torcer pra nada mais dar errado. 

O caminho está relativamente livre, ainda bem. O trânsito está ajudando. Vou ligar uma música pra relaxar. Ah, essa música. Me faz lembrar quando encontrei Ela pela primeira vez. Opa! Blitz de trânsito a frente. Será que vão pedir pra parar o meu carro? Por favor, não. Estou atrasado. Essa música está começando a incomodar. Deixa mudar o ritmo. A fila da blitz está diminuindo, já vejo os policiais. Vou baixar o volume do som. Ufa! Passei. 

Vamos em frente. Estou quase lá. Vish, acho que vai chover, e logo. Cadê meu guarda-chuva? Não é possível. Não está no carro. Tomara que não chova até eu entrar no escritório. Vou desligar o som, está incomodando. Gotas no para-brisa do carro. Chuva. Meu Deus! 

Cheguei, mas a chuva está intensa. E agora? Acho que se der uma corrida, não chego tão molhado na recepção. Vamos ver, onde tem vaga pra estacionar? Hoje todo mundo resolveu vir de carro e estacionar aqui. Opa. Achei uma vaga. Sorte a minha que não fica tão longe da entrada. Vamos lá. Coragem. Corrida, recepção, apresentação e vitória! Eu consigo. 

Abro a porta do carro e sou lavado por um carro que acabou de passar numa poça d’água. Meus nervos estão a flor da pele, mas eu preciso muito de concentração. É importante que você apresente. Sigo em frente. Entro na recepção e percebo que há apenas o vigilante. Ele me cumprimenta e eu respondo cordialmente. Preciso apresentar um trabalho para a diretoria da empresa. O vigilante olha com ar desconfiado. Diretoria? Hoje não há ninguém aqui. Hoje é domingo. Poderia voltar amanhã? 

Meu corpo treme inteiro. Não sei o que fazer. Saio correndo, mas a porta automática não abre a tempo. Bati a cabeça no vidro da porta e caí meio tonto. Ao longe um som intermitente se fazia ouvir. Aos poucos vou recobrando a consciência. Como vim parar na minha cama? Nossa! É o som do despertador. Ufa. Foi só um sonho. Estou a salvo. Agora vou tomar meu banho, porque hoje é um dia importante. Vou apresentar meu trabalho para a diretoria...

João Borges

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

ELA E O AMOR PRÓPRIO




Ela estava lá, a distância, e não fazia muita questão de conversar comigo. Umas poucas mensagens triviais trocadas por celular, e só. Eu até entendo o porquê. Ela preza pela liberdade e não quer dar chance, pois sabe que o coração não conseguiria reagir aos comandos do cérebro, caso esse fosse pego desprevenido. Ao mesmo tempo que se sente livre, também sente falta de uma companhia que a transborde. Aquela solidão “controlada”.

Tomada de amor próprio, decidiu aproveitar o tempo com e para ela mesma. Vai a praia, ao cinema, degusta um bom vinho sozinha, toma chopp e curte música ao vivo com as amigas. O problema era aquela batalha interna. O coração insistindo em compartilhar. Mas Ela é resistente. Firme em seu propósito.

As últimas experiências amorosas tinham sido frustrantes, para não dizer desastrosas. Isso motivou permitir-se um tempo só. Mas aquela batalha... Ela não contava com isso. Bendito coração! Depois de chorar pelas decepções que sofrera, ainda ficava insistindo nesse assunto. “Chega! Basta! Não quero mais!” O cérebro mandava seus impulsos. O coração calava. Pelo menos por enquanto. Bastava um momento de distração da massa encefálica e ele estava lá, o bendito coração mandando ver.

Para distrair o coração, mergulhou no trabalho. Para relaxar do trabalho, mergulhou em atividades físicas. De mergulho em mergulho, Ela tentava apaziguar a disputa interna de espaço entre razão e emoção.

Enquanto isso eu estava lá, observando à distância. Respeitando o espaço e a liberdade. Se estivesse perto, o respeito não mudaria, contudo resolvi deixar as coisas acontecerem naturalmente. Se fosse pra ser, seria de um jeito ou outro. Me restringi àquelas poucas mensagens por celular. No fundo, minha vontade era ter Ela perto. Dedicando parte do meu tempo a arrancar sorrisos daqueles lábios, fazendo da simplicidade minha arma para acelerar as batidas daquele coração. Quem sabe...

Um belo dia, entre as poucas mensagens trocadas, me disse que se sentia incomodada. Acho que o cérebro resolveu baixar a guarda. Em poucas palavras e muitas imagens, mostrou que a solidão estava falando mais alto. Percebi o vazio nela. Pior do que perceber o vazio em alguém, é perceber que a condição desse alguém faz enxergar o vazio em si mesmo, igualando a situação. Pior ainda, é compreender que estar perto dela nessa condição, é somar conjuntos vazios, ou seja, quem irá transbordar quem?

Nem preciso dizer que as poucas mensagens e muitas imagens me fizeram tomar uma decisão: hora de arrumar a casa. Continuo observando a distância. Um dia quem sabe...

Antes disso, Ela precisa de ajuda. Eu também.


João Borges




quinta-feira, 15 de novembro de 2018

GABI E O AR



Dupla perfeita. Ela tem ar nos pulmões e o ar tem ela nos braços.

Leve sobre os arcos. Parceira das barras. Envolvente com as fitas.

Nas curvas dos arcos encontro as curvas do teu corpo. Pura poesia. Pura inspiração.

Na barra, a leveza casa com a força. O sorriso beija a dor. Movimento que encanta.

Na fita ela se entrega, se envolve e envolve. Qual o risco de amar o risco?

O ar é leve. Ela não é diferente. O ar não seria o mesmo se não houvesse Gabi.

Leve pelo ar. Leve pela poesia. Leve pela vida, leve.

Gabi e o ar serão poesia. Até o fim.


JOTA B



GABI MATCHES THE AIR


The perfect match. She has air inside her lungs, and the air has her on its arms.

Light on the hoops. Partner of the bars. Seductive with the ribbons.

In the curves of the hoops, I find the curves of your body. Pure poetry. Pure inspiration.

On the bars, lightness matches the strength. Smile kisses the pain. Enchanting movement.

With the ribbon, she surrenders, gets involved and involves. What is the risk on loving the risk?

The air is light. She is not so different from it. The air wouldn't be the same without Gabi.

Light on the air. Light on the poetry. Light on life, light.

Gabi and the air will be poetry. Until the end.


JOTA B

sábado, 22 de setembro de 2018

APENAS EU POSSO TE SURPREENDER



“Senhor! Senhooor! Isso aqui caiu da sua cesta de compras!”, dizia uma voz feminina, levemente rouca e doce que ouvi por trás de mim. Virei a cabeça para verificar se era comigo e dei de cara com aquele sorriso e olhar de tirar o fôlego, enquanto Ela estendia a mão segurando um sabonete. “Toma, isso aqui caiu da sua cesta”, insistia. Não poderia ter sido da minha cesta, já que nem havia passado na seção de higiene pessoal, mas resolvi não contrariar. Apanhei o sabonete da sua mão, agradeci, depositei na cesta e segui meu caminho pelo corredor do supermercado para finalizar aquela pequena lista de compras, que aliás, nem tinha “sabonete” escrito nela.

No caminho entre o supermercado e meu apartamento não consegui esquecer aquele encontro inesperado. Era uma mulher realmente muito atraente. Cabelos loiros e lisos, olhos castanhos esverdeados, pele levemente morena. Vestia uma roupa clara, que deixava o tom da pele ainda mais evidente num corpo lindamente esculpido.

Já em casa, guardei o que havia comprado. Por último, no fundo da sacola do supermercado, o sabonete. Notei que misturado aos dizeres próprios da embalagem havia um rabisco. Cheguei o olhar mais perto para decifrar. “Me liga”, acompanhado de um número de telefone. “Não é possível! Só pode ser brincadeira”, pensei.

Guardei o sabonete, mas com a crueldade da dúvida tomando até a alma. Demorou uns dois dias até fazer a prova real e ligar para saber se aquela brincadeira tinha algum fundamento.

“Alô”, respondeu aquela voz levemente rouca e doce ao atender a chamada. “Oi”, eu disse meio desconcertado por ouvir que não era acaso. Ela reconheceu minha voz de imediato e tratou de puxar assunto. Confessou que estava me observando há alguns dias e que não era difícil fazer isso, pois morava no prédio bem em frente ao meu. Me convidou para visita-la naquela mesma semana e, se eu aceitasse, iria preparar uma surpresa. Convite aceito, mas eu levaria o vinho.

Chegado o dia, comprei um ramalhete de flores, separei um dos melhores vinhos da adega, me vesti e atravessei a rua. Na portaria, o porteiro já havia sido avisado da minha chegada e, surpreendentemente, me entregou uma chave. Havia sido instruído para ir até o apartamento 1101 e ficasse a vontade. Pelo visto, os detalhes haviam sido pensados minuciosamente.

Dentro do elevador, um envelope estava preso próximo as teclas. Nele estava escrito: “para o homem que está com a chave do 1101”. Abri o envelope e li uma carta escrita em forma de poema:

”Ela deve ser sempre inesperada e também deve causar impacto. Faz bem em ocasião apropriada e não deixa teu coração intacto.
Surpresa é uma forma de alterar a vã previsibilidade das relações. Surpreender é o ato de propiciar felicidade por meio das reações.
Surpresa também é uma cortina que se abre para mostrar alegria, emoções que liberam adrenalina, sorrisos que despertam simpatia.
A surpresa é uma palavra amiga para ser dita no momento certo. É o carinho e o amor que abriga, se acaso a desolação estiver por perto.
Todos gostam de boas surpresas. Alguns tentam, querem até fazer. Ninguém entende tuas incertezas. Apenas eu posso te surpreender. Seja bem vindo!”

Quando ouvi que Ela prepararia uma surpresa, nem de longe pensava em encontrar algo assim.

Cheguei ao apartamento, abri a porta com cuidado e me deparei com aquele ambiente muito bem preparado. A decoração era de bom gosto. Ouvia-se uma música leve de fundo. A mesa estava posta e era possível ouvir o som típico de água caindo de um chuveiro. A porta do banheiro havia sido deixada aberta propositadamente. Quando Ela notou minha presença, pediu que fosse ao seu encontro, ali mesmo. “Por favor, me passe o sabonete. Está sobre o balcão”, disse aquela voz inconfundível. Para minha surpresa, havia um sabonete ainda embalado, da mesma marca daquele que “eu havia deixado cair da cesta”. Ao virar meu corpo para entregar o sabonete, não pude deixar de notar aquela linda silhueta escondida parcialmente pela mistura de vapor e gotas de água que se prendiam no vidro que nos separava. “Vem, entra no banho comigo”. Fiquei sem reação. Ela abriu a porta de vidro, revelando o que as gostas de água e o vapor insistiam esconder. Sorrindo, me pegou pela mão e me levou até onde ela estava. Minha roupa estava sendo molhada enquanto Ela se preocupava em resolver aquele assunto. Tirou cada peça sem tirar os olhos dos meus olhos. Palavras não cabiam naquele instante. A descoberta recíproca era intensa, através de toques sutis intercaladas de pegadas mais fortes. Beijos e carícias se misturavam ao vapor. Os sons dos gemidos se confundiam com os sons da água e da música. Nossos corpos se entrelaçaram e se completaram de tal forma que o tempo era apenas cúmplice daquela entrega. Sentíamos a pulsação acelerada, a respiração alterada. Nossos corpos reagiam ao prazer completo. Total. Sem pudores ou julgamentos.

Passado aquele inesperado e prazeroso banho, recebi um roupão e um convite. “Vamos jantar? Preparei uma surpresa pra você...”

domingo, 2 de setembro de 2018

SERIA UMA VIAGEM RÁPIDA. FOI...



Seria uma viagem rápida. Todos os cuidados possíveis foram tomados. Minha organização exagerada talvez tenha sido um dos motivos para que meu relacionamento tenha terminado. Para mim, até o imprevisto deveria ser previsto. Não havia margem para considerar inesperados. Esse seria o momento adequado para colocar a cabeça no lugar, respirar e pensar em mim. Não que isso não era feito antes, mas no objetivo de fazer dar certo, esquecia que existe alguém tão importante na minha vida, quanto a pessoa que está ao meu lado: eu mesmo. Deixar isso de lado é um terrível engano.

Cheguei ao aeroporto dentro do prazo previsto, despachei as malas e aguardei o embarque, ficando apenas com uma mochila com carteira de documentos, cartões e uma pequena reserva em dinheiro.
O avião já estava lá, a espera. Apesar das inúmeras vezes, nunca consegui acostumar com viagens aéreas. A ansiedade era latente, porém o destino compensava qualquer esforço. Apesar de ser uma visita rápida, dois dias e uma noite seriam o suficiente para relaxar.

A viagem transcorreu tranquila. O semblante da maioria dos passageiros denunciava a normalidade, exceto o meu. Eu era a plena imagem do alívio por estar de volta ao solo firme.

Logo de cara o destino me pregou a primeira peça. Não encontrei minha bagagem. Verifiquei a identificação da esteira de desembarque para me certificar que estava no lugar certo, olhei para os lados e todos os passageiros do mesmo voo que eu, estavam com suas malas em direção a saída do aeroporto. Fui até o guichê da companhia aérea e registrei uma reclamação. Fariam o reembolso da minha bagagem, porém isso ainda demoraria alguns dias. Santa paciência. A solução era ir até o hotel e verificar uma loja de roupas próxima para que eu pudesse comprar o suficiente para passar aqueles dias. Já estava usando parte da minha reserva para imprevistos. Com certa maldade, minha mente contabilizava a primeira vitória. “Viu só como pensar em tudo vale a pena?”, pensava eu querendo dar resposta a uma pessoa que nem estava mais comigo.

Cheguei ao hotel, fiz o check-in e fui até o quarto. Uma maravilhosa vista para o mar seria a primeira coisa que eu enxergaria ao amanhecer. Na recepção, perguntei sobre a tal loja de roupas. Queria resolver isso o quanto antes para aproveitar cada instante naquele lugar. Recebi um cartão com nome, endereço e telefone de uma loja de roupas a poucos metros do hotel.

Tratei de me organizar e ir a tal loja. Aliás, essa sempre foi uma das coisas que não me deixavam a vontade. Elis sempre me ajudava nas escolhas, desde que fossem as mais rápidas possíveis.

Cheguei a loja e fui prontamente atendido por uma moça sorridente que tratou de absorver o maior número de informações possíveis quanto a minha necessidade. Enquanto eu falava, ela me conduzia para o interior da loja, para chegar até a sessão de roupas que eu estava precisando. Chegando na sessão determinada, a atendente me apresentou a vendedora. Seria ela que apresentaria todas as opções. Fiquei sem palavras, tamanha a beleza daquela mulher. Ela deve ter pronunciado umas duas ou três frases, porém nenhuma foi capaz de me tirar daquele transe. “Oi”, foi o que ouvi depois de alguma insistência. Recém acordado e meio constrangido, pedi desculpas.

Ela me ajudou a escolher algumas peças. Nossa conversa rolou mais solta. Ela falava de roupas, música, poesia, filmes e mais roupas. Talvez para me deixar mais a vontade. Se esse era o objetivo, estava conseguindo.
Sem perceber, passei muito mais tempo na loja do que havia previsto. Separei as roupas que Ela me ajudou escolher, passei no caixa, fiz o pagamento e fui em direção a saída. Ela estava lá, próxima a saída. Fiz questão de passar próximo para agradecer o atendimento e, claro, apreciar um pouco mais a beleza daquela mulher. Ela me estendeu a mão. Segurava um bilhete que me foi entregue assim que cheguei próximo. Peguei o bilhete e senti o toque suave de suas mãos. De forma ousada, me beijou no rosto e agradeceu.

Obviamente não é comum que vendedoras tenham esse tipo de conduta com seus clientes, mas aquele gesto me surpreendeu positivamente.

Deixei para abrir o bilhete quando estivesse no quarto. No caminho até o hotel minha mente montou um filme. Tudo o que havia passado recentemente com Elis, o fim do relacionamento, as dúvidas, medos e incertezas que são típicas do período de encerramento de um ciclo.

Era necessário pensar diferente. O objetivo era cativar a si próprio. Reorganizar a vida, resgatar o melhor de mim. E agora aparece Ela, uma mulher linda e cativante, com um bilhete o qual nem faço ideia do conteúdo. Ah, as expectativas. Parece que são criadas em cativeiro. Quando menos percebemos, lá estão elas.  

Cheguei no quarto, larguei as bolsas e fui direto a uma mesa próxima ao guarda-corpo da sacada. Abri o bilhete e vi escrito: “Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se eterniza. E nenhuma força jamais o resgata. Carlos Drummond de Andrade”. Na linha abaixo, estava seu telefone e mais um recado: “Desejo frações de segundos de eternidade com você”.

Liguei para Ela logo na primeira noite. Aquela voz docemente irresistível atendeu. Marcamos um local na orla para nos encontrar. Como não conhecia o lugar, resolvi fazer uma caminhada pela areia. Estava vestindo uma camisa que Ela havia escolhido. Não demorou muito e logo a vi. Lá estava Ela. Sentada de frente para o mar, deixando seus cabelos soltos esvoaçantes dançarem leves ao som do vento que soprava. A faixa de areia era extensa e estava relativamente vazia. O movimento se fazia ao longe, na avenida. Ela me avistou e foi ao meu encontro. Fui recebido com um abraço, daqueles que juntam os cacos esfarelados do peito e conseguem reconstruir, pelo menos parcialmente, uma parte da vida que havia se quebrado.

Entre risos e palavras, os abraços se seguiam cada vez mais ousados. Os toques na pele estavam cada vez mais sensíveis. O vento era a desculpa para que Ela segurasse meu braço e pedisse meu abraço. Eu cedia aos pedidos, envolvendo-a o máximo.
Chegamos próximos a um conjunto de pedras na praia. O som das ondas era forte. Era possível perceber que o mar tentava mostrar sua imponência atingindo, com certa brutalidade, as pedras que nos protegiam.

Ela me convidou para sentar na areia bem próximo ao seu corpo. Segurou meu braço enquanto deitava sua cabeça no meu ombro. Aquele silêncio, interrompido pelo som das ondas nas pedras, nos transportava pela segura sensação de aquele momento não teria mais fim.

Ela me olhou nos olhos. Vi verdades naquele olhar.

Num movimento, me beijou. Um longo e delicioso beijo. Sensações a flor da pele. Carinho que se fazia em forma de carícia. As mãos escorriam pelo corpo as vezes leves, as vezes mais fortes, descobrindo a intensidade que cada um tinha a oferecer. As roupas não conseguiram segurar aquele impulso. Corpos e almas desnudas, entregando-se a segundos de eternidade. Os gemidos mais intensos eram abafados pelo encontro das ondas nas pedras. Os movimentos que uniam nossos corpos pareciam sincronia de dança, perfeitamente encaixados. O suor era facilmente dissipado. Poesia pura naqueles segundos que se transformaram em minutos, e os minutos que se transformaram em horas.

Mal percebemos, mas a noite já havia se transformado em madrugada. Era necessário se despedir já que Ela precisaria descansar para encarar mais um dia de trabalho, já na manhã que se aproximava.

Nos recompomos e retornamos, abraçados, caminhando pela areia próximo a água, até o ponto onde havíamos nos encontrado. Um último beijo selou aquela noite. O beijo que havia desvendado a maciez dos lábios e o carinho do toque. Nos despedimos com sabor e aroma de bons momentos. Sabíamos que talvez fosse a única oportunidade de nos encontrar. Talvez por isso nos lançamos tão intensamente ao momento.

Voltei para o hotel. Ela, para sua casa. O dia seguinte seria de normalidade. Normalidade?

“Cada vez que você faz uma opção, está transformando sua essência em alguma coisa um pouco diferente do que era antes” (C.S. Lewis)

Seria uma viagem rápida. Foi tão rápida, quanto eterna.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O ACASO EM OUTRA TARDE DE SOL



O espelho d’água estava incrivelmente límpido. Os raios de sol se espalhavam serenos pela extensão do lago. A tranquilidade daquele lugar era composta por sons de pássaros e folhas das inúmeras árvores, que se debatiam levemente sob o efeito do vento calmo. O cansaço físico causado pelo esforço da caminhada através da trilha em meio a mata, era compensado sempre que o enorme campo se apresentava diante dos olhos, oferecendo um gramado verde para deitar e descansar livremente.

Apesar de não ser necessário, fui metódico e planejei a caminhada pela trilha com antecedência. O lugar tinha presença frequente de gente dos mais diversos lugares, o que garantiria oportunidade de conhecer novas pessoas. Como havia acabado de sair de um relacionamento, talvez fosse o que eu estava precisando para espairecer um pouco.
Saí de casa sem expectativas e disposto a aproveitar cada instante. Só não esperava que aquela tarde reservaria uma surpresa, daquelas que ficam eternizadas na alma.

Estava deitado e de olhos fechados para aproveitar o som do silêncio, quebrado apenas pela natureza exuberante e rica. A luz do sol, que era o principal motivo de manter os olhos fechados, foi interrompido pela presença de uma sombra repentina. Abri os olhos e vi uma silhueta feminina. Aos poucos, a imagem daquele sorriso foi ficando mais clara. Seria casual? Por qual motivo o universo fez aquela pessoa surgir naquele lugar, exatamente naquele momento da vida? Ela foi a mulher que mais mexeu com meus sentimentos na juventude e já estava guardada no arquivo das melhores memórias. Com o coração disparado, esbocei um cumprimento, que foi impedido por um breve gesto feito por quem pede silêncio, seguido daquele sorriso que sabia realmente me encantar. Sem dizer nada, Ela estendeu sua mão pedindo para que eu levantasse. Me guiou até um lugar mais reservado, estendeu uma toalha no gramado, largou sua bolsa, sentou na toalha enquanto eu acompanhava cada movimento, sem entender direito o que estava acontecendo e sem pronunciar qualquer palavra. Ela sorriu e novamente estendeu a mão, dessa vez para sentar ao seu lado. Passivo e quase anestesiado, segui seu chamado. Com um olhar profundo, senti o toque suave da sua mão que corria em meus cabelos e descia pelo rosto. Tentei retribuir o carinho, mas Ela afastou minhas mãos. Percebi que precisava continuar passivo àquele instante. Resolvi me entregar ao momento e estendi meu corpo ao seu lado, quase colado ao corpo dela. Fechei os olhos, desta vez sem que o sol precisasse ser o motivo. Senti no rosto o deslizar dos dedos macios e finos. Enquanto era explorado a cada centímetro, meu corpo recebia doses extras de adrenalina, que pareciam querer ser expulsas pelos poros. As terminações nervosas da pele foram testadas ao extremo e o coração, em ritmo acelerado, sentia o conforto de um carinho inexplicável. 

Não eram necessárias palavras. O necessário era estar. Apenas isso. Estar 100% ali, sem pretensões ou explicações. Nos amamos profundamente sem palavras. Amamos num eterno período de algumas horas. Aromas da natureza se misturavam ao perfume da pele sensualmente arrepiada.

Percepções? Nenhuma. Quem precisa de percepções quando não existem motivações? Apenas viver o melhor do instante que se apresenta.

Sem cobranças, o eterno fez seu papel. Mais um momento com Ela, que foi guardado em meus arquivos das melhores memórias.

A mim, restava apenas fazer o caminho de volta logo ao entardecer. A Ela, desaparecer tão repentinamente como apareceu naquela tarde de sol. 

A nós, esperar viver o acaso em outra tarde de sol.

sábado, 25 de agosto de 2018

AS BOAS SURPRESAS QUE A VIDA APRONTA




Aquela tarde de sábado com sol brilhando e temperatura amena brindava minha felicidade. Uma caminhada pelas ruas, ainda úmidas pela chuva leve que caira no período da manhã, me davam a oportunidade de organizar as ideias e estruturar alguns projetos que tinha em mente.

Essa prática, comum nas minhas tardes de sábado, foi interrompida pelo inusitado. Uma daquelas boas surpresas que a vida apronta.

Havia um grupo de crianças na praça, organizadas em pequenas mesas que se espalhavam na calçada central. Algumas mulheres, provavelmente suas professoras, davam algumas instruções de como as crianças deveriam se portar diante das pessoas que ali passavam. Sobre as mesas, placas com dizeres bem visíveis: ABRAÇOS GRÁTIS. QUER O MEU?

Parei meio ao longe na tentativa de observar a reação das pessoas, sem que minha reação pudesse ser notada ou testada. Minha tentativa foi em vão. Ao meu lado, puxando pela minha camisa, uma menina com sorriso leve e olhar cativante, sem pronunciar qualquer palavra ou dar alguma chance, me pegou pela mão para levar até a pequena mesa onde ela distribuía seus singelos abraços. Mudo, não pude resistir ao pedido. Antes do abraço, porém, deveria sentar em um pequeno banco, onde iríamos conversar por alguns instantes.

Para minha surpresa ela não falava, mas gesticulava. Estava tentando se comunicar comigo através de LIBRAS*. Desconcertado, por não ter ideia do que ela estava tentando dizer, fui auxiliado por uma daquelas mulheres. Fiquei atônito. O sorriso leve e olhar cativante da menina também estavam presentes naquela bela mulher. “Sou mãe dela”, me respondeu quando questionei sobre a similaridade. “Ela disse que você chamou a atenção pois parece ser um bom homem”. Com um sorriso, agradeci.

Vi aquele rostinho iluminado por luz própria sorrir e, com os braços abertos, me oferecia um abraço, o qual aceitei sem titubear.

Ah! Aquele abraço. As leis da física poderiam ser desafiadas, pois se fosse possível, tentaria parar o tempo e o espaço naquele instante. Eu, adulto, fui completamente envolvido num abraço gentil e inocente de uma criança. Aquele abraço apertado e sincero, conseguiu expulsar minhas mazelas e reclamações da vida. A generosidade daquela criança reverberava em mim através de um gesto tão simples, porém muito significativo.

Quando ela me soltou, novamente sorriu e com gestos me agradecia.

“Eu agradeço, minha criança!”, disse a ela com toda a sinceridade que brotava do peito. Ao seu lado, sua mãe era só sorrisos.

Não foi acaso nem mesmo sabia, mas tudo o que eu mais precisava naquela tarde não era organizar ideias ou estruturar projetos, mas fazer uma caminhada rumo a um forte, generoso e sincero abraço. Meu dia estava completo. Estava renovado e pronto.

A você, ABRAÇOS GRÁTIS. QUER O MEU?



(*) Linguagem Brasileira de Sinais

terça-feira, 21 de agosto de 2018

A GENTE "SE ESBARRA" POR AÍ...





Era uma noite fria qualquer. Chovia pouco e a hora entrava madrugada a dentro. 
Aquela noite foi especialmente boa. Amigos reunidos, muita festa, boas risadas, bom vinho. Tudo havia sido minuciosamente planejado. Eu era um dos poucos que ainda estava sóbrio. Minha tolerância a bebidas tinha um limite muito aquém dos meus amigos e a régua havia chegado ao limite do tolerável. Junto a calçada, a fila de táxis denunciava o fim da festa aos que passavam por aquele lugar. Saí sozinho, fui até o estacionamento, entrei no meu carro e ouvi o som de uma notificação de mensagem no meu celular. Era a Jaque, a anfitriã. Pedia carona para uma amiga, que estava na festa e morava num condomínio que ficava no caminho, que eu provavelmente faria até minha casa.

Saí do carro, voltei até a entrada e lá estavam as duas à minha espera.

Engraçado, entre tantas pessoas naquele lugar, foi difícil acreditar que eu não tinha notado a presença daquela mulher tão linda. Jaque, sorridente, agradeceu pela amiga e aproveitou para me apresentar. Aquela troca de olhares me fuzilou, mas me mantive firme. Cordial, cumprimentei-a com um beijo no rosto, daqueles bem informais. Ela foi mais ousada. Também me deu um beijo no rosto, mas usou bem o limite e chegou ao canto do meu lábio. Naquele instante pude perceber, mesmo que de um jeito fugaz, o perfume, a maciez daquele lábio e a intensidade daquele momento. Jaque notou que houve algo diferente naquele instante e tratou de sair rapidamente.

Acompanhei Ela até o estacionamento, abri a porta do carro e deixei que ficasse confortável. Saímos na direção certa, porém decidimos pegar alguns atalhos. Desses que a vida apresenta e você precisa decidir se vai e arrisca ou faz o caminho convencional, mais longo e com destino certo.

No caminho, ousamos sentir a textura da pele um do outro, o aroma, o sabor. Resolvemos desvendar curvas ainda desconhecidas e acelerar para parar o tempo, num paradoxo improvável. 

Aquele trajeto, que poderia ser feito em, no máximo, 15 minutos, foi feito em não menos que 4 horas. 

Atalhos normalmente encurtam distâncias e tempos. Aquele, alongou a vida.

Ela tecia poesia em forma de movimento. O efêmero se fez eterno. Pelo menos naquele instante, não havia nada mais além de duas almas que se entregavam ao prazer da vida.

Intensidade resumiu tudo o que aconteceu no trajeto, interrompido uma única vez.

Somos instantes. E a soma deles, chamamos vida. Se a vida é breve, poderia dizer que encontrei felicidade naquele breve momento.

Ao chegar em frente a sua casa, ouvi um “amei” saindo daqueles lábios recém descobertos. 

Inebriado pelo calor do momento, ainda pude ouvir aquela voz suave me dizendo com tons de continuidade: “a gente se esbarra por aí”, enquanto sua silhueta, aos poucos, se desfazia, misturando-se a escuridão da noite.

terça-feira, 10 de julho de 2018

HERÓIS ANÔNIMOS




Hoje tive o prazer de me sentir mais humano. E como tal, perceber que o bem ainda prevalece sobre o mal.

Hoje o dia foi de receber boas notícias. De saber que existem mais de mil pessoas envolvidas em manter treze pessoas vivas, do que umas treze pessoas envolvidas em tirar a vida de mais de mil.

Olhando o exemplo do resgate bem-sucedido daquele grupo de pessoas presas em uma caverna na Tailândia, envolvendo profissionais, voluntários, pessoas de outras nacionalidades, enfim... todos se movimentando para que aquele pequeno grupo de pessoas pudesse ser retirado com vida, reforço, ainda mais, minha convicção de que a humanidade tem jeito.

Hoje o dia foi de saber que os super-heróis existem. São reais. Saber que não usam necessariamente aquelas capas estereotipadas dos filmes e séries de TV ou das histórias em quadrinhos. Alguns usam capas de chuva. Outros, roupa de mergulho. Há aqueles que dirigem ambulâncias, pilotam helicópteros, instalam bombas de drenagem de água. Enfim, são tantos que é muito difícil listar. São anônimos, mas são heróis. E o melhor: gente de carne e osso, como eu e você. Gente da gente. Que falam idiomas diferentes, estão espalhados pelo planeta, têm cor de pele diferentes, mas a mesma cor do sangue. A mesma batida do coração.

O que os torna super-heróis? Seria alguma força sobrenatural? Voam ou têm superpoderes? Nada em especial, a não ser a empatia. O fazer algo a mais em favor de alguém a quem não se conhece, sem querer nada em troca. Você até pode chamar de clichê, mas isso é amor. O maior dos superpoderes.

Num mundo carente de amor, o mais simples seria pensar que não vale a pena mover mais de mil pessoas por um grupo de apenas treze. Mas num mundo que ama, a vida de treze pessoas é tão importante quanto as mais de mil que se agigantaram para superar limites e dificuldades. Sim, e eles conseguiram!

Que bom! Hoje o mundo descobriu alguns super-heróis. Vamos dormir e acordar melhor. Mais de mil vezes melhor.


João Borges
Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...