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quinta-feira, 3 de junho de 2021

VOU ME APRESENTAR

 


Já me fiz morada em muitos lugares.

Deixei que ocupassem meus cantos sagrados.

Fui casa. Fui abrigo. Fui refúgio.

Fui pouco a quem não me viu. Insuficiente a quem não acreditou.

Fui muito a quem me encontrou. Fui tudo a quem me enxergou.

Fui tanto em tantas coisas. Quase nada em tantas outras.

Meu caos me construiu. Minha calma me estabilizou.

Hoje moro em mim e comigo vive a vida.

Meu tempo não tem relógio. Minhas horas não têm ponteiros.

Vejo além dos olhos. Sinto além da pele. Corro livre no ritmo das pulsações.

Sou medo para uns. Espera para outros.

Minhas saudades têm nome e sobrenome.

Sou humano em meus pecados. Em exercício das minhas virtudes.

Sou voz no fundo da alma. Meu som não chega aos ouvidos.

Caminho em frente. Retrocedo. Erro e acerto.

Sou confusão fácil de entender.

Deixa me apresentar: sou o amor que um dia terás.

 

JOTA B



LET ME INTRODUCE MYSELF


I have been a cozy home in many places.

I have left people get to know the most intimate things of mine.

I have been home, shelter, refuge.

I have been little to the ones who haven't seen me, insufficient to the ones who haven't believed.

I have been a lot to the ones who have found me, everything to the ones who have seen me.

I have been so much in so many things, and almost nothing in so many others.

My chaos has built me. My calm has stabilized me.

Today, I live in myself and with me lives life.

My hours can't be counted in a clock. My time have no pointers.

I see beyond the eyes, feel beyond the skin, run freely in the rhythm of the pulses.

I'm fear for some, wait for others.

My yearnings have a name and a surname.

I'm human in my sins. In exercise of my virtues.

I'm voice deep there in the soul. My sound can't be heard by the ears.

I go forwards, then backwards. I miss and hit.

I'm an easy-to-understand mess.

Let me introduce myself: I am the love someday you'll have.


JOTA B


sábado, 17 de novembro de 2018

HOJE É UM DIA IMPORTANTE



A noite passou num sopro. Acordei assustado e fui direto pegar o celular pra ver a hora. Minha nossa! Estava muito atrasado. Nem ouvi o despertador tocar. O coitado do aplicativo insistiu tanto que até desistiu. Num salto, saí da cama e corri para o banheiro. Tomei um banho em tempo recorde. 

Escovei os dentes, encarei rapidamente o espelho pra ver o estado crítico do cabelo, me vesti com as primeiras peças de roupa que encontrei pela frente e saí. Mais tarde, descobri que minhas meias estavam trocadas e escolhi roupas que dariam inveja a qualquer paleta de cores. Paciência. Agora eu precisava me concentrar em chegar. 

Fome? Sono? A adrenalina do atraso fez esquecer qualquer falta da necessidade básica de se alimentar ou querer alguns minutos a mais de descanso. Foco, foco. Preciso me concentrar em apresentar o melhor trabalho... Trabalho, trabalho. Meu Deus! Esqueci o trabalho e o pen drive sobre a mesa. Caminho de volta, mais atraso. Te concentra, homem! O que mais pode acontecer de errado? 

Deixa ver, coloquei os impressos e o pen drive na bolsa e a bolsa está sobre a mesa. Isso! É só chegar, pegar e voltar. Por que fui insistir em não enviar isso por e-mail? Eu sei, é aquele bendito medo de enviar e alguém se apropriar da sua ideia ou modifica-la antes de apresentar, não é? Foco, homem. Você precisa se concentrar. Logo hoje, que eu preciso apresentar e voltar para preparar a surpresa pra... Espera! A surpresa. Será que minha família preparou a... Deixa pra lá! Você precisa dar atenção a essa apresentação e torcer pra nada mais dar errado. 

O caminho está relativamente livre, ainda bem. O trânsito está ajudando. Vou ligar uma música pra relaxar. Ah, essa música. Me faz lembrar quando encontrei Ela pela primeira vez. Opa! Blitz de trânsito a frente. Será que vão pedir pra parar o meu carro? Por favor, não. Estou atrasado. Essa música está começando a incomodar. Deixa mudar o ritmo. A fila da blitz está diminuindo, já vejo os policiais. Vou baixar o volume do som. Ufa! Passei. 

Vamos em frente. Estou quase lá. Vish, acho que vai chover, e logo. Cadê meu guarda-chuva? Não é possível. Não está no carro. Tomara que não chova até eu entrar no escritório. Vou desligar o som, está incomodando. Gotas no para-brisa do carro. Chuva. Meu Deus! 

Cheguei, mas a chuva está intensa. E agora? Acho que se der uma corrida, não chego tão molhado na recepção. Vamos ver, onde tem vaga pra estacionar? Hoje todo mundo resolveu vir de carro e estacionar aqui. Opa. Achei uma vaga. Sorte a minha que não fica tão longe da entrada. Vamos lá. Coragem. Corrida, recepção, apresentação e vitória! Eu consigo. 

Abro a porta do carro e sou lavado por um carro que acabou de passar numa poça d’água. Meus nervos estão a flor da pele, mas eu preciso muito de concentração. É importante que você apresente. Sigo em frente. Entro na recepção e percebo que há apenas o vigilante. Ele me cumprimenta e eu respondo cordialmente. Preciso apresentar um trabalho para a diretoria da empresa. O vigilante olha com ar desconfiado. Diretoria? Hoje não há ninguém aqui. Hoje é domingo. Poderia voltar amanhã? 

Meu corpo treme inteiro. Não sei o que fazer. Saio correndo, mas a porta automática não abre a tempo. Bati a cabeça no vidro da porta e caí meio tonto. Ao longe um som intermitente se fazia ouvir. Aos poucos vou recobrando a consciência. Como vim parar na minha cama? Nossa! É o som do despertador. Ufa. Foi só um sonho. Estou a salvo. Agora vou tomar meu banho, porque hoje é um dia importante. Vou apresentar meu trabalho para a diretoria...

João Borges

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...