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domingo, 14 de março de 2021

ATÉ QUANDO?

 


Ninguém. Absolutamente ninguém pode tirar teu desejo imenso de felicidade.

Não há pessoa no mundo que tenha o direito de subtrair o teu direito à liberdade.

Até quando entregarás barras de ferro para que construam tua prisão?

Até quando deixarás que conduzam teu destino, por medo de caminhar só?

Até quando aceitarás viver das migalhas dos teus sentimentos, quando é possível viver a plenitude deles?

Até quando será dada permissão para que outras pessoas prendam tuas asas e impeçam teu voo?

Ninguém pode te calar. Ninguém pode te diminuir. Ninguém pode apagar o teu brilho.

Decida por ti, pela liberdade. Coragem, viva!


JOTA B


quarta-feira, 10 de março de 2021

QUERO DIZER

 


Saudade sua. De tanto calor e da falta que você faz. Transpira quando estamos juntos, respira fundo quando a distância ajuda a apertar a dor.

Amor amarra. Com corda ou sem corda, com laço ou algum nó. Por isso posso afirmar o quanto estou amarradão em você.

Liberdade é presente. Sem fitas ou embalagens. Nua e crua. É agora, sem esperar demais.

Reciprocidade é preciso. Tão necessário quanto acertar precisamente no centro do alvo.

Respeito é o mínimo. Nem precisa de microscópio, porque é a maior das virtudes.

Você é o máximo. Porque, no mínimo, encontrei um infinito.

 

JOTA B


sábado, 13 de fevereiro de 2021

LIBERDADE

 



Quero liberdade para ser livre, mesmo estando com alguém.

Quero respirar espontaneamente. Inflar meus pulmões de poesia e soltar versos ao vento.

Sentir o gosto salgado do mar e a doce sensação de caminhar pela areia.

Quero pensar diferente do óbvio, porque o óbvio é complicado e a vida pode ser mais simples e leve.

Esquecer a toalha molhada sobre a cama, sem culpas. Se o lençol ficar úmido, não se queixe. Ali sempre contamos lindas histórias.

Quero ouvir a voz do vento. Ele conta grandes segredos sobre a vida.

Deitar-me na grama verde, olhar o céu e dar nomes para as formas das nuvens.

Quero deixar o tempo ser o tempo. Ele tem poder de curar, ensinar e resolver vários problemas. Tudo ao seu tempo.

Quero ser apenas eu, sem tentar ser outra coisa.

 

JOTA B


terça-feira, 1 de setembro de 2020

SURPRESA


Você já buscou surpreender alguém? Se já fez isso, parabéns! Caso não tenha feito, não perca a oportunidade. As vezes a atitude de surpreender alguém nos revela o quanto podemos surpreender a nós mesmos.


Ela tinha trinta e três anos. Uma mulher com expressões delicadas, personalidade forte e própria. Um delicioso contraste, mas que compunha um magnífico jeito de ser e se posicionar. Tinha dois filhos, os quais revelavam que “mulher guerreira” não era apenas um estereótipo. Depois de um casamento frustrado, resolveu seguir a vida em busca dos seus mais genuínos propósitos. Engajada em causas sociais, era uma voluntária incansável. Era mulher de brilho intenso. Poucas pessoas conseguiam perceber as lágrimas que caiam escondidas daqueles olhos castanhos claros. Aliás, essa era uma das suas características: o choro era, invariavelmente, solitário. O sorriso, frequentemente compartilhado.


Ela e eu tínhamos amigos em comum. Em algumas das nossas rodas de conversa, Ela era citada, sempre com admiração. “Um par perfeito pra você”, me diziam. Nas rodas de conversa onde eu era ausente e Ela presente, o assunto era eu. Adivinha qual era a estratégia dos pseudo-cupidos? Exatamente... “Um par perfeito pra você...”


De fato, aquela mulher me atraía pela forma de ser e viver. Seu jeito de ver a vida era sensível e forte; discreta e marcante. Até então não havíamos sido apresentados formalmente, embora fossemos seguidores recíprocos nas redes sociais. O mais interessante é que ambos não tinham tomado a iniciativa de iniciar uma conversa por receio de ser invasivos. Aos olhos de uns, uma decisão, até certo ponto, coerente. A outros, uma falta de coragem adolescente. O fato é que ferir a liberdade alheia não estava no plano de um e de outro.


Era o mês de aniversário dela. Algumas amigas se encarregaram de organizar uma festa surpresa e a notícia se espalhou num grupo de mensagens criada especialmente para o evento. Eu fui incluso no grupo. A festa seria feita na chácara Vale das Pedras. Um lugar aconchegante, rodeado de verde, caminho de terra que tinha uma pequena ponte de madeira em seu trecho. Por ali passava um riacho tranquilo, de água limpa e muito fria, vinda do alto da serra. O silêncio imperava naquele lugar. Silêncio que nossos amigos estavam dispostos a quebrar.


Foram formados pequenos grupos e cada grupo ficou encarregado de uma parte da festa. Um providenciaria o som. Outro, comida e bebida. E assim o evento foi tomando forma. Estranhamente não fui encaixado num grupo, mas ficaria responsável pela surpresa da festa. Minha missão era pensar no presente-surpresa, que seria revelado logo após o bendito “Parabéns a você...” Já que eu tinha assumido uma missão solo, resolvi não revelar o que faria. Um ambiente de expectativa havia se formado no grupo de mensagens. Que presente seria esse? As especulações variavam desde viagem, passando por objetos como anel ou alguma outra joia valiosa, até um presente mais simbólico. Da minha parte, fiquei preocupado em extrair informações que me ajudariam na escolha. Teria que ser um presente que pudesse refletir o que de mais belo havia nela. Pelas redes sociais, o jeito mais discreto que encontrei para observar, passei a ficar ainda mais atento aos seus gostos, suas preferências e aos pequenos sinais que Ela demonstrava na sua forma de ser.


Os dias foram passando e conforme a data se aproximava, as trocas de mensagens eram intensificadas. Todos compartilhavam suas iniciativas. Eu e meu terrível silêncio apenas acompanhavam a organização.


Pouco mais de uma semana antes do evento, Ela reagiu a uma das minhas fotografias no Instagram. De forma discreta, fez um comentário despretensioso sobre um pôr do sol. Aquela foi a senha que faltava para conversar e tentar conhecer um pouco mais daquela mulher que tanto me atraía, mas que habitava apenas meus pensamentos. Começamos com o pôr do sol, passamos por praias, campos, viagens e estações do ano. Conversa um tanto trivial, mas que fluiu fácil e gostosa. Dos textos, passamos a conversar por vídeo. As telas eram muros transparentes que tentavam nos manter distantes, enquanto nossos olhares tentavam nos manter próximos. Continuamos nossas trivialidades por um tempo. Com um sorriso inexplicável, me convidou para acompanhá-la num evento beneficente naquele próximo fim de semana. Seria um café organizado por um clube de mães, arrecadando fundos para a casa-lar, um abrigo de menores que viviam em situação de alta vulnerabilidade social. Ela seria voluntária no evento. “Claro que aceito”, disse sem pensar muito. Além de fazer algo que gosto e bate com suas afinidades, seria a oportunidade de passar um tempo a mais com ela. O café seria no salão paroquial de uma pequena comunidade litorânea, vizinha da cidade onde morávamos. O tipo de evento bem familiar e que todos se conhecem. Era certeza de encontro com sorrisos sinceros, abraços carinhosos e algumas boas risadas. Combinamos que eu passaria na casa dela e iríamos juntos.


Desde a chegada ficou evidente o quanto a organização fazia parte da vida dela. Chegamos com alguma antecedência e Ela foi logo reunindo as mães para organizar os grupos de trabalho. Cada qual nos seus respectivos estandes de serviço. Ela me escalou para o seu estande. Agilidade, trabalho e muitos sorrisos. Antes de abrir as portas, amarrou seus lisos e longos cabelos castanhos claros em formato de coque, ajeitou uma touca descartável na cabeça, colocou luvas plásticas nas mãos, olhou pra mim e, sorrindo, disse: “agora você vai fugir de mim, estou feia...”. Eu retribuí o sorriso, mas não falei, apenas pensei “Fugir? Feia?” Diante de mim estava uma mulher sensacional.


No fim da tarde, já terminado o evento, aproveitamos para irmos até a orla, sentarmos num banco para conversar e acompanhar o espetáculo que foi o pivô do nosso primeiro contato: o pôr do sol. Saímos dali com a chegada da escuridão da noite. Apesar daquela atmosfera boa, percebi que algo deixava Ela desconfortável. Levei-a pra casa para que pudesse descansar. Ao chegar, Ela se despediu com um beijo. Uma forma carinhosa e recíproca de gratidão pelo dia agradável que passamos juntos.


No dia seguinte, domingo, acordei com uma notificação de mensagem no celular. “Sem palavras para agradecer todo o carinho que recebi. Percebi que você notou um certo desconforto meu. Depois te falo sobre isso, ok?” Além de organizada, também era observadora.


A semana seria decisiva. Eu precisava providenciar o presente-surpresa, pois a festa seria no próximo final de semana. Helena, uma amiga próxima de Ela, estava ansiosa e preocupada. Durante todo o período os grupos compartilharam suas iniciativas. Eu era o silêncio em forma de gente. “Não se preocupe. Aliás, preciso da sua ajuda para a surpresa”. Helena mostrou alívio, pois foi o primeiro indício de que eu estava preparando algo. Pedi para que Helena tirasse Ela de casa no sábado de manhã, sem possibilidade de retorno antes da festa. Além disso, precisaria da chave do apartamento para que o complemento da surpresa pudesse ser preparado lá. Mesmo com as insistências de Helena, não revelei a surpresa. “Apenas confie em mim. Ela terá a surpresa que merece...”


Ela e eu passamos a conversar com frequência. Durante a semana comentou sobre aquilo que a incomodava. “Tenho algumas características físicas que não gosto. As vezes me acho feia. Eu recebi tanto carinho seu e, naquela tarde, durante várias vezes, me peguei pensando o que poderia ter encontrado em mim que lhe pudesse ser atraente”. Procurei analisar o que poderia ser tão desagradável fisicamente naquela mulher. Nada do que eu dissesse a faria mudar de ideia, mas mostraria meu ponto de vista. Ela era fisicamente atraente, sim. Cabelos longos, lisos e que passavam a maior parte do tempo soltos ao vento. Linhas faciais bem delineadas, belas curvaturas do sorriso, olhos que tinham brilho próprio. Corpo bem desenhado e esculpido com cuidado. Molde divino que trouxe ao mundo mais duas preciosidades, as quais chamava de filhos. Trazia consigo algumas marcas da vida. Afinal, beleza não se faz só com boa alimentação e academia. Quem não assume suas boas marcas de vida, não conta boas histórias. Apesar de tudo isso, Ela se sentia desconfortável com seu físico.


Chegado o dia da festa, Helena cumpriu exatamente o que combinamos. As duas saíram pela manhã. Ainda não consegui entender como Helena fez para deixar a porta do apartamento sem trancar. Cheguei logo em seguida. Passei o final da manhã e o início da tarde preparando o ambiente. Em seguida fui em busca do presente-surpresa. Não seria difícil. Já tinha certeza do que seria. No fim da tarde fui pra casa, tomei um banho e me preparei para a festa. No carro, uma caixa bem embalada me esperava para seguir até a chácara. O conteúdo era leve. Ao sacudir, era perceptível o som semelhante a um chocalho junto com uma peça mais densa, solta dentro da caixa.


Na chácara, a animação era grande. O grupo da decoração caprichou nas cores, que remetiam ao outono. Um misto de alegria e aconchego.  A casa era grande, num estilo rústico e muito aprazível. Móveis antigos se espalhavam no ambiente. Nas paredes, os quadros contavam histórias tão antigas quanto o aspecto amarelado das telas. Na enorme sala, uma lareira. O grupo do som escolheu a trilha sonora com cuidado, dentro das preferências de Ela. Mesa bem montada e, no canto da sala, um espaço com os presentes individuais. Minha pequena caixa quase sumiu perto de algumas outras bem maiores que já estavam ali. Fiz questão que não aparecesse, afinal era pra ser um presente surpresa.


Helena chegou trazendo Ela. Todos haviam combinado de “esquecer” que seria aniversário dela e fariam de conta que seria uma festa qualquer. Logo ao chegar, Ela ficou olhando para todos os lados até me encontrar. Abriu um sorriso e veio ao meu encontro. Me cumprimentou com um beijo. Ao ver a cena, nossos amigos, sem muito entender, entreolharam-se com sorrisos marotos que escondiam uma espécie de satisfação pela conquista dos pseudo-cupidos.


Dado momento, as luzes apagaram como se houvesse falta de energia elétrica. O silêncio foi tomando conta do ambiente. A luz de uma vela começou a aparecer aos poucos. A luz foi novamente acesa e todos gritaram “surpresa”. Ela não se conteve, numa mistura de riso e choro. Cantamos o bendito “parabéns a você...” acompanhado daqueles velhos pedidos de discurso. Ela agradeceu pelo carinho. Um de seus grandes presentes seria reunir os amigos, porém nem de perto imaginava uma reunião daquele tamanho. Em seguida cada um entregou seu presente. Quando chegou minha vez, percebi o ar de expectativa. Não falei nada, apenas deixei que abrisse. Enquanto abria, Ela me olhou e disse: “Já me viu de touca descartável e agora viu minhas lágrimas. Tem certeza que encontrou alguma beleza? Estou feia.”


Na caixa, várias folhas praticamente secas e um pequeno espelho. Alguns com ar de decepção, outros de frustração. “Um espelho? Que surpresa...” diziam. Olhei para Ela dizendo:  “Está feia? Já viu o brilho que vem do fundo dos seus olhos? É ali que habita sua alma linda e leve”. “E as folhas?”, perguntou Ela. “Elas já contaram suas histórias e hoje fazem parte da estação do ano que trouxe você. A partir de agora elas farão parte do alimento de novas folhas. São novas histórias. Assim quero que seja pra você. Histórias já foram contadas e que fazem parte de um passado, mas que ressignificadas, servirão de alimento para novas e belas histórias”, respondi. Ela juntou cada folha que havia deixado cair e colocou novamente na caixa. Junto delas, o espelho.


Após a festa, levei-a para casa. Ao chegar, tomou um susto, pois a porta não estava trancada. Ela entrou com cuidado e tentou acender as luzes, sem sucesso. Antes de sair, eu havia tomado o cuidado de desligar os disjuntores. Entramos vagarosamente na escuridão do apartamento. Ela na frente, eu atrás. Pedi para que parasse por um instante. Vendei seus olhos e a levei até o sofá, pedindo para que se sentasse confortavelmente. Acendi velas, que havia deixado no corredor, juntamente com folhas praticamente secas, espalhadas desde a sala até o quarto. Na mesa, um vinho e duas taças estavam a nossa espera. O tinto que ela mais gostava. Na suíte, preparei seu banho. Na cama, flores. Os sinais que eu havia observado e que agora faziam todo sentido. Desvendei-a e convidei para entrar no meu mundo em seu próprio apartamento. Queria proporcionar-lhe novas descobertas daquelas linhas que ela tanto conhecia, mas que escondia. 


Sentidos foram aflorados a cada toque, cada carícia, cada detalhe daquela noite. Intensidade que vivemos e repetimos muitas vezes mais.

Até hoje Ela guarda uma caixa com algumas folhas e um pequeno espelho para lembrar que não se deve guardar sua beleza essencial: a que vem de dentro.


Ao final, ainda ouço: “Um espelho? Que surpresa...” 


 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

SONHO REALIZADO

 



O que poderia acontecer de inusitado numa viagem de volta pra casa, depois de um dia incrível de trabalho? Você poderá ter diversas respostas na ponta da língua, afinal imprevistos acontecem em qualquer viagem. Eu não esqueço aquele fim de tarde de quinta-feira, que me presenteou com o melhor inusitado da vida.


Meu trabalho exige que eu viaje com certa frequência. E isso é uma das coisas que gosto na minha atividade. Dirigir me faz bem. Eu consigo ter ideias novas, sair da mesmice, montar estratégias, ser criativo e prestar atenção na estrada.


Na quarta-feira eu já estava me preparando. No dia seguinte eu teria uma reunião importante numa cidade próxima. Fechar negócio era questão de honra e eu estava muito motivado. Seria o resultado de quase seis meses de negociações e eu estava muito perto do objetivo. Entre a minha cidade e o local da reunião existem lugares que eu frequentemente vou para acampar ou fazer trilhas, ou seja, era um caminho absolutamente conhecido.


Banho, café da manhã gostoso, casa organizada, documentos na bolsa, computador, carregador de bateria, celular carregado, apresentação finalizada, playlist para ouvir no caminho, carro abastecido; sapato, calça jeans, cinto, camisa, blazer e meias separadas.

Check list finalizado na quinta-feira de manhã. Hora de me vestir e botar o pé na estrada. Meu dia estaria só começando.


A viagem foi fantástica. O cenário que se via pelo caminho trazia muita paz. Os olhos se perdiam pela beleza da natureza horizonte afora. Não é à toa que aquela região era uma das preferidas para meus momentos de descompressão. O dia ensolarado, o pouco movimento de carros e caminhões na estrada ajudavam no meu processo criativo, enquanto dirigia. Num dos pontos da viagem, passei pela entrada de uma estradinha de terra. Lembrei das vezes que a utilizei para chegar aos melhores pontos de acampamento no meio da mata. Ao passar, tive uma ideia. Se o negócio fosse fechado, minha comemoração seria naquele fim de semana, montando acampamento e curtindo a natureza.


Passei a manhã em reunião com a equipe técnica do cliente. No período da tarde, com a diretoria deles. A apresentação foi melhor do que eu esperava e o resultado não poderia ter sido outro: eu consegui. Saí da fábrica com uma sensação indescritível de vitória.


Voltei para o carro com sorriso largo. Precisava voltar pra casa sem deixar que a euforia tomasse conta e acabasse tirando a atenção que precisava no trajeto da volta.


A viagem de retorno estava tranquila até chegar na entrada daquela estradinha. Ali tinha um carro parado com porta malas aberto. Três senhoras idosas se colocaram na beira da estrada para pedir ajuda. Diminuí a velocidade, passei por elas e percebi que realmente era necessário parar. Voltei com cuidado e parei meu carro próximo ao delas. Junto com as três senhoras havia outra mulher. Essa era mais jovem e que se esforçava para resolver o suposto problema. Saí do carro e perguntei de que forma eu poderia ajudá-las. “O pneu furou, meu filho”, disse uma das senhoras. “Minha neta disse que trocaria, mas acho que ela está encontrando dificuldades”, completou. Olhei pra Ela, que me devolveu o olhar acompanhado de um sorriso. “Eu nunca troquei um pneu”, falou meio desconcertada. “Pode deixar que eu troco”. Percebi o ar de alívio enquanto as senhoras trocavam alguns sorrisos marotos como quem diz “quanta gentileza”.


Trocar o pneu não foi difícil. Difícil foi tirar os olhos daquela bela mulher. Enquanto trabalhava, Ela ficou ao meu lado, conversando. Disse que estava voltando de um passeio com a avó e duas amigas dela. Havia levado as três para uma caminhada perto do riacho, que corria ao longo da estradinha de terra. Enquanto ela falava, eu ouvia atentamente cada palavra. Aquela voz era música. Meus olhos intercalavam entre o trabalho e Ela. Como não notar aqueles longos cabelos castanhos claros, quase loiros que, lisos, escorriam pelos ombros e tomavam boa parte das costas? Como ficar indiferente àquele olhar sereno vindo de um par de olhos castanhos escuros, que eram acompanhados de um sorriso que encantava? Como seria possível desviar os olhos daquelas curvas, denunciadas pelo vestido longo que colava ao corpo até a cintura e soltava a imaginação junto com o tecido que a vestia da cintura para baixo? Impossível. Simplesmente impossível.


“Pronto, pneu trocado”. Olhei para as mulheres e percebi o alívio. Todas agradeceram. Ela me deu um beijo no rosto. A vitória daquele dia havia sido acompanhada por uma “vitória coletiva”, quando estendi minha mão para ajudar, mesmo que de forma simples. Retornei pra casa e Ela, as vezes, retornava às lembranças.


Na sexta-feira foi o dia de trabalho e comemoração com a equipe. Combinamos um happy hour no fim do expediente. Minha cabeça já pensava em organizar as coisas para o acampamento. O barulho da comemoração da sexta seria substituído pelo silêncio da natureza no sábado.


Cheguei relativamente cedo do happy hour. Ainda dava tempo de separar os equipamentos e mantimentos para um fim de semana na mata. Tomei um banho, preparei um lanche e fui à luta. Depois de tudo separado, colocado na mochila e levado ao carro, fui para o quarto. Na cama e de olhos fechados tentando dormir, Ela invadia minhas lembranças. Aquela voz ficou gravada de tal maneira que lembrando dela, aos poucos, consegui relaxar até finalmente dormir.


No dia seguinte acordei cedo. Me sentia revigorado pelo bom sono que tive. Tomei um banho, um café reforçado e saí em direção ao acampamento. A mesma estrada foi minha companheira de viagem. Ao passar pela entrada daquela estradinha de terra, não foi difícil lembrar do carro, das três senhoras e Ela. A memória ainda era recente. Seria muito interessante poder encontrar aquela bela mulher novamente.


Chegando ao final da estradinha, estacionei o carro embaixo de uma grande árvore. Todo o trajeto era margeado pelo riacho. O mesmo que Ela levou sua avó e as duas amigas dela. Resolvi montar meu acampamento não muito distante do carro, porém mais próximo ao riacho. O som das águas seria a principal trilha musical daquele fim de semana. A trilha, a partir dali, já era bem conhecida por mim. Daquele local, caminhando uns quinze minutos mata adentro era possível encontrar um lago, que seria meu local de banho. Montei a barraca, separei os mantimentos, preparei o terreno e saí em busca de gravetos, galhos e folhas que me permitissem fazer a manter uma fogueira. Durante minha busca por material, tentava concentrar a atenção nos sons da natureza. O canto dos pássaros, o som das folhas balançando ao vento, as águas que corriam lentas pelo riacho, toda essa orquestra era o início do espetáculo que minha mente esperava para fugir do stress. Misturado a trilha sonora natural, foi possível uma voz feminina, bem ao longe. No primeiro momento estranhei. Não era muito comum visitantes naquele lugar. Levei o material recolhido até a barraca e retornei para tentar encontrar a dona daquela voz. Parei no ponto onde ouvi a voz pela primeira vez para tentar identificar a direção de onde vinha. Parecia vir do lago. Caminhei um pouco mais até encontrar o lago e lá estava. Ela estava completamente nua, misturada as águas cristalinas e frias. Nadava com movimentos lentos e em perfeita harmonia com aquele lugar. A liberdade daquele momento era tanta, que não era difícil confundir a cena com um voo. Era pura poesia que ali nadava.


Eu estava em transe. O mundo havia ficado para trás e eu estava em outra dimensão, quando fui interrompido: “Vem, a água está uma delícia”. Desde o início Ela sabia que eu estava ali, observando. Não se furtou da sua liberdade e ainda me convidou para fazer parte do mundo dela. Tirei minha roupa e entrei no lago. A água estava fria, mas muito boa. Perguntei como ela havia parado naquele lugar. Ela chegou perto de mim sem falar nada, passou seus braços pelo meu pescoço, abraçando-me, e me beijou. Aquele beijo foi um pedido de silêncio. Nada era importante ser dito naquele momento. Ficamos aproveitando o voo nas águas durante um bom tempo, sem falar nada. Apenas ouvindo a orquestra e voando. Dado momento, Ela saiu do lago. As curvas do seu corpo, antes denunciadas pelo vestido longo, agora estavam visíveis sem um tecido que pudesse encorajar qualquer forma de imaginação. Também saí, nos vestimos e caminhamos em direção a estradinha. No caminho, colhi uma flor de um vermelho intenso. Coloquei entre seus cabelos, apoiada na orelha. Disse que havia montado um acampamento e se lhe fosse possível, gostaria que ficasse. Ela aceitou. Conversamos longamente e percebemos algumas afinidades. Ela me explicou como tinha chegado ali. Disse que era um dos seus locais preferidos para caminhada pela mata, além de acampar. E essa era só uma das afinidades que encontramos.

- Cadê seu carro? perguntei.

- Minha vó me trouxe. Noite passada ela teve um sonho. Disse que se eu viesse pra cá, te encontraria.

- Algo mais nesse sonho que é necessário que eu saiba? perguntei.

- Veremos. Disse sorrindo.  


A noite chegou rápida. A luz da lua tentava chegar completa ao chão, mas encontrava resistência das árvores que nos rodeavam. A umidade da mata trouxe uma leve sensação de frio. Fizemos nosso jantar, contamos boas e longas histórias. Entre as conversas triviais, olhares mais profundos. Aos poucos, as conversas foram ficando menos triviais e mais quentes. Nos demos a liberdade de jogar livres, sem restrições. Beijos e carícias foram surgindo. Toques mais intensos nos levaram para dentro da barraca. Ali a noite aconteceu livre. Despimos os corpos e as almas. A entrega foi excitante e completa. Descobrimos as marcas deixadas pela vida, mas levadas pela história. Nossa liberdade nos levou ao um novo voo, desta vez, pela descoberta de nós mesmos. Pele na pele. Poros visivelmente reagentes a cada movimento que fazíamos. Tudo isso temperado com o cheiro do mato e o sabor agradável da pele nua.


A noite passou rápida. “Algo mais nesse sonho?”, perguntei. “Não. Sonho realizado”, respondeu.

 


JOÃO BORGES





sábado, 8 de agosto de 2020

O CORETO DA PRAÇA CENTRAL


Outro dia resolvi fazer minha caminhada de fim de tarde em um lugar diferente, que há muito tempo não visitava. Fui até uma pequena cidade, muito aconchegante e vizinha da cidade onde eu moro. A calma daquele lugar é o contrate perfeito em relação a intensidade da sua vizinha maior. A praça central é dotada de muitas árvores e trilhas pavimentadas, ótimas para caminhadas urbanas. Apesar do tamanho da cidade, a praça central é relativamente ampla. No centro da praça existe um coreto muito bem conservado que, só de olhar, faz a imaginação voltar no tempo, tentando capturar a imagem das bandinhas tocando nas tardes ensolaradas de domingo. Casais bem trajados caminhando lentamente enquanto conversavam. Famílias que se encontravam na praça para assistir as apresentações. Ao redor do coreto, vários bancos e muitos jardins. Cena típica de novelas épicas que nos traz um exercício histórico, saudável para qualquer um.

 

Lembrei que naquela praça, oito anos antes, encontrei Ela pela primeira vez. Estava sentada em um dos bancos ao redor do coreto e conversando com um ex-colega meu, de faculdade. Naquela oportunidade, ao me ver passando, Ethan veio ao meu encontro para me cumprimentar. Apresentou-me sua esposa, Ela, e seus dois filhos. Tivemos uma conversa relativamente rápida, mas muito cordial.

 

Caminhei aproximadamente duas horas entre as trilhas da praça e as ruas da cidade. Para finalizar a caminhada, resolvi subir um morro próximo, onde havia um ponto de observação da cidade. Uma espécie de mirante que tinha uma estrutura de trilha com deck de madeira. De lá era possível observar boa parte da cidade e o olhar se perdia pelo lindo horizonte daquela região. Fui até lá para ver o pôr do sol. Várias pessoas fizeram o mesmo. Sentei-me num dos bancos para descansar e aguardar o espetáculo do astro-rei. Enquanto aguardava, uma doce e encantadora voz feminina se fez ouvir por trás de mim. “Oi! Lembra de mim?”, disse. Virei para trás e tal foi minha surpresa ao ver Ela. “Oi, claro que lembro”, respondi. Percebi que Ela estava só, sem Ethan ou os filhos. “Me admira, depois de tanto tempo você ainda lembrar. Posso sentar ao seu lado?”, perguntou. Acenei positivamente e sentou-se.

 

Ela tem estatura baixa e estava especialmente linda. Pele escura, cabelos pretos, lisos e longos. Olhar penetrante acompanhado de um sorriso singular, expostos por lábios perfeitamente esculpidos. Vestia roupa de academia, colada ao corpo, mostrando que não foram as duas gestações, nem mesmo o tempo que a impediram de ter belas curvas do início ao fim. Ela tinha me visto caminhando na praça e resolveu ir até o mirante também.

 

Perguntei por Ethan e os filhos. Disse havia se divorciado a apenas dois anos e os filhos estavam passando o fim de semana com Ethan. Estava aproveitando para passear e ver o por do sol daquele ponto. A conversa fluiu até o momento em que percebemos que foi necessário o silêncio para apreciar aquele espetáculo. Aos poucos, o crepúsculo chegava. A luz do dia era substituída pelo escuro da noite. As pessoas iam embora e nós acabamos ficando um pouco mais.

 

Fiquei surpreso, pois a conversa revelava vários pontos em comum. Hábitos de caminhada em cenários diferentes, pôr do sol, praia, preferências musicais, enfim. Vagamos por vários assuntos.

 

A lua já tomava conta do seu lugar no céu e nós estávamos ali, sozinhos. Não contamos as horas, nem os temas conversados. Apenas nos permitimos viver aquele momento. Num dos raros instantes de silêncio, Ela apoiou sua cabeça em meu ombro e ficou olhando para as estrelas. Entrei no silêncio dela e a envolvi num abraço. Com isso, Ela se aconchegou ainda mais, procurando espaço no meu peito. Aquele silêncio foi quebrado por um movimento. Ela estendeu sua mão, tocando o lado do meu rosto e fazendo com que eu virasse meu olhar para o dela. Sem dizer nada, lançou seus lábios contra os meus. Beijo doce e intenso. Impossível tentar explicar a sensação de saber que aquele beijo seria meu, algum dia. As palavras davam lugar aos olhares. Os beijos viajavam entre a docilidade e a lascividade. Nossas mãos passaram a percorrer nossos corpos, numa volúpia indescritível. Tudo isso interrompido de forma repentina pelo guarda que cuidava da vigilância daquele espaço. Momento tenso e estranho. Acalmamos os ânimos enquanto éramos orientados a deixar o lugar, por motivos de segurança.

 

Fui para o meu carro. Ela para o dela. Como tínhamos que sair dali, combinamos de nos reencontrar na praça central. E lá fomos. Aproveitamos aquela noite e o restante do fim de semana. Ela e seus filhos não moram na mesma cidade que eu, porém não é muito distante. Trocamos mensagens, nos encontramos e vivemos nossos momentos intensamente. As vezes eu aqui e Ela lá. Outras, eu aqui, Ela e seus filhos também. Outras ainda, eu e Ela em algum outro lugar. Ambos presos pela liberdade na qual vivemos. E assim vamos cantando a vida, como num coreto na praça central.

 

João Borges


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

AQUELE ABRAÇO



Que dia! Quem nunca usou essa expressão pra resumir os extremos opostos, tanto para uma conquista, um “sim” que muda a rota da vida ou simplesmente para mostrar o quão leve foi o dia, quanto para absorver uma decepção, uma situação que trouxe frustração ou ainda para amenizar a sincera vontade de ligar o “botão do foda-se”.

Tinha tudo para ser um dia especial. Saí de casa motivado, animado, com minha potência vital em alto nível. Ela ainda dormia. Antes de sair, beijei-a com o cuidado necessário para não acordar a fera. Ela é o tipo de mulher que tem o termômetro do humor alterado por necessidades biológicas simples como dormir e se alimentar bem. Aprendi, com o passar do tempo, que liberdade, alimentação saudável e descanso fazem bem a si e a uma relação que deseja ser duradoura.

Nem a chuva, que caía com vontade, abalou meu entusiasmo. Desci ao térreo cantarolando, cheguei na garagem e percebi um dos pneus do carro furado. Ainda bem que aconteceu em casa, num lugar onde posso fazer a troca sem me molhar com essa chuva, pensei. Troquei o pneu, guardei as ferramentas, subi até o apartamento, tomei mais um banho e troquei de roupa. Ela acordou com o barulho e percebeu meu atraso. Resolveu levantar e me acompanhar no banho. Aquele era o tipo de atraso que vale a pena o risco. 
Apesar de ser um convite quase irrecusável, mantive o foco. No banho, nossos corpos eram apenas detalhes, porém aquele abraço, que para ela significava aconchego e segurança, para mim era, na verdade, a minha recarga de energia favorita. Procurei sair rapidamente do banho. Troquei de roupa, beijei-a novamente, dessa vez com maior intensidade.

Desci novamente até a garagem. A chuva era insistente. Entrei no carro e fui trabalhar. No caminho, por causa da chuva, um acidente de trânsito. Parecia estar tudo bem, apesar do clima aparentemente tenso. O trânsito estava pesado. Aquela motivação inicial, aos poucos, dava lugar a preocupação. O dia dava sinais de dificuldades.

Já no trabalho, entrei na sala e vi um bilhete sobre minha mesa. Reunião as 10h. A apresentação da proposta para meu principal cliente havia sido antecipada. Virei para a porta e meu diretor estava ali, estático e aparentemente ansioso. Proposta pronta, porém, ainda havia alguns alinhamentos necessários. Tínhamos dez minutos para conversar e montar a abordagem. A tensão nos olhos do meu diretor era visível. Vamos em frente, vai dar certo. No momento da apresentação o projetor falhou. Constrangimento. Mantive a calma e o foco. Meu diretor, nem tanto. No final, tudo certo. Apresentação feita e contrato renovado. Apesar de tudo, vitória.

Corre-corre do dia, tensão, e-mails, ligações, ...

Dor de cabeça. Ah, aquela dor de cabeça não estava nos planos. Se havia algo que me tirava a concentração, era a enxaqueca que me acompanhava de vez em quando. Meu dia começou bem. Estava tão motivado. O que houve? Rapidamente, a força vital que estava em alta foi se esvaindo. As circunstâncias do dia pareciam engolir minha motivação inicial. Eu precisava de recarga. Ela pareceu sentir o que eu sentia. Recebi uma mensagem no celular. Te amo. Você escolhe a massa, eu escolho o vinho. Era Ela. Mensagem simples, mas significativa.

Tomei um remédio, respirei fundo e finalizei a rotina daquele dia. Antes de seguir para casa, resolvi caminhar. Respirar. Olhar o movimento frenético dos carros sem necessidade de estar dentro de um. A dor de cabeça foi amenizando. Fiz a reflexão do dia enquanto caminhava. Momentos de vitórias e outros de derrotas. O que fiz com cada um desses instantes? Ela surgiu na minha mente, novamente. Isso era comum. Independente do instante, Ela estava lá povoando meus melhores pensamentos.

Após a caminhada, voltei para a empresa, encontrei meu carro e retornei para casa. Ela ainda não havia chegado.

Fui até o quarto, tirei a roupa e fui para o banho. Aproveitei o tempo livre para preparar uma massa. Ouvi o barulho da porta abrir e fechar. Ela chegou trazendo o vinho. Armada de sorriso, me fuzilou com os olhos. Fui presa fácil. Eu a agradei com a massa que ela gostava. Ela agradou-me com meu vinho preferido. Chegou mais perto, largou o vinho sobre a mesa e me abraçou. Aquele abraço me tirava do chão, me refazia sem esforço. Como pode um gesto tão simples conseguir reconectar os cacos que vão soltando no decorrer da existência? E o que é essa coisa inexplicável de poder sentir o pulsar incessante do coração da outra pessoa, a explosão de adrenalina e que te joga numa dimensão sem tempo ou espaço conhecido?

Ah, aquele abraço. Simples. Único. Completo. Sem qualquer explicação lógica.

Éramos apenas nós, a simplicidade, vinho e uma noite inteira. Sublime conexão.


João Borges

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

QUANDO TE AMAR ME DÁ MEDO


"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar" - William Shakespeare

Isso mesmo, mulher. Não estávamos acostumados a encontrar mulheres reais. Essas que não se escondem atrás das submissões, que falam, decidem, tem força e coragem de sobra, sem deixar de lado o coração e sua necessidade de amar.

Eu sei, talvez esse meu jeito grosseiro ainda precisa de adaptações. Também sei que preciso de lapidação... e de ajuda para isso. Por isso, estou na torcida para que o futebol com amigos e a cerveja gelada abracem o romantismo e a poesia. Não, não quero traduzir futebol, cerveja, romantismo e poesia em masculino ou feminino. Já estigmatizamos demais nossas existências. Tirando esse estigma, acredito que você entenderá o motivo do abraço.

Ainda preciso aprender a te amar, mulher. Não aquele tipo de amor que esconde nas entrelinhas um “preciso de você”, mas o tipo que é um convite a transbordar o outro. Olhar o igual, mesmo sabendo das diferenças. Encontrar a beleza das almas que se somam numa matemática inexata.

É, mulher. Os tempos são outros. As mulheres são outras, os homens também. Você aprendeu a conquistar seu espaço. Nós, homens, precisamos reaprender.

Te amar nesse contexto, as vezes, dá medo. Encontrar uma mulher decidida, forte, corajosa é colocar uma dúvida na cabeça do homem: será que conseguirei acompanhar o seu ritmo? Por isso, faço minhas as palavras de Shakespeare: “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar”.
Não é por medo de você, mas por medo de mim mesmo. De não ser suficiente, tanto quanto necessário. Medo de arriscar e acabar perdendo. Drama? Um pouco, talvez. Prefiro acreditar que ainda falta encontrar a receita do amor próprio. Saber de onde vem essa sua garra encantadora e assim encontrar um caminho convergente.

Não pense que te desejar irá deixar de existir, entretanto te olhar de um modo diferente é necessário.

Que o desejo de uma noite passageira possa ser substituído pelo eterno desejo de noites intensas seguidas de cafés da manhã, por mais simples que eles sejam; de beijos de despedida seguidos de beijos de reencontro. Que possamos substituir o ter, pelo ser. 

Ao invés de apenas contemplar, que possamos aprender a buscar na raiz, o motivo da beleza da flor.


Com carinho

Homem



João Borges

Escritor – Joinville/SC

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

CONVERSAR É UMA ARTE


Conversar com os filhos é uma arte. Quem é pai ou mãe de adolescente, sabe muito bem o desafio que é.

Sim, desafio. Somos pegos de surpresa com alguns temas que são levantados e, se você não estiver preparado, pode entrar numa baita saia justa. Particularmente, gosto de estar preparado para tudo, desde assuntos triviais, até assuntos mais polêmicos. Tudo pela formação intelectual sem barreiras e livre para tomar seus posicionamentos, diante de um mundo tão diferente daquele que vivi quando tinha a idade deles.

Dias atrás fui abordado pelo meu filho mais velho. No auge dos seus 16 anos, ele fala sobre os temas de redação que aparecem em sala de aula. Alguns temas se destacam pela polêmica, o que me deixa, de certa forma, feliz. Minha felicidade tem explicação. Os alunos na faixa etária a qual ele faz parte, precisam estar inseridos nos temas polêmicos. Eles serão os formadores de opinião de amanhã. Eles estarão atrás das mesas, “caneteando” nosso futuro e construindo, queira Deus, algo melhor daquilo que estamos construindo hoje. Tudo vai depender da forma como os orientamos e conduzimos.

Dizia ele que estava prestes a sugerir um tema para ser escrito numa redação, em conjunto com os demais colegas: amamentação em locais públicos. Confesso que um sorriso brotou em meus lábios, pois tenho uma opinião formada a esse respeito. Questionei qual seria a opinião dele. Ouvi uma resposta um tanto quanto vaga, o que me fez perceber que ainda não estava completamente seguro quanto ao tema. Antes de dar minha opinião, fiz questão de deixar claro que era algo o qual eu acredito e defendo, o que não significa que ele precisaria necessariamente seguir.

Para começar a reflexão, fiz algumas perguntas: quando vamos a restaurantes, lanchonetes ou bares, somos enclausurados em cabines individuais para esconder o ato de nos alimentar? Se isso não acontece, pois somos adultos o suficiente para aguentar o mastigar do vizinho de mesa, por que esconder o ato de uma criança em captar aquilo que, na maior parte das vezes, é sua única fonte de alimentação? Quem nunca comeu aquele lanche no meio da rua num momento de pressa ou sentou numa mesa de restaurante colocada em local aberto, onde era possível assistir alguém se alimentando?  

O fato de uma mãe ter que abrir parcialmente sua roupa para que seu seio possa ser alcançado pelo filho, incomoda um grupo de pessoas que simplesmente erotiza o abrir a roupa. Onde está no “nojinho” nisso? Que pena. O sublime escapa aos olhos.

Difícil viver num mundo que assiste erotismo aberto em programas de TV achando isso a coisa mais normal do mundo e, de forma hipócrita, erotiza o ato de amamentar.

Fechemos nossos restaurantes, lanchonetes e bares! Alimentar em público? Jamais! Se essa não é nossa bandeira, então precisamos ser, no mínimo, coerentes.

Meu filho deu uma excelente oportunidade de escrever. O que ele pensa a respeito? Ainda não sou conclusivo quanto a isso, mas independentemente do que seja, incentivarei a defender seu ponto de vista com coerência e retidão. Afinal, podemos ser até divergentes de ideias, mas seremos sempre pai e filho.


João Borges

Escritor - Joinville 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO


A célebre frase de Shakespeare na peça “A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, é o retrato do que fazemos todos os dias, mesmo que isso não seja perceptível: tomamos decisões. Para ser um pouco mais preciso, fazemos isso quase o tempo todo.

Ao acordar, decidimos levantar da cama “ligados na tomada” ou permanecer aqueles gostosos e revigorantes cinco minutinhos – que se descuidados, podem virar desesperadoras horas a mais.

Durante o dia, mais e mais decisões. Ir para o trabalho de carro ou a pé? Ônibus ou bicicleta? Sair agora ou mais tarde? Almoçar em casa ou na empresa? Será que vai chover? Preciso levar casaco, acho que vai esfriar. E por aí vai...

São tantas as perguntas, que as decisões são tomadas quase que automaticamente, porém existem outras que não podem ser tomadas desta forma. Algumas decisões têm o poder de mudar completamente o rumo de uma vida. Para essas, o merecimento do nosso tempo, cuidado e atenção.

Decidir casar não é como decidir comprar uma flor – mesmo sabendo que casamentos nasceram a partir de ações como essa. Decidir ser pai/mãe não é como decidir ir ao cinema – mesmo sabendo que filhos foram concebidos depois de assistir um bom filme. Decidir a profissão que irá trabalhar não é como decidir ouvir uma música – mesmo sabendo que muitas pessoas decidiram ser músicos profissionais por receberem esse tipo de incentivo.

Cada decisão que tomamos carrega consigo as consequências, e elas não podem ser ignoradas.

No livro Nove Meses e Quarenta Minutos, os personagens Richard e Amanda se deparam com um dilema. Durante uma gestação, a vida de Amanda está sob risco. Existe uma decisão a ser tomada e, independentemente do que for escolhida, ela irá mudar completamente a vida da família. Qual a decisão tomada? A melhor, na visão do casal. Se você vai concordar ou discordar da decisão deles, não sei. O importante é que a decisão foi tomada de maneira responsável e livre. Reforçando: cada decisão, uma consequência. E, nesse caso específico, uma pergunta foi respondida: decidiram pela felicidade.

Sim, ser feliz é uma decisão. Tão real, que somos capazes de trilhar nossa felicidade através das nossas escolhas. Se bem ponderadas, mais fácil. Do contrário, recomeços.

Com todas as decisões que tomamos todos os dias, será que tiramos um tempo para perguntar a nós mesmos: AFINAL, QUANDO VOU DECIDIR SER FELIZ?

Fica como sugestão, uma tarefa para ser praticada diariamente: SER FELIZ. Que tal?


João Borges

Escritor – Joinville/SC

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A CORAGEM PARA ENFRENTAR OS PRÓPRIOS MEDOS

Costumo dizer que a fronteira da decisão é o medo. Quando temos medo, somos impedidos de dar um passo a mais para ultrapassar a fronteira e verificar o que há logo em seguida.
Mas por que temos medo? Seria, por acaso, pura e simplesmente um processo químico que alimenta nosso cérebro em situações de tensão, desencadeando reações físicas como aceleração dos batimentos cardíacos, tensões musculares e aumento da frequência respiratória? Seria, ainda, uma forma natural de autoproteção em situações de perigo iminente? Poderia, quem sabe, ser uma mistura complexa de autoproteção aliado ao processo químico, fazendo uma junção das duas primeiras hipóteses.
A verdade é que não podemos ser precisos, pois cada pessoa reage de forma diferente as mais diversas situações de stress, gerando medo. A intensidade na sensação de medo pode ser maior ou menor não apenas pelo problema em si, mas também pela forma de encarar tal problema.
O inverso do medo é a coragem. Se estabelecermos um gráfico e nele colocarmos juntos o medo e a coragem, somados numa escala de zero a cem, onde seus tamanhos são valorizados de forma a facilitar a visualização, chegaríamos a uma conclusão comum: só teremos condições de enfrentar nossos medos a partir do momento em que a escala de coragem for maior que 50% em relação a escala do medo.
No livro NOVE MESES E QUARENTA MINUTOS, a psicóloga Amanda passa, desde sua infância, por situações que normalmente geram medo e certa insegurança: a perda de uma grande amiga, um assalto que acaba por influenciar na saúde de seu pai, a abnegação de sua mãe a própria vida em favor as necessidades dos seus, o término do seu namoro de forma inesperada e, finalmente, já adulta, por uma gestação de altíssimo risco a qual coloca sua própria vida “em xeque”. Com um diagnóstico prévio que a autorizava legalmente pela opção do aborto assistido, Amanda e seu esposo deveriam tomar uma decisão. Estavam diante de uma situação a qual a fronteira era o medo. O que viria após a decisão, independente se optando pelo aborto assistido ou não? O tamanho da coragem do casal é o destino final dessa emocionante história.
Importante salientar que para a tomada de uma decisão tão importante é necessário que se tenha responsabilidade, liberdade e, sobretudo, a saúde mental bem cuidada. Pessoas com sinais de ansiedade, depressão, ou qualquer outro transtorno psicológico importante, precisam de acompanhamento de profissionais especializados, para que a tomada de decisão não seja comprometida.
Ter coragem não significa não ter medo, mas agir de forma que o medo não impeça de seguir adiante. E para conhecer o que vem logo após a fronteira, é necessário dar um passo a mais.  Ter medo é natural, entretanto é salutar que o indivíduo desenvolva, com devido acompanhamento, sua capacidade de resiliência para que os processos advindos de insegurança e medo não se tornem traumas.
Sempre em frente... Sigamos!
João Borges
Escritor – Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...