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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

INSISTÊNCIAS

 


Parece incrível, mas ainda insisto no que me aprisiona.

Insisto em voltar no tempo que não me preenche, nas companhias que não me incluem, nos instantes irreais.

Insisto navegar em canoas furadas e sem remo. Dessas, sou capitão solitário.

Insisto em sonhos que não são meus. Luto batalhas que não são minhas. Jogo mentiras para mim mesmo. Insisto em pequenos detritos, enquanto há um universo à minha espera.

Me ajuda. Não quero ser coveiro dos próprios sonhos, menos ainda dos sonhos de outrem. Dos meus sonhos quero ser o engenheiro e o carpinteiro. Quero projetar e construir com as próprias mãos.

Não quero mais insistir no amor que já não existe. Nos sentimentos que não são recíprocos e no deserto de uma vida vazia.

Não quero gotejar esperança, quando posso abrir comportas com decisões livres, mesmo que assumindo riscos. Quero sentir medo, mas não ser preso a ele.

Quero preencher os espaços. Ser livre. Sair da jaula. Abrir as asas e alçar longos voos. Quero sentir o vento no rosto, a adrenalina tomar meu corpo e sentir o coração acelerado.

Quero novas descobertas, porque o que me aguarda sou eu, abandonado das correntes. Protagonista da minha história.

 

JOTA B


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

SENTIDOS

 


O que faz sentir a vida?

Talvez o cheiro da terra molhada pela chuva que começou agorinha, porque o dia é de calor.

Ou quem sabe seja entrar na chuva e sentir cada gota refrescante se misturar ao seu suor.

Talvez seja sentir o cheirinho de livro novo, aquele que você estava querendo tanto comprar. Quem sabe seja ler, entrar na história e fazer parte da viagem.

O que faz sentir a vida?

Talvez seja sentir o gosto daquela comidinha simples ou o aroma daquele café gostoso, que fez lembrar com carinho da sua avó ou sua mãe.

Ou talvez seja poder reviver o amor aconchegante dessa lembrança.

Talvez seja fazer uma viagem para um lugar conhecido, mas que há muito não era visitado e no trajeto as lembranças causarem sensações boas da infância ou adolescência.

Quem sabe seja reviver as experiências de uma época em que seu coração batia forte, mas por qualquer razão você não dava tanta importância, mas agora sabe o quanto foi bom.

O que faz sentir a vida?

Talvez seja abraçar e poder sentir o coração da outra pessoa pulsar forte, porque aquele abraço conseguiu juntar os cacos interiores que estavam te causando dor.

Quem sabe por perceber que a dor que você sente é bem menor do que aquela sentida pela pessoa que te abraçou, e assim, quem acaba ajudando a juntar os cacos interiores é você.

O que faz sentir a vida?

Talvez seja a simplicidade das coisas simples, que de tão simples passam despercebidas.

E assim, por não dar atenção, vamos perdendo oportunidades e a noção do que realmente faz sentido.

 

JOTA B


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

EU QUERO VIVER


Desperta, menina!

Acorda da tua inércia. A voz que te calava, se calou.

Deixa florescer o teu universo. Aquele que era um sonho, hoje se faz real.

Mostra a força que sempre existiu, mas que o dominante suprimiu atrás do medo de ser dominado.

Ensina como se faz, afinal seu jeito é de aula, não de jaula.

Acende a chama que existe em ti. Precisamos da tua centelha de vida.

Move tuas asas, antes encolhidas e sai do ensaio para o voo definitivo.

Coragem, menina!

Solta o grito do fundo da alma.

Liberdade! Eu quero viver, não apenas existir.

 

JOTA B


 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

MEU MELHOR AMIGO É O MEU AMOR



Se na medicina fosse possível fazer o diagnóstico do amor, seria necessário um bom exame de imagem para saber se lá dentro existe a amizade. Sim, ela mesma. A amizade. E a correlação entre os dois deveria ser quanto maior, melhor.

Na juventude, somos capazes de compartilhar nossos sonhos, defeitos, alegrias, imperfeições, vitórias e até os mais íntimos segredos com grandes amigos ou amigas, mas incapazes de fazer o mesmo com nossos pais. E se perguntados sobre o porquê disso, talvez tenhamos certa dificuldade em responder.

Na vida adulta, é possível que o mesmo venha a acontecer com aquela pessoa que você resolveu se relacionar. Por quê? Porque não aprendemos o suficiente sobre o MEU AMOR. Aquele que depositamos sobre nós mesmos. Fazer valer a letra da música que diz: “Meu melhor amigo é o MEU amor”. Esse mesmo. O meu. Aquele que dou a mim mesmo. O tão dito amor próprio. O mesmo que diz o quanto sou amigo de mim. Sem ele não há um “nós”. Quando aprendemos sobre isso, a vida acontece.

Se fosse dar um conselho, diria: tenha uma amizade sólida com aqueles que você insiste dizer que ama. Se tudo der errado no relacionamento, pelo menos haverá uma boa amizade a ser preservada.

Seja capaz de compartilhar tudo de você com aquela pessoa que você resolveu multiplicar sonhos e potencializar realizações. Se não for possível, meu amigo, algo deu errado e será necessário rever suas escolhas.

Amor não é degrau mais alto da amizade. É complemento dela. Bonito encontrar casais que são grandes amigos. Ao perguntar se são namorados, serão capazes de responder: também somos.

Amizade é valorizar cada instante. Aquele beijo roubado, aquela flor solitária numa despretensiosa quinta de manhã, aquele inesperado café na cama ou aquele carinho nos cabelos feitos durante uma troca de olhares.

Não há carro do ano, uma gorda conta bancária, cobertura de frente para o mar ou aquele iate ancorado que dirá o tamanho da amizade. Talvez até ajude, mas a ausência disso tudo – e mais um pouco – talvez diga muito mais.

E se no relatório do tal exame de imagem viesse a conclusão: amizade imperceptível, poderia diagnosticar: chame do que quiser, menos de amor.


João Borges
Escritor – Joinville/SC

terça-feira, 19 de setembro de 2017

OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS



Hoje acordei com aquela sensação de que nem deveria ter acordado. Sabe aqueles momentos em que você olha em volta e percebe que nada faz sentido? Tudo na vida parece estar dando errado. Não faz sentido tentar, tentar, tentar e não conseguir resultado. 
Tudo e todos parecem estar contra mim. O que fiz de errado? Bom, isso agora não importa. Quero dar um fim a isso tudo.

Assustador, não? Mas a verdade é que o desânimo bateu a porta e, por N motivos, resolvi abrir. Esse foi o início de um processo que foi crescendo dentro de mim e ninguém percebeu. Nem eu percebi. Quando me dei conta, já não conseguia mais controlar.

Ao mesmo tempo em que o desânimo fazia companhia em meu café da manhã, outra voz - que mais me lembravam aqueles desenhos animados onde um anjo e um demônio, um a cada lado do personagem, davam conselhos – me dizia da importância de continuar lutando. 

Fiquei um tempo ali, sentado à mesa, refletindo uma pergunta: e se esse agora fosse meu último momento? Daria uma chance para eleger algo que fosse a última coisa a fazer antes do último suspiro?

Um último abraço, último beijo, último encontro, último sorriso, o último livro a ser lido, um último passeio no campo ou praia, o último pôr do sol, o último jogo de futebol, um último encontro com a família, a última viagem para curtir um descanso ou visitar amigos distantes, um último banho de chuva, ou um último momento de sentir uma brisa tocando o rosto, um último passeio de bicicleta, uma última caminhada ou, quem sabe, a última taça de vinho.

Difícil pensar em tanta coisa boa e eleger uma, para ser minha última ação. Quem sabe possa listar e organizar por prioridades. Mas será que dará tempo de fazer tanta coisa antes do meu último suspiro? Afinal, quando será esse último suspiro? Por que tem que ser agora?

É, nem tudo parece ter perdido o sentido. Com tanto a ser feito, meu desejo é que esses últimos desejos, na realidade, sejam os primeiros.

Que seja uma imensa lista de coisas a serem feitas em preparação ao que pretendo deixar como legado. Interromper essa lista é que não faz sentido.

Se você, que está lendo este texto, sentir esse “desânimo” e achar que nada mais faz sentido, procure ajuda profissional. Vale a pena viver com tanta coisa boa para aproveitar. A vida faz sentido quando dou sentido a ela. Seja diferente, dê boas razões a você mesmo para viver.

Viva muito e intensamente, mas VIVA!

Singela homenagem ao SETEMBRO AMARELO, trabalho desenvolvido pelos profissionais de saúde mental na prevenção ao suicídio.


João Borges, escritor

Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...