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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

TROPEÇOS

 


Eu, andarilho de sonhos que sou, caminhava por uma estrada de chão batido.

Nas mãos, uma mala quase vazia de poucas roupas e muitas histórias.

Algo me conectava àquele lugar. Não sabia exatamente o quê.

Caminhando, tropecei. Era uma pequena caixa, semiafundada na terra seca.

Tirei do chão e limpei-a com cuidado. Era uma caixinha de lembrança.

Dois palmos adiante, outra caixa. Essa um pouco menor. Quem sabe cabe dentro da caixa da lembrança. Era a saudade.

Resolvi guardá-las na mala.

Caminhando mais um pouco vi uma casinha. Era muito simples, de madeira. Na porta lateral uma senhorinha me acenava, sorrindo. Lembrei da minha avó. Lembrando dela, pude sentir o aroma do café com leite e do bolo de fubá, recém saído do forno. Ah, que lembrança boa. Deu saudade.

Distraído com a lembrança, tropecei de novo. Era outra caixa.

Tirei do chão e limpei com cuidado. Era outra lembrança.

Dois palmos adiante, outra. Essa um pouco maior. Quem sabe essa nova lembrança cabe dentro da nova caixa. Era a tristeza.

Resolvi guardá-las na mala.

Caminhando mais um pouco ouvi o som do trote de um cavalo. Chegou rápido. Na montaria, o senhor com chapéu de palha me cumprimenta:

- Taaarde

Eu retribuí, meio sem jeito.

- A dona da casa ali adiante te reconheceu. Ela quer que vá lá conversar.

Olhei meio desconfiado e relutante, mas aceitei.

Com pressa, o cavaleiro movimentou o corpo de modo que o cavalo pudesse entender que era hora de ir. E foram.

De repente a mala ficou mais pesada. Seria possível que a culpa daquele peso todo era das caixas?

Cheguei na casa e a dona veio logo me convidando a entrar. Disse que tinha me reconhecido, mas eu não a reconhecia.

Sobre a mesa estava o café e o bolo de fubá, recém saído do forno. Também havia uma fotografia. Uma imagem antiga de um punhado de gente se espremendo procurando entrar no enquadramento. Era a minha família. Muitos deles, hoje, nem contam mais histórias. Ah, que lembrança estranha. Era uma mistura de saudade e tristeza.

Da dona da casa ouvi histórias de um tempo que nem me recordava. O tempo passou rápido. Afinal, quem era a minha estranha conhecida?

Ela sabia bastante sobre mim. Eu, porém, mesmo com muito esforço, não percebi que havia passado um fragmento do meu dia diante do amor. Quanta cegueira. Terei oportunidade de retornar para visita-la?   

De volta ao caminho, senti a mala ainda mais pesada. Parei, abri a mala e vi que as caixas haviam se multiplicado. Eram muitas. Era uma mistura de lembranças boas, lembranças ruins, saudades e alguma tristeza. Ali parado, resolvi separá-las. As lembranças ruins eram as mais pesadas. Tirei-as da mala, abri um buraco o mais fundo possível e as enterrei. Ninguém merece encontrá-las no caminho e guardá-las como se fossem suas. Encontrei dois gravetos, montei um formato de cruz e finquei no chão, bem na cabeceira da cova improvisada. Ali fiz uma oração de despedida para que as lembranças ruins descansassem em paz.

Voltei para a estrada com a mala mais vazia e o coração mais leve. Distraído e pensando no ocorrido, novo tropeço. Desse não eu escapei. Fui com o rosto direto ao chão. Bati com força. Levei as mãos ao rosto e...

Eu, andarilho dos sonhos que sou, despertei. Não sentia dor alguma. Estava deitado numa cama boa. Ao meu lado, uma mala quase vazia de poucas roupas, muitas histórias e algumas caixinhas...

 

JOTA B

 

 


sábado, 13 de junho de 2020

RECONECTAR




Finalmente havia chegado o feriado. Seriam quatro dias para aproveitar fazendo caminhadas por trilhas em meio a mata fechada. Era um daqueles programas que recarregam as energias, que demandam cuidados e algum planejamento.

Passei um bom tempo pesquisando as melhores trilhas para caminhada nas regiões mais próximas. A maioria delas eu já havia passado pelo menos uma vez. Uma delas eu ainda não conhecia. Alguns trilheiros contam que no caminho é possível encontrar lagos e quedas d’água. Era o cenário perfeito para a minha próxima caminhada.

Fui de carro até o ponto máximo permitido. Era um camping, bem estruturado e movimentado. Estacionei o carro, retirei minha mochila, troquei meu calçado e me preparei para a caminhada. Seriam 14km percorridos até o final da trilha escolhida.

O cenário era perfeito. A temperatura amena, dia ensolarado, pessoas indo e voltando. No início a trilha era larga e plana. Adentrando a mata, ficava mais estreita e com obstáculos. O terreno já não era tão plano e o sol cada vez menos presente. Alguns poucos raios de luz solar se deitavam sobre a trilha, apenas. O som das folhas ao vento e dos pássaros era sinfonia. Tudo aquilo me envolvia de tal forma que o stress já nem mesmo era lembrado. Como é bom ouvir o som do silêncio e deixar que a alma dance naqueles acordes.

Pouco mais de uma hora de caminhada e aos poucos outros sons começavam a aparecer. Parecia o som de um riacho. Caminhei em direção ao som, como se fosse um mosquito atraído pela luz de uma lâmpada. Desci um barranco, tropecei em raízes de árvores quase enterradas que invadiam a trilha, rolei pelo chão, arranhei meus braços, mas consegui chegar. Era um rio. Nele havia pedras de todos os tamanhos. O nível do rio estava baixo e a água totalmente limpa corria suave em torno das pedras, como crianças no parque numa tarde de sábado. Aproveitei para sentir a temperatura da água, lavar as mãos e o braço que pouco sangrava pelos arranhões. Fiquei ali por alguns instantes, aproveitando aquele ponto de paraíso. Decidi subir o rio pela margem. Não havia trilha, o que atrasaria minha chegada ao final do percurso, mas parecia recompensador. No caminho tortuoso ia me reencontrando. Sentia reconectar a vida. Meu suor naquela mata era diferente daquele que tinha em dias quentes quando saia do escritório. Era um abraço da natureza em forma de gotículas que brotavam dos meus poros.

Duas horas de caminhada pela margem e o som das águas ficava mais robusto. Era claramente o som de uma queda d´água. Por ter saído da trilha e percorrido a margem do rio, não havia encontrado outras pessoas pelo caminho. Depois de uma curva no rio e de algumas árvores enormes para desviar, finalmente cheguei a um lago. Ao fundo, um paredão de pedra que era banhado por uma cascata. Era possível ver os degraus finais da cascata, mas não era possível ver onde começava. O lago era relativamente grande e não havia pessoas no final da trilha. Nesse ponto do caminho o sol ganhava um grande espaço para mostrar sua majestade. Sentei as margens do lago, querendo ouvir o som da queda d’água, que de tão alto sobrepunha o som das folhas. Estava cansado, mas feliz. Deitei-me ali mesmo para aproveitar aquele momento, que foi interrompido por som de passos. Ela apareceu da trilha. Estava com biquini e caminhava em direção ao lado para tomar um banho naquela água fria e límpida. Passou por mim, lançou um olhar, deu um sorriso e entrou na água. Não pude deixar de perceber a beleza daquele sorriso. O sol dava ainda mais brilho naquele corpo cuidadosamente esculpido e de pele morena. Seus olhos eram castanhos, cabelos pretos esvoaçantes e que iam até pouco abaixo do ombro. Seios médios e curvas sinuosas pelo corpo que me prendiam o olhar. O coração disparou vendo-a entrar na água. Fiquei ali, meio desconcertado, mas firme em aproveitar aquele instante. Depois de alguns minutos, Ela saiu da água e veio em minha direção. Estendeu a mão, me convidando para segui-la. Eu não estava disposto a entrar na água, mas chegar mais perto da margem era bem possível. Ela me levou até mais próximo da margem e com cuidado molhou os arranhões, limpando-os. “Eu vou cuidar disso aqui”, dizia com voz doce. A água que percorria meu braço parecia não estar fria. Ela se sentou ao meu lado e começamos a conversar. O papo fluiu natural e encantadoramente. “Seria Iara, a sereia dos rios brasileiros?”, pensei. Ela mostrava ser afetuosa. Por várias vezes procurava me tocar. Aos poucos chegava cada vez mais perto de mim. Por fim, se envolveu no meu braço e deitou sua cabeça em meu ombro. Seguíamos conversando quando Ela me interrompeu. Me convidou para tirar a roupa e entrar na água. Olhei em volta. Ninguém. Ela viu que fiquei um pouco intimidado pelo convite inusitado. Chegou perto de mim e me beijou. Tirou minha roupa vagarosamente. Fui recíproco. Entramos no lago. A água era fria, mas assustadoramente gostosa. Ela foi mais próxima da queda d´água, onde os pés já não alcançavam o fundo. Me chamou e eu fui. Me entreguei de vez ao inesperado. Com calma, nadou para perto de mim, envolveu seus braços em volta do meu pescoço e chegou seu corpo junto ao meu. Suas pernas envolveram minha cintura. A respiração de ambos aos poucos ficava mais intensa. Os olhos se cruzavam e o calor dos corpos aumentava. Longos beijos eram trocados. Não foi difícil esconder minha excitação, da mesma forma que ela também estava. A pele arrepiada, a intensidade dos toques e os gemidos que se confundiam com os sons da natureza, completavam o cenário do nosso primeiro contato. Ficamos ali por longos minutos, que mais pareciam segundos.

Saímos do lago abraçados. Fomos para um lugar com sombra, nos vestimos e ficamos conversando. Tantos assuntos apareceram, mas não sabia de onde Ela era. Perguntei e ela respondeu: “Longe de tudo, mas perto de você”. Uma resposta vaga que foi precedida de um beijo. Ela botou a mão em meu peito e me fez deitar na grama. Me beijou novamente e de um jeito que jamais vou esquecer. De repente se levantou e caminhou em direção a mata. Sobre minha mochila um bilhete. “Me liga. Quero teus beijos pra mim”. Olhei em volta e não a encontrei mais.

Eu precisava me reconectar, mas aquele feriado me mostrou que a natureza reserva boas surpresas que levam a graus elevados de conexão pura.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A DISTÂNCIA NÃO DIMINUI A IMPORTÂNCIA




Das coisas que sempre gostei de fazer, botar o pé na estrada é uma das preferidas. Se a viagem envolver simplicidade e uma boa dose de ousadia, melhor ainda. Não quero dizer que planejar não é necessário. Pelo contrário, faço com que planejamento e organização trabalhem a meu favor, contribuindo para oportunizar minhas intempestivas decisões. Não sou o tipo de pessoa que planeja uma viagem com meses ou até anos de antecedência. Eu decido de uma hora para outra. Havendo tempo e condições, apenas vou. E vou sozinho, de carro, porque a estrada me dá tempo de respirar, refletir e acalmar a mente.

Lembro que num desses momentos de boa insanidade, resolvi aproveitar as férias para viajar para o interior do país. Era uma viagem longa, mas esse tipo de distância – entre origem e destino – nunca me incomodou. A distância que me incomoda é aquela que, as vezes, existe entre as pessoas que estão bem ao nosso lado. Essa é a pior delas.

Num dia fiz a revisão do carro, no outro já estava na estrada, dirigindo para um lugar que surgiu numa conversa trivial qualquer, entre amigos.
Para deixar a viagem mais interessante, inclui no roteiro algumas cidades vizinhas, onde poderia conhecer uma região maior.

Conforme se afastava da minha cidade, percebia a mudança de cenário. Do corre-corre urbano, dos horários e demandas que precisam de atenção, do trânsito e dos problemas que qualquer cidade grande tem, à tranquilidade da estrada. Muito verde ao redor e apenas o som do rádio ligado. A música, o asfalto e a natureza foram meus companheiros durante várias horas. Pouco mais de meio dia de viagem, cheguei ao destino. Uma cidade pequena, onde as pessoas se conhecem, se cumprimentam e confiam umas nas outras. Estacionei meu carro em frente a uma pousada e resolvi entrar para conhecer as instalações, além de verificar se havia vaga para pernoitar. Fui recebido por um senhor de cabelos brancos, ar de gente simples, mas com a disposição de um jovem. De imediato mostrou-me o lugar. Nem mesmo pediu pra preencher formulários ou assinar qualquer documento, como seria o protocolo. O lugar era um casarão simples, mas muito bem cuidado e limpo. Aquele ambiente favorecia a sensação de estar em casa. Enquanto aquele velhinho simpático me mostrava a pousada, falava sobre a história do casarão e das pessoas que ali moravam. Fui arremessado ao passado. Era possível visualizar aquele belo lugar e as imensas plantações de café, cravadas na zona da mata mineira. Hoje as plantações que acompanhavam o casarão não existem mais. No lugar, outras casas foram erguidas, ruas e praças foram construídas. Ao fundo do casarão, havia uma escola. Meu quarto era na parte superior da pousada e a janela do quarto dava para essa escola. Logo ao chegar, percebi o som das crianças brincando. Para alguns poderia ser motivo para mudar de quarto, ou até mesmo sair da pousada. Para mim não havia problema.

Tratei de levar minhas bolsas para o quarto, tomar um banho e descansar um pouco. O som das brincadeiras havia sido interrompido. Olhei pela janela e vi que as crianças haviam entrado em sala de aula. Senti que estava conectado àquele lugar. Toda aquela atmosfera era favorável ao prazer do descanso.

Terminando o banho, notei o som de um violão. Em coro, as crianças acompanhavam a professora. Não consegui identificar a música, mas confesso que o som era bem agradável. Me vesti e voltei para a janela. Dali consegui ver a professora sentada no chão, e as crianças sentadas em círculo junto dela. Num relance nossos olhares se cruzaram. Eu, da janela, olhei sorrindo. Ela, da sala, retribuiu. Como não ser atraído pelo olhar fulminante e sorriso perfeito que formavam covinhas naquela face iluminada? Fiquei ali acompanhando a cena durante alguns instantes, até que a música acabasse.

Resolvi relaxar e dormir um pouco. Queria dar uma volta na cidade assim que fosse possível. Meu sono durou o suficiente para recarregar as energias. Fui acordado pela chuva que caía. Minha caminhada para conhecer a cidade estava comprometida, mas como não desisto fácil, comprei um guarda-chuva no mercadinho próximo a pousada. 

Alguns poderão dizer que foi coincidência, eu prefiro achar que Deus me colocou na hora e lugar certo, pois no trajeto do mercadinho para a pousada, cruzei com a bela professora. Ela tentava correr para fugir da chuva, mas estava tão cheia de material escolar nas mãos, que correr não lhe era possível. Chamei-a e perguntei se ela aceitaria abrigo debaixo do meu guarda-chuva. Ela me olhou, correu ao meu encontro e chegou perto de mim, de forma que a chuva não pudesse causar estrago ao material. Ofereci carona de carro até sua casa. No primeiro momento fez aquela expressão de “deixa pensar”, mas ao perceber que as poucas quadras que tinha que caminhar até em casa poderiam estragar seu material, resolveu aceitar. Fomos até a entrada do casarão. Eu ainda precisaria pegar a chave do carro que estava no quarto. Enquanto isso, aquele senhor simpático, ao perceber que ela estava me esperando, mas toda molhada por causa da chuva, correu ao encontro oferecendo-a uma toalha.

Entramos no carro e fui leva-la em casa. O trajeto era curto, mas pedi permissão para alongar o percurso. Queria conversar um pouco mais. Logo de cara Ela percebeu que eu não era dali. O sotaque me denunciava. Contei a história sobre como fui parar naquele lugar, longe de casa, mas próximo de mim mesmo. Nossa conversa não foi longa, mas o suficiente para deixar um gostinho de quero mais. Combinamos nos encontrar no dia seguinte, sábado. Ela se dispôs a ser minha guia para conhecer a região. Deixei Ela em casa e retornei à pousada. Se caminhar estava nos planos e não deu certo, aceitei de bom grado as mudanças que acabaram acontecendo naturalmente.

No dia seguinte, Ela me encontrou na praça central. O dia estava ensolarado e minha guia pediu que eu fosse de carro. Os lugares que visitaríamos seriam mais distantes. No caminho pudemos mergulhar um pouco mais nas nossas histórias. Rir de coisas bobas. Aquele sorriso dela me deixava sem ação. Visitamos cachoeiras e caminhamos por belas trilhas. Uma dessas cachoeiras fica numa propriedade particular, que também serve de ponto turístico e tem estrutura com restaurante. Ali almoçamos, diante de uma queda d’água com aproximadamente vinte e cinco metros de altura. A tarde foi pequena para nossas caminhadas e visitas. A última das trilhas que percorremos, terminava num pequeno riacho. Águas calmas, som da mata com o efeito do vento e muitos pássaros. O sol mostrava que o fim do dia estava próximo. Nos sentamos a beira do riacho, em silêncio. Nossos olhares se cruzaram. Fiz um carinho em seu rosto e beijei-a. Se pudesse, congelaria o tempo naquele instante. Aqueles lábios macios me fizeram levitar. A eternidade poderia se chamar beijo. Por um instante, Ela me colocou em algum lugar longe de preocupações, pressões e stress. Era o lugar perfeito.

Abracei-a com vontade de contrariar as leis da física. Ali, dois corpos ocupariam o mesmo lugar no espaço. E assim ficamos durante um bom tempo. Era possível a um, sentir as batidas do coração do outro.

O sol se punha. O dia passou muito rápido.

Assim como o sábado, os dias que se seguiram não foram diferentes. Ela e eu conversávamos todos os dias, durante os cinco dias que fiquei na cidade. Passadas as férias e de volta a rotina, continuamos conversando pela internet. Quer saber se ainda nos encontramos? Sempre, afinal ainda contrariamos as leis da física.

Enfim, vivi na prática o paradoxo que diz: a distância entre duas pessoas distantes pode bem menor do que a distância entre duas pessoas próximas.



João Borges
Joinville

domingo, 14 de janeiro de 2018

CAFÉ QUENTE, CABEÇA FRIA.


Era um dia de muitas nuvens. A chuva, aos poucos, ficava menos intensa. Já era possível sair para caminhar, se as poucas gotas de água que insistiam em cair não fossem fator de incômodo – e de fato não eram, pelo menos para mim.

Era necessário ir ao mercado próximo da minha casa, pois a desatenção acabou não permitindo perceber a falta de filtro para café – e minha vontade de tomar esse precioso líquido, era grande.

O mercado não é distante. Necessário caminhar uns oitocentos metros, já considerando ida e volta. No caminho, um estabelecimento para limpeza de carros, uma loja de roupas, uma igreja, uma sorveteria, algumas casas e o destino final, o mercado. Tudo muito perto.

No caminho percebo que, aos poucos, as pessoas iam tomando as calçadas, porém ainda portando seus guarda-chuvas. Aquela chuvinha enganava. A famosa “chuvinha de molhar bobo”.

Chego ao mercado, vou direto até a prateleira, apanho o pacote de filtros, me dirijo ao caixa, pago e faço o caminho inverso. Minha vontade de tomar aquele café só aumentava, a medida que a distância até minha casa diminuía.

No caminho de volta o cenário não havia mudado muito. Sons de carros passando na rua, pessoas caminhando, o som da música que era ensaiada na igreja – imagino que o culto estava prestes a iniciar – calçada molhada e, claro, o café. Aquela vontade era insubstituível.

Poucos passos depois de iniciado o caminho de volta, uma cena um tanto quanto inusitada. Um casal, elegantemente vestido, andava no sentido contrário, na mesma calçada. Ele de terno num tom claro, gravata azul, chapéu panamá combinando com a cor do terno, segurava uma pasta executiva e o guarda-chuva. Ela estava de vestido longo, detalhes floridos, cabelos cuidadosamente amarrados e salto alto. Caminhavam vagarosamente em minha direção. Aquilo poderia ser comparado a uma cena dos célebres filmes de Hollywood dos anos 50 do século passado, não fosse por um detalhe: quem estava protegido da chuva era ele, não ela.

Certamente Don Lockwood ficaria envergonhado e cederia seu guarda-chuva àquela dama, mesmo porque esse artefato era apenas detalhe nas mãos de Gene Kelly na famosa cena de “Cantando na Chuva”.

- Senhor, essa senhora está na chuva! Disse eu, sorridente para tentar “quebrar o gelo”.

- É bom para esfriar a cabeça. Disse ele grosseiramente, inversamente proporcional a elegância do traje.

A ela coube apenas me retribuir a tentativa com um sorriso tímido, enquanto caminhava ao lado do distinto “cavalheiro”.
A mim, coube ficar refletindo sobre aquela cena, avaliando o quanto conseguimos ser vazios enquanto somos cheios de si.

É, Gene Kelly. Algumas pessoas precisariam voltar aos anos 50 e extrair de lá algumas coisas boas que eram vividas naquele tempo.

E o meu café? Saboreei assim que cheguei em casa, pois acabara de esfriar a cabeça na chuva, a exemplo daquela senhora, no caminho de volta.


João Borges
Escritor - Joinville


PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...