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quarta-feira, 17 de março de 2021

DESAFIO DA VIAGEM

 


DESAFIO DA VIAGEM

 

Eu aqui, novamente diante de um papel virtual todo branco.

A tela do computador a minha frente e minha mente vagando com rumo certo, mas sem saber exatamente como escolher o ticket da passagem com destino a você.

Cada história, uma história. Não existe a mesma história, o mesmo texto, o mesmo poema...

Em cada linha, uma tentativa de expressar aquilo que a boca não consegue dizer, porque ela tropeça em palavras, em ideias desarranjadas e caóticas. Prefiro que não sejam palavras ao vento. Quero eternidades em cada frase. Quero que chegue a você com o mesmo jeito de coração acelerado de quando nos abraçamos. Com o mesmo gosto bom de cada beijo dado. Com o mesmo carinho de cada toque ousado. Com a mesma intensidade dos momentos, por mais curtos que fossem.

Sei que as atitudes falam mais alto do que as palavras. Minha atitude possível é escrever. Tentar me desafiar diariamente e viajar na busca para identificar as suas características mais profundas que, ao ler, simplesmente dirá: é isso. Porque, por algum motivo qualquer, como eu, também não expressa em palavras aquilo que o coração diz.

Eu aqui, novamente diante de um papel virtual, quase todo branco, tentando dizer: assim vamos nos encontrando, mesmo que em poemas curtos, em saudades, nos silêncios do eu aqui e você aí, no tempo, no espaço, guardados ali no cantinho do peito, só aguardando o ticket para a próxima viagem.

 

JOTA B



TRAVELING IS HARD


Here I am again, before a almost-wholly-blank virtual paper.

The computer screen before me and my mind going to the right way, without knowing exactly how to choose the ticket to a destination on you.

Each story is a story. There aren't same stories, same texts, same poems...

In every line I try to express what words can't say, because they stumble on words, on unorganized and chaotic ideias. I prefer they aren't thrown-to-the-wind-words. I want eternity in every sentence. I want it to reach you in the same way of my beating heart when we hug each other, with the same good taste of every given kiss, with the same caress of every audacious touch, with the same intensity of our moments, however short they were.

I know that actions speak louder than words. My possible action is to write. To challenge myself daily and travel in search to identify your deepest traces that, when read, will say: that's all. Because, for any reason, like me, you can't express in words what heart says.

Here I am again, before a almost-wholly-blank virtual paper, trying to say: here we are, meeting each other, even through short poems, through yearning, through the silence of me here and you there, in time, in space, kept somewhere inside the heart, waiting for the ticket for the next trip.


JOTA B



quarta-feira, 10 de março de 2021

QUERO DIZER

 


Saudade sua. De tanto calor e da falta que você faz. Transpira quando estamos juntos, respira fundo quando a distância ajuda a apertar a dor.

Amor amarra. Com corda ou sem corda, com laço ou algum nó. Por isso posso afirmar o quanto estou amarradão em você.

Liberdade é presente. Sem fitas ou embalagens. Nua e crua. É agora, sem esperar demais.

Reciprocidade é preciso. Tão necessário quanto acertar precisamente no centro do alvo.

Respeito é o mínimo. Nem precisa de microscópio, porque é a maior das virtudes.

Você é o máximo. Porque, no mínimo, encontrei um infinito.

 

JOTA B


segunda-feira, 1 de março de 2021

SAUDADE


Saudade é aquela coceirinha na alma que insiste em perguntar: vamos de novo?

 

JOTA B



YEARNING


Yearning is that discomfort in the soul that insists on asking for a "Let's give it a replay?"


JOTA B


 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

TROPEÇOS

 


Eu, andarilho de sonhos que sou, caminhava por uma estrada de chão batido.

Nas mãos, uma mala quase vazia de poucas roupas e muitas histórias.

Algo me conectava àquele lugar. Não sabia exatamente o quê.

Caminhando, tropecei. Era uma pequena caixa, semiafundada na terra seca.

Tirei do chão e limpei-a com cuidado. Era uma caixinha de lembrança.

Dois palmos adiante, outra caixa. Essa um pouco menor. Quem sabe cabe dentro da caixa da lembrança. Era a saudade.

Resolvi guardá-las na mala.

Caminhando mais um pouco vi uma casinha. Era muito simples, de madeira. Na porta lateral uma senhorinha me acenava, sorrindo. Lembrei da minha avó. Lembrando dela, pude sentir o aroma do café com leite e do bolo de fubá, recém saído do forno. Ah, que lembrança boa. Deu saudade.

Distraído com a lembrança, tropecei de novo. Era outra caixa.

Tirei do chão e limpei com cuidado. Era outra lembrança.

Dois palmos adiante, outra. Essa um pouco maior. Quem sabe essa nova lembrança cabe dentro da nova caixa. Era a tristeza.

Resolvi guardá-las na mala.

Caminhando mais um pouco ouvi o som do trote de um cavalo. Chegou rápido. Na montaria, o senhor com chapéu de palha me cumprimenta:

- Taaarde

Eu retribuí, meio sem jeito.

- A dona da casa ali adiante te reconheceu. Ela quer que vá lá conversar.

Olhei meio desconfiado e relutante, mas aceitei.

Com pressa, o cavaleiro movimentou o corpo de modo que o cavalo pudesse entender que era hora de ir. E foram.

De repente a mala ficou mais pesada. Seria possível que a culpa daquele peso todo era das caixas?

Cheguei na casa e a dona veio logo me convidando a entrar. Disse que tinha me reconhecido, mas eu não a reconhecia.

Sobre a mesa estava o café e o bolo de fubá, recém saído do forno. Também havia uma fotografia. Uma imagem antiga de um punhado de gente se espremendo procurando entrar no enquadramento. Era a minha família. Muitos deles, hoje, nem contam mais histórias. Ah, que lembrança estranha. Era uma mistura de saudade e tristeza.

Da dona da casa ouvi histórias de um tempo que nem me recordava. O tempo passou rápido. Afinal, quem era a minha estranha conhecida?

Ela sabia bastante sobre mim. Eu, porém, mesmo com muito esforço, não percebi que havia passado um fragmento do meu dia diante do amor. Quanta cegueira. Terei oportunidade de retornar para visita-la?   

De volta ao caminho, senti a mala ainda mais pesada. Parei, abri a mala e vi que as caixas haviam se multiplicado. Eram muitas. Era uma mistura de lembranças boas, lembranças ruins, saudades e alguma tristeza. Ali parado, resolvi separá-las. As lembranças ruins eram as mais pesadas. Tirei-as da mala, abri um buraco o mais fundo possível e as enterrei. Ninguém merece encontrá-las no caminho e guardá-las como se fossem suas. Encontrei dois gravetos, montei um formato de cruz e finquei no chão, bem na cabeceira da cova improvisada. Ali fiz uma oração de despedida para que as lembranças ruins descansassem em paz.

Voltei para a estrada com a mala mais vazia e o coração mais leve. Distraído e pensando no ocorrido, novo tropeço. Desse não eu escapei. Fui com o rosto direto ao chão. Bati com força. Levei as mãos ao rosto e...

Eu, andarilho dos sonhos que sou, despertei. Não sentia dor alguma. Estava deitado numa cama boa. Ao meu lado, uma mala quase vazia de poucas roupas, muitas histórias e algumas caixinhas...

 

JOTA B

 

 


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O SOM DA SAUDADE

 



Caminhando pela calçada, numa tarde quente de verão, ouvi um sussurro. Era a doce voz do vento anunciando que não demoraria para a chuva chegar. O esgotamento do dia fez eu me permitir ao luxo da espera.

Sentei-me num banco de praça qualquer. Meu corpo suado era a própria tradução do castigo que a temperatura trouxe naquele dia. No céu, as nuvens negras e carregadas das mais puras e pesadas lágrimas, se reuniam. Pessoas iam e vinham freneticamente. A luta contra o tempo era latente. Alguns fugiam da possibilidade de se molhar com a chuva que, aos poucos, chegava. Outros fugiam de si mesmos, das frustrações e dos próprios pesadelos. Outros ainda, buscavam respostas onde as perguntas não existiam. Enfim, cada pessoa exibia, quase velada, sua correria.

Eu ali, naquele banco de praça apenas me permiti esperar. Em mim havia uma lacuna. Será que a chuva poderia ajudar a transbordar aquele espaço vazio?

Meus pensamentos viajavam pelos arredores, mas meu corpo era estático. Eu apenas me permiti esperar.

Aquele sussurro inicial foi ficando mais forte. Já não era um sussurro, mas uma voz que gritava baixo comparado ao som melancólico da cidade que fugia. Eu ali, apenas me permiti esperar.

De repente, vi uma lágrima caída no chão aquecido pelo sol. Sem demora, outra lágrima. E outra, e outra... Em segundos o chão foi ficando coberto delas. Também caiam sobre mim. Deixei que elas se misturassem livremente ao meu suor.

Ao redor as pessoas corriam ainda mais. Eu ali, apenas me permiti envolver.

Deixei que cada gota escorresse pelo corpo. Precisava que as lágrimas do céu ajudassem a lavar a alma. Precisava que se juntassem às lágrimas dos meus olhos. Elas tinham algo a conversar. Eu ali, parado, apenas me permiti sentir.

Senti que minha lacuna ainda estava ali, intocada. Foi quando percebi que meus versos escondidos que fiz enquanto aguardava, me envolvia e sentia não poderiam ser preenchidos por lágrimas.  

O tempo passava. A chuva não. Era insistentemente deliciosa. Trovões faziam o barulho da cidade sucumbir ao silêncio. O sussurro inicial, que se transformara em grito baixo, agora era um brado inaudível aos que não prestavam atenção. Era o som da saudade. Aquela saudade que aperta o peito e grita na quietude. Seu som não vai aos ouvidos, mas chega fácil ao coração. Minha lacuna era apenas saudade. Tão forte e tão frágil. Forte ao ponto de doer na ausência. Frágil ao ponto de morrer no reencontro.

A chuva foi embora, as lágrimas do meu rosto também. Meu corpo não sabia mais o que era suor ou lágrimas do céu. Era uma mistura perfeita de alívio e satisfação.

Eu ali, apenas me permiti. E agora me permito esperar até que, novamente, a saudade possa morrer ao te reencontrar.


JOTA B


PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...