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quinta-feira, 3 de junho de 2021

NÃO É SOBRE...

 


E se o dia tivesse mais que as vinte e quatro horas que temos? Você seria diferente?

E se o caminho até a praia fosse mais curto, você estaria lá ou estaria lamentando porque o caminho até algum outro lugar é longo?

E se a distância entre você e a pessoa amada não mais existisse? Você se esforçaria em conquistar essa pessoa todos os dias?

E se num passe de mágica, a dor pudesse ser curada? Você machucaria novamente?

Não é sobre ter mais tempo, mas ter prioridade.

Não é sobre querer estar, mas simplesmente estar.

Não é sobre falar. É sobre atitude.

Não é sobre brincar com sentimentos, mas ser de verdade.

A certeza cresce lenta, quando plantada num coração onde mora a dúvida.

 

JOTA B

 


IT ISN'T ABOUT...


What if the day was longer than these twenty four hours long it is?

What if the path to the beach was shorter, would you be there or would you be complaining because the path to somewhere else is long?

What if the distance between you and the loved person was null? Would you struggle to win them every day?

What if the pain could be healed as if by magic? Would you hurt oneself again?

It isn't about having more time, but giving priority.

It isn't about desiring to be, but simply being.

It isn't about speaking, but having attitude.

It isn't about feeling superficially, but being real.

Certainty grows slowly, when it's planted in a heart where lives the doubt.


JOTA B



VOU ME APRESENTAR

 


Já me fiz morada em muitos lugares.

Deixei que ocupassem meus cantos sagrados.

Fui casa. Fui abrigo. Fui refúgio.

Fui pouco a quem não me viu. Insuficiente a quem não acreditou.

Fui muito a quem me encontrou. Fui tudo a quem me enxergou.

Fui tanto em tantas coisas. Quase nada em tantas outras.

Meu caos me construiu. Minha calma me estabilizou.

Hoje moro em mim e comigo vive a vida.

Meu tempo não tem relógio. Minhas horas não têm ponteiros.

Vejo além dos olhos. Sinto além da pele. Corro livre no ritmo das pulsações.

Sou medo para uns. Espera para outros.

Minhas saudades têm nome e sobrenome.

Sou humano em meus pecados. Em exercício das minhas virtudes.

Sou voz no fundo da alma. Meu som não chega aos ouvidos.

Caminho em frente. Retrocedo. Erro e acerto.

Sou confusão fácil de entender.

Deixa me apresentar: sou o amor que um dia terás.

 

JOTA B



LET ME INTRODUCE MYSELF


I have been a cozy home in many places.

I have left people get to know the most intimate things of mine.

I have been home, shelter, refuge.

I have been little to the ones who haven't seen me, insufficient to the ones who haven't believed.

I have been a lot to the ones who have found me, everything to the ones who have seen me.

I have been so much in so many things, and almost nothing in so many others.

My chaos has built me. My calm has stabilized me.

Today, I live in myself and with me lives life.

My hours can't be counted in a clock. My time have no pointers.

I see beyond the eyes, feel beyond the skin, run freely in the rhythm of the pulses.

I'm fear for some, wait for others.

My yearnings have a name and a surname.

I'm human in my sins. In exercise of my virtues.

I'm voice deep there in the soul. My sound can't be heard by the ears.

I go forwards, then backwards. I miss and hit.

I'm an easy-to-understand mess.

Let me introduce myself: I am the love someday you'll have.


JOTA B


segunda-feira, 3 de maio de 2021

SER HOMEM

 


Ser homem é fácil, não é? Não, ser homem de verdade não é fácil. Não é para qualquer um.

Ser moleque é fácil. Vamos separar as coisas.

Para ser homem precisa compreender que desenvolver a musculatura dos braços, peito, pernas e abdômen é tão importante quanto desenvolver os músculos da boa saúde mental.

Homem bem desenvolvido é homem bem resolvido. Que tem solução para os próprios problemas e não transfere suas tretas para um novo relacionamento. Que sabe dar segurança sem sufocar. Sabe o seu lugar e sabe entender o lugar da mulher que caminha ao lado dele.

Homem que é homem incentiva, reconhece as vitórias e aplaude de pé quando a mulher sobe ao pódio.

Homem de verdade tem atitude de homem, não de babaca que quer impor sua força ou  sua toxicidade no grito ou no braço. Homem com H maiúsculo sabe conversar, se posicionar sem ser invasivo e reconhecer as próprias limitações.

Ser homem é saber dar o ombro quando é preciso – e saber pedir colo quando necessário. Sim, homem de verdade chora de verdade. Tem coração como qualquer outro ser humano e não esconde seus sentimentos atrás de gestos egocêntricos.

Masculinidade se demonstra pela atitude. Molecagem, pela falta dela.

 

JOTA B



THE REAL MAN


Being a man is easy, isn't it? No, it's not actually easy; it's not for everybody.

Being a boyish man is easy, let's differentiate these things.

To be a real man, it's necessary to comprehend that the development of the muscles in the arms, chest and legs are as important as the development of the muscles of a good mental health.

A well-developed man means a well-solved man. He can solve his own problems without transferring them to a new relationship. He transmits safety without suppressing others. He knows where he belongs and knows to understand where his woman belongs as well.

A real man encourages his woman, recognizes her achievements and applauds her while she rises.

A real man has a real-man attitude, not a boyish-man attitude, which is to impose his force or his toxicity by loud voice or by fight. A man with a capital M knows how to talk, recognizes his own limitations and imposes himself without being intrusive.

To be a real man is to know to give his shoulders for others to cry, as well as to know how to cry on others' shoulders when necessary. Yes, a real man cries for real: he has a heart just like other human beings, and he doesn't hide his feelings behind egoistic behaviors.

Manhood is shown through attitude. Boyish behavior, through its lack.


JOTA B



sexta-feira, 5 de março de 2021

GRITO DA ALMA

 


Sigo vivendo em ritos.

Cresci, aprendi e assim me mantenho. Até quando os ritos serão minha maior prisão?

A ordem, tão necessária, me afasta do extraordinário.

Viver é preciso, mas viver aprisionado não é viver.

Seria viver, morrer um pouquinho todos os dias?

As gotas suaves da morte são insípidas e carregam doses de pequenas dores. Aquelas que se suportam nos silêncios diários. Que escorrem nas lágrimas que se misturam na água quente do banho. As mesmas que são escondidas atrás de sorrisos abertos e olhares fechados.

Meu grito não está entalado na garganta, mas no profundo da alma, onde raramente alguém ouve.

Por que insistir no uso das correntes que tanto machucam? Será impagável o preço da liberdade?

Quero sentir o doce sabor da independência. Sair da zona de desconforto.

Me ajuda, Poeta Maior! As palavras acalentam, mas não bastam em si. Preciso de um abraço de quem não pode me abraçar. Do carinho de quem não posso alcançar. Preciso das virtudes do tempo e do tempo exato das virtudes.

Preciso deixar a luz da lua na poesia e voltar a ser sol. Sucumbir o grito da alma com o peso da paz e assim voltar a sentir a vida correndo nas veias.

Meu grito de hoje é voltar a ser eu.

 

JOTA B


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

AQUELE ABRAÇO



Que dia! Quem nunca usou essa expressão pra resumir os extremos opostos, tanto para uma conquista, um “sim” que muda a rota da vida ou simplesmente para mostrar o quão leve foi o dia, quanto para absorver uma decepção, uma situação que trouxe frustração ou ainda para amenizar a sincera vontade de ligar o “botão do foda-se”.

Tinha tudo para ser um dia especial. Saí de casa motivado, animado, com minha potência vital em alto nível. Ela ainda dormia. Antes de sair, beijei-a com o cuidado necessário para não acordar a fera. Ela é o tipo de mulher que tem o termômetro do humor alterado por necessidades biológicas simples como dormir e se alimentar bem. Aprendi, com o passar do tempo, que liberdade, alimentação saudável e descanso fazem bem a si e a uma relação que deseja ser duradoura.

Nem a chuva, que caía com vontade, abalou meu entusiasmo. Desci ao térreo cantarolando, cheguei na garagem e percebi um dos pneus do carro furado. Ainda bem que aconteceu em casa, num lugar onde posso fazer a troca sem me molhar com essa chuva, pensei. Troquei o pneu, guardei as ferramentas, subi até o apartamento, tomei mais um banho e troquei de roupa. Ela acordou com o barulho e percebeu meu atraso. Resolveu levantar e me acompanhar no banho. Aquele era o tipo de atraso que vale a pena o risco. 
Apesar de ser um convite quase irrecusável, mantive o foco. No banho, nossos corpos eram apenas detalhes, porém aquele abraço, que para ela significava aconchego e segurança, para mim era, na verdade, a minha recarga de energia favorita. Procurei sair rapidamente do banho. Troquei de roupa, beijei-a novamente, dessa vez com maior intensidade.

Desci novamente até a garagem. A chuva era insistente. Entrei no carro e fui trabalhar. No caminho, por causa da chuva, um acidente de trânsito. Parecia estar tudo bem, apesar do clima aparentemente tenso. O trânsito estava pesado. Aquela motivação inicial, aos poucos, dava lugar a preocupação. O dia dava sinais de dificuldades.

Já no trabalho, entrei na sala e vi um bilhete sobre minha mesa. Reunião as 10h. A apresentação da proposta para meu principal cliente havia sido antecipada. Virei para a porta e meu diretor estava ali, estático e aparentemente ansioso. Proposta pronta, porém, ainda havia alguns alinhamentos necessários. Tínhamos dez minutos para conversar e montar a abordagem. A tensão nos olhos do meu diretor era visível. Vamos em frente, vai dar certo. No momento da apresentação o projetor falhou. Constrangimento. Mantive a calma e o foco. Meu diretor, nem tanto. No final, tudo certo. Apresentação feita e contrato renovado. Apesar de tudo, vitória.

Corre-corre do dia, tensão, e-mails, ligações, ...

Dor de cabeça. Ah, aquela dor de cabeça não estava nos planos. Se havia algo que me tirava a concentração, era a enxaqueca que me acompanhava de vez em quando. Meu dia começou bem. Estava tão motivado. O que houve? Rapidamente, a força vital que estava em alta foi se esvaindo. As circunstâncias do dia pareciam engolir minha motivação inicial. Eu precisava de recarga. Ela pareceu sentir o que eu sentia. Recebi uma mensagem no celular. Te amo. Você escolhe a massa, eu escolho o vinho. Era Ela. Mensagem simples, mas significativa.

Tomei um remédio, respirei fundo e finalizei a rotina daquele dia. Antes de seguir para casa, resolvi caminhar. Respirar. Olhar o movimento frenético dos carros sem necessidade de estar dentro de um. A dor de cabeça foi amenizando. Fiz a reflexão do dia enquanto caminhava. Momentos de vitórias e outros de derrotas. O que fiz com cada um desses instantes? Ela surgiu na minha mente, novamente. Isso era comum. Independente do instante, Ela estava lá povoando meus melhores pensamentos.

Após a caminhada, voltei para a empresa, encontrei meu carro e retornei para casa. Ela ainda não havia chegado.

Fui até o quarto, tirei a roupa e fui para o banho. Aproveitei o tempo livre para preparar uma massa. Ouvi o barulho da porta abrir e fechar. Ela chegou trazendo o vinho. Armada de sorriso, me fuzilou com os olhos. Fui presa fácil. Eu a agradei com a massa que ela gostava. Ela agradou-me com meu vinho preferido. Chegou mais perto, largou o vinho sobre a mesa e me abraçou. Aquele abraço me tirava do chão, me refazia sem esforço. Como pode um gesto tão simples conseguir reconectar os cacos que vão soltando no decorrer da existência? E o que é essa coisa inexplicável de poder sentir o pulsar incessante do coração da outra pessoa, a explosão de adrenalina e que te joga numa dimensão sem tempo ou espaço conhecido?

Ah, aquele abraço. Simples. Único. Completo. Sem qualquer explicação lógica.

Éramos apenas nós, a simplicidade, vinho e uma noite inteira. Sublime conexão.


João Borges

domingo, 14 de janeiro de 2018

CAFÉ QUENTE, CABEÇA FRIA.


Era um dia de muitas nuvens. A chuva, aos poucos, ficava menos intensa. Já era possível sair para caminhar, se as poucas gotas de água que insistiam em cair não fossem fator de incômodo – e de fato não eram, pelo menos para mim.

Era necessário ir ao mercado próximo da minha casa, pois a desatenção acabou não permitindo perceber a falta de filtro para café – e minha vontade de tomar esse precioso líquido, era grande.

O mercado não é distante. Necessário caminhar uns oitocentos metros, já considerando ida e volta. No caminho, um estabelecimento para limpeza de carros, uma loja de roupas, uma igreja, uma sorveteria, algumas casas e o destino final, o mercado. Tudo muito perto.

No caminho percebo que, aos poucos, as pessoas iam tomando as calçadas, porém ainda portando seus guarda-chuvas. Aquela chuvinha enganava. A famosa “chuvinha de molhar bobo”.

Chego ao mercado, vou direto até a prateleira, apanho o pacote de filtros, me dirijo ao caixa, pago e faço o caminho inverso. Minha vontade de tomar aquele café só aumentava, a medida que a distância até minha casa diminuía.

No caminho de volta o cenário não havia mudado muito. Sons de carros passando na rua, pessoas caminhando, o som da música que era ensaiada na igreja – imagino que o culto estava prestes a iniciar – calçada molhada e, claro, o café. Aquela vontade era insubstituível.

Poucos passos depois de iniciado o caminho de volta, uma cena um tanto quanto inusitada. Um casal, elegantemente vestido, andava no sentido contrário, na mesma calçada. Ele de terno num tom claro, gravata azul, chapéu panamá combinando com a cor do terno, segurava uma pasta executiva e o guarda-chuva. Ela estava de vestido longo, detalhes floridos, cabelos cuidadosamente amarrados e salto alto. Caminhavam vagarosamente em minha direção. Aquilo poderia ser comparado a uma cena dos célebres filmes de Hollywood dos anos 50 do século passado, não fosse por um detalhe: quem estava protegido da chuva era ele, não ela.

Certamente Don Lockwood ficaria envergonhado e cederia seu guarda-chuva àquela dama, mesmo porque esse artefato era apenas detalhe nas mãos de Gene Kelly na famosa cena de “Cantando na Chuva”.

- Senhor, essa senhora está na chuva! Disse eu, sorridente para tentar “quebrar o gelo”.

- É bom para esfriar a cabeça. Disse ele grosseiramente, inversamente proporcional a elegância do traje.

A ela coube apenas me retribuir a tentativa com um sorriso tímido, enquanto caminhava ao lado do distinto “cavalheiro”.
A mim, coube ficar refletindo sobre aquela cena, avaliando o quanto conseguimos ser vazios enquanto somos cheios de si.

É, Gene Kelly. Algumas pessoas precisariam voltar aos anos 50 e extrair de lá algumas coisas boas que eram vividas naquele tempo.

E o meu café? Saboreei assim que cheguei em casa, pois acabara de esfriar a cabeça na chuva, a exemplo daquela senhora, no caminho de volta.


João Borges
Escritor - Joinville


PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...