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quinta-feira, 25 de março de 2021

REFAZER

 


Olha eu aqui de novo, me esvaziando.

Estou vivendo aquele processo que traz certo sofrimento.

O que me motiva é saber que ninguém consegue se refazer plenamente sem se esvaziar, limpar resquícios, fechar rachaduras, aparar arestas e iniciar um novo ciclo.

Dá medo cada vez que penso sobre o que ainda é necessário, mas estou certo de que minha coragem é maior que o desafio.

Sinto insegurança toda vez que lembro que a história precisa ser escrita de maneira diferente, mas também sei que o sentimento de segurança virá à medida que eu me reencontre.

Tenho certeza de que o caminho não é fácil, mas não há outro jeito. Preciso aprender, desaprender e reaprender. Há algo novo me esperando ali na frente e eu preciso estar pronto.

Farei por mim, porque mereço, quantas vezes forem necessárias.

Que venham novos dias, novos instantes e novas histórias.

 

JOTA B



REMAKE


Here I am again, making myself empty.

I'm living that process which brings some suffering.

What makes me keep on is to know that no one is able to remake oneself completely without emptying oneself, cleaning remainders, fixing what is broken, smoothing out the rough edges and beginning a new cycle.

It makes me afraid every time I think about what is still necessary, but I'm sure that my courage is greater than the challenge.

I'm feel insecure every time I remember I need to write my story differently, but I also know that the feeling of safety will come as I find myself.

I'm sure the path is difficult, but there is no other way. I need to learn, unlearn and relearn. There is something new waiting for me in a close future, and I need to be ready.

I will do it for me, because I deserve it, as many times as it's needed.

Let come new days, new moments and new stories.


JOTA B


terça-feira, 1 de setembro de 2020

SURPRESA


Você já buscou surpreender alguém? Se já fez isso, parabéns! Caso não tenha feito, não perca a oportunidade. As vezes a atitude de surpreender alguém nos revela o quanto podemos surpreender a nós mesmos.


Ela tinha trinta e três anos. Uma mulher com expressões delicadas, personalidade forte e própria. Um delicioso contraste, mas que compunha um magnífico jeito de ser e se posicionar. Tinha dois filhos, os quais revelavam que “mulher guerreira” não era apenas um estereótipo. Depois de um casamento frustrado, resolveu seguir a vida em busca dos seus mais genuínos propósitos. Engajada em causas sociais, era uma voluntária incansável. Era mulher de brilho intenso. Poucas pessoas conseguiam perceber as lágrimas que caiam escondidas daqueles olhos castanhos claros. Aliás, essa era uma das suas características: o choro era, invariavelmente, solitário. O sorriso, frequentemente compartilhado.


Ela e eu tínhamos amigos em comum. Em algumas das nossas rodas de conversa, Ela era citada, sempre com admiração. “Um par perfeito pra você”, me diziam. Nas rodas de conversa onde eu era ausente e Ela presente, o assunto era eu. Adivinha qual era a estratégia dos pseudo-cupidos? Exatamente... “Um par perfeito pra você...”


De fato, aquela mulher me atraía pela forma de ser e viver. Seu jeito de ver a vida era sensível e forte; discreta e marcante. Até então não havíamos sido apresentados formalmente, embora fossemos seguidores recíprocos nas redes sociais. O mais interessante é que ambos não tinham tomado a iniciativa de iniciar uma conversa por receio de ser invasivos. Aos olhos de uns, uma decisão, até certo ponto, coerente. A outros, uma falta de coragem adolescente. O fato é que ferir a liberdade alheia não estava no plano de um e de outro.


Era o mês de aniversário dela. Algumas amigas se encarregaram de organizar uma festa surpresa e a notícia se espalhou num grupo de mensagens criada especialmente para o evento. Eu fui incluso no grupo. A festa seria feita na chácara Vale das Pedras. Um lugar aconchegante, rodeado de verde, caminho de terra que tinha uma pequena ponte de madeira em seu trecho. Por ali passava um riacho tranquilo, de água limpa e muito fria, vinda do alto da serra. O silêncio imperava naquele lugar. Silêncio que nossos amigos estavam dispostos a quebrar.


Foram formados pequenos grupos e cada grupo ficou encarregado de uma parte da festa. Um providenciaria o som. Outro, comida e bebida. E assim o evento foi tomando forma. Estranhamente não fui encaixado num grupo, mas ficaria responsável pela surpresa da festa. Minha missão era pensar no presente-surpresa, que seria revelado logo após o bendito “Parabéns a você...” Já que eu tinha assumido uma missão solo, resolvi não revelar o que faria. Um ambiente de expectativa havia se formado no grupo de mensagens. Que presente seria esse? As especulações variavam desde viagem, passando por objetos como anel ou alguma outra joia valiosa, até um presente mais simbólico. Da minha parte, fiquei preocupado em extrair informações que me ajudariam na escolha. Teria que ser um presente que pudesse refletir o que de mais belo havia nela. Pelas redes sociais, o jeito mais discreto que encontrei para observar, passei a ficar ainda mais atento aos seus gostos, suas preferências e aos pequenos sinais que Ela demonstrava na sua forma de ser.


Os dias foram passando e conforme a data se aproximava, as trocas de mensagens eram intensificadas. Todos compartilhavam suas iniciativas. Eu e meu terrível silêncio apenas acompanhavam a organização.


Pouco mais de uma semana antes do evento, Ela reagiu a uma das minhas fotografias no Instagram. De forma discreta, fez um comentário despretensioso sobre um pôr do sol. Aquela foi a senha que faltava para conversar e tentar conhecer um pouco mais daquela mulher que tanto me atraía, mas que habitava apenas meus pensamentos. Começamos com o pôr do sol, passamos por praias, campos, viagens e estações do ano. Conversa um tanto trivial, mas que fluiu fácil e gostosa. Dos textos, passamos a conversar por vídeo. As telas eram muros transparentes que tentavam nos manter distantes, enquanto nossos olhares tentavam nos manter próximos. Continuamos nossas trivialidades por um tempo. Com um sorriso inexplicável, me convidou para acompanhá-la num evento beneficente naquele próximo fim de semana. Seria um café organizado por um clube de mães, arrecadando fundos para a casa-lar, um abrigo de menores que viviam em situação de alta vulnerabilidade social. Ela seria voluntária no evento. “Claro que aceito”, disse sem pensar muito. Além de fazer algo que gosto e bate com suas afinidades, seria a oportunidade de passar um tempo a mais com ela. O café seria no salão paroquial de uma pequena comunidade litorânea, vizinha da cidade onde morávamos. O tipo de evento bem familiar e que todos se conhecem. Era certeza de encontro com sorrisos sinceros, abraços carinhosos e algumas boas risadas. Combinamos que eu passaria na casa dela e iríamos juntos.


Desde a chegada ficou evidente o quanto a organização fazia parte da vida dela. Chegamos com alguma antecedência e Ela foi logo reunindo as mães para organizar os grupos de trabalho. Cada qual nos seus respectivos estandes de serviço. Ela me escalou para o seu estande. Agilidade, trabalho e muitos sorrisos. Antes de abrir as portas, amarrou seus lisos e longos cabelos castanhos claros em formato de coque, ajeitou uma touca descartável na cabeça, colocou luvas plásticas nas mãos, olhou pra mim e, sorrindo, disse: “agora você vai fugir de mim, estou feia...”. Eu retribuí o sorriso, mas não falei, apenas pensei “Fugir? Feia?” Diante de mim estava uma mulher sensacional.


No fim da tarde, já terminado o evento, aproveitamos para irmos até a orla, sentarmos num banco para conversar e acompanhar o espetáculo que foi o pivô do nosso primeiro contato: o pôr do sol. Saímos dali com a chegada da escuridão da noite. Apesar daquela atmosfera boa, percebi que algo deixava Ela desconfortável. Levei-a pra casa para que pudesse descansar. Ao chegar, Ela se despediu com um beijo. Uma forma carinhosa e recíproca de gratidão pelo dia agradável que passamos juntos.


No dia seguinte, domingo, acordei com uma notificação de mensagem no celular. “Sem palavras para agradecer todo o carinho que recebi. Percebi que você notou um certo desconforto meu. Depois te falo sobre isso, ok?” Além de organizada, também era observadora.


A semana seria decisiva. Eu precisava providenciar o presente-surpresa, pois a festa seria no próximo final de semana. Helena, uma amiga próxima de Ela, estava ansiosa e preocupada. Durante todo o período os grupos compartilharam suas iniciativas. Eu era o silêncio em forma de gente. “Não se preocupe. Aliás, preciso da sua ajuda para a surpresa”. Helena mostrou alívio, pois foi o primeiro indício de que eu estava preparando algo. Pedi para que Helena tirasse Ela de casa no sábado de manhã, sem possibilidade de retorno antes da festa. Além disso, precisaria da chave do apartamento para que o complemento da surpresa pudesse ser preparado lá. Mesmo com as insistências de Helena, não revelei a surpresa. “Apenas confie em mim. Ela terá a surpresa que merece...”


Ela e eu passamos a conversar com frequência. Durante a semana comentou sobre aquilo que a incomodava. “Tenho algumas características físicas que não gosto. As vezes me acho feia. Eu recebi tanto carinho seu e, naquela tarde, durante várias vezes, me peguei pensando o que poderia ter encontrado em mim que lhe pudesse ser atraente”. Procurei analisar o que poderia ser tão desagradável fisicamente naquela mulher. Nada do que eu dissesse a faria mudar de ideia, mas mostraria meu ponto de vista. Ela era fisicamente atraente, sim. Cabelos longos, lisos e que passavam a maior parte do tempo soltos ao vento. Linhas faciais bem delineadas, belas curvaturas do sorriso, olhos que tinham brilho próprio. Corpo bem desenhado e esculpido com cuidado. Molde divino que trouxe ao mundo mais duas preciosidades, as quais chamava de filhos. Trazia consigo algumas marcas da vida. Afinal, beleza não se faz só com boa alimentação e academia. Quem não assume suas boas marcas de vida, não conta boas histórias. Apesar de tudo isso, Ela se sentia desconfortável com seu físico.


Chegado o dia da festa, Helena cumpriu exatamente o que combinamos. As duas saíram pela manhã. Ainda não consegui entender como Helena fez para deixar a porta do apartamento sem trancar. Cheguei logo em seguida. Passei o final da manhã e o início da tarde preparando o ambiente. Em seguida fui em busca do presente-surpresa. Não seria difícil. Já tinha certeza do que seria. No fim da tarde fui pra casa, tomei um banho e me preparei para a festa. No carro, uma caixa bem embalada me esperava para seguir até a chácara. O conteúdo era leve. Ao sacudir, era perceptível o som semelhante a um chocalho junto com uma peça mais densa, solta dentro da caixa.


Na chácara, a animação era grande. O grupo da decoração caprichou nas cores, que remetiam ao outono. Um misto de alegria e aconchego.  A casa era grande, num estilo rústico e muito aprazível. Móveis antigos se espalhavam no ambiente. Nas paredes, os quadros contavam histórias tão antigas quanto o aspecto amarelado das telas. Na enorme sala, uma lareira. O grupo do som escolheu a trilha sonora com cuidado, dentro das preferências de Ela. Mesa bem montada e, no canto da sala, um espaço com os presentes individuais. Minha pequena caixa quase sumiu perto de algumas outras bem maiores que já estavam ali. Fiz questão que não aparecesse, afinal era pra ser um presente surpresa.


Helena chegou trazendo Ela. Todos haviam combinado de “esquecer” que seria aniversário dela e fariam de conta que seria uma festa qualquer. Logo ao chegar, Ela ficou olhando para todos os lados até me encontrar. Abriu um sorriso e veio ao meu encontro. Me cumprimentou com um beijo. Ao ver a cena, nossos amigos, sem muito entender, entreolharam-se com sorrisos marotos que escondiam uma espécie de satisfação pela conquista dos pseudo-cupidos.


Dado momento, as luzes apagaram como se houvesse falta de energia elétrica. O silêncio foi tomando conta do ambiente. A luz de uma vela começou a aparecer aos poucos. A luz foi novamente acesa e todos gritaram “surpresa”. Ela não se conteve, numa mistura de riso e choro. Cantamos o bendito “parabéns a você...” acompanhado daqueles velhos pedidos de discurso. Ela agradeceu pelo carinho. Um de seus grandes presentes seria reunir os amigos, porém nem de perto imaginava uma reunião daquele tamanho. Em seguida cada um entregou seu presente. Quando chegou minha vez, percebi o ar de expectativa. Não falei nada, apenas deixei que abrisse. Enquanto abria, Ela me olhou e disse: “Já me viu de touca descartável e agora viu minhas lágrimas. Tem certeza que encontrou alguma beleza? Estou feia.”


Na caixa, várias folhas praticamente secas e um pequeno espelho. Alguns com ar de decepção, outros de frustração. “Um espelho? Que surpresa...” diziam. Olhei para Ela dizendo:  “Está feia? Já viu o brilho que vem do fundo dos seus olhos? É ali que habita sua alma linda e leve”. “E as folhas?”, perguntou Ela. “Elas já contaram suas histórias e hoje fazem parte da estação do ano que trouxe você. A partir de agora elas farão parte do alimento de novas folhas. São novas histórias. Assim quero que seja pra você. Histórias já foram contadas e que fazem parte de um passado, mas que ressignificadas, servirão de alimento para novas e belas histórias”, respondi. Ela juntou cada folha que havia deixado cair e colocou novamente na caixa. Junto delas, o espelho.


Após a festa, levei-a para casa. Ao chegar, tomou um susto, pois a porta não estava trancada. Ela entrou com cuidado e tentou acender as luzes, sem sucesso. Antes de sair, eu havia tomado o cuidado de desligar os disjuntores. Entramos vagarosamente na escuridão do apartamento. Ela na frente, eu atrás. Pedi para que parasse por um instante. Vendei seus olhos e a levei até o sofá, pedindo para que se sentasse confortavelmente. Acendi velas, que havia deixado no corredor, juntamente com folhas praticamente secas, espalhadas desde a sala até o quarto. Na mesa, um vinho e duas taças estavam a nossa espera. O tinto que ela mais gostava. Na suíte, preparei seu banho. Na cama, flores. Os sinais que eu havia observado e que agora faziam todo sentido. Desvendei-a e convidei para entrar no meu mundo em seu próprio apartamento. Queria proporcionar-lhe novas descobertas daquelas linhas que ela tanto conhecia, mas que escondia. 


Sentidos foram aflorados a cada toque, cada carícia, cada detalhe daquela noite. Intensidade que vivemos e repetimos muitas vezes mais.

Até hoje Ela guarda uma caixa com algumas folhas e um pequeno espelho para lembrar que não se deve guardar sua beleza essencial: a que vem de dentro.


Ao final, ainda ouço: “Um espelho? Que surpresa...” 


 

sábado, 13 de junho de 2020

RECONECTAR




Finalmente havia chegado o feriado. Seriam quatro dias para aproveitar fazendo caminhadas por trilhas em meio a mata fechada. Era um daqueles programas que recarregam as energias, que demandam cuidados e algum planejamento.

Passei um bom tempo pesquisando as melhores trilhas para caminhada nas regiões mais próximas. A maioria delas eu já havia passado pelo menos uma vez. Uma delas eu ainda não conhecia. Alguns trilheiros contam que no caminho é possível encontrar lagos e quedas d’água. Era o cenário perfeito para a minha próxima caminhada.

Fui de carro até o ponto máximo permitido. Era um camping, bem estruturado e movimentado. Estacionei o carro, retirei minha mochila, troquei meu calçado e me preparei para a caminhada. Seriam 14km percorridos até o final da trilha escolhida.

O cenário era perfeito. A temperatura amena, dia ensolarado, pessoas indo e voltando. No início a trilha era larga e plana. Adentrando a mata, ficava mais estreita e com obstáculos. O terreno já não era tão plano e o sol cada vez menos presente. Alguns poucos raios de luz solar se deitavam sobre a trilha, apenas. O som das folhas ao vento e dos pássaros era sinfonia. Tudo aquilo me envolvia de tal forma que o stress já nem mesmo era lembrado. Como é bom ouvir o som do silêncio e deixar que a alma dance naqueles acordes.

Pouco mais de uma hora de caminhada e aos poucos outros sons começavam a aparecer. Parecia o som de um riacho. Caminhei em direção ao som, como se fosse um mosquito atraído pela luz de uma lâmpada. Desci um barranco, tropecei em raízes de árvores quase enterradas que invadiam a trilha, rolei pelo chão, arranhei meus braços, mas consegui chegar. Era um rio. Nele havia pedras de todos os tamanhos. O nível do rio estava baixo e a água totalmente limpa corria suave em torno das pedras, como crianças no parque numa tarde de sábado. Aproveitei para sentir a temperatura da água, lavar as mãos e o braço que pouco sangrava pelos arranhões. Fiquei ali por alguns instantes, aproveitando aquele ponto de paraíso. Decidi subir o rio pela margem. Não havia trilha, o que atrasaria minha chegada ao final do percurso, mas parecia recompensador. No caminho tortuoso ia me reencontrando. Sentia reconectar a vida. Meu suor naquela mata era diferente daquele que tinha em dias quentes quando saia do escritório. Era um abraço da natureza em forma de gotículas que brotavam dos meus poros.

Duas horas de caminhada pela margem e o som das águas ficava mais robusto. Era claramente o som de uma queda d´água. Por ter saído da trilha e percorrido a margem do rio, não havia encontrado outras pessoas pelo caminho. Depois de uma curva no rio e de algumas árvores enormes para desviar, finalmente cheguei a um lago. Ao fundo, um paredão de pedra que era banhado por uma cascata. Era possível ver os degraus finais da cascata, mas não era possível ver onde começava. O lago era relativamente grande e não havia pessoas no final da trilha. Nesse ponto do caminho o sol ganhava um grande espaço para mostrar sua majestade. Sentei as margens do lago, querendo ouvir o som da queda d’água, que de tão alto sobrepunha o som das folhas. Estava cansado, mas feliz. Deitei-me ali mesmo para aproveitar aquele momento, que foi interrompido por som de passos. Ela apareceu da trilha. Estava com biquini e caminhava em direção ao lado para tomar um banho naquela água fria e límpida. Passou por mim, lançou um olhar, deu um sorriso e entrou na água. Não pude deixar de perceber a beleza daquele sorriso. O sol dava ainda mais brilho naquele corpo cuidadosamente esculpido e de pele morena. Seus olhos eram castanhos, cabelos pretos esvoaçantes e que iam até pouco abaixo do ombro. Seios médios e curvas sinuosas pelo corpo que me prendiam o olhar. O coração disparou vendo-a entrar na água. Fiquei ali, meio desconcertado, mas firme em aproveitar aquele instante. Depois de alguns minutos, Ela saiu da água e veio em minha direção. Estendeu a mão, me convidando para segui-la. Eu não estava disposto a entrar na água, mas chegar mais perto da margem era bem possível. Ela me levou até mais próximo da margem e com cuidado molhou os arranhões, limpando-os. “Eu vou cuidar disso aqui”, dizia com voz doce. A água que percorria meu braço parecia não estar fria. Ela se sentou ao meu lado e começamos a conversar. O papo fluiu natural e encantadoramente. “Seria Iara, a sereia dos rios brasileiros?”, pensei. Ela mostrava ser afetuosa. Por várias vezes procurava me tocar. Aos poucos chegava cada vez mais perto de mim. Por fim, se envolveu no meu braço e deitou sua cabeça em meu ombro. Seguíamos conversando quando Ela me interrompeu. Me convidou para tirar a roupa e entrar na água. Olhei em volta. Ninguém. Ela viu que fiquei um pouco intimidado pelo convite inusitado. Chegou perto de mim e me beijou. Tirou minha roupa vagarosamente. Fui recíproco. Entramos no lago. A água era fria, mas assustadoramente gostosa. Ela foi mais próxima da queda d´água, onde os pés já não alcançavam o fundo. Me chamou e eu fui. Me entreguei de vez ao inesperado. Com calma, nadou para perto de mim, envolveu seus braços em volta do meu pescoço e chegou seu corpo junto ao meu. Suas pernas envolveram minha cintura. A respiração de ambos aos poucos ficava mais intensa. Os olhos se cruzavam e o calor dos corpos aumentava. Longos beijos eram trocados. Não foi difícil esconder minha excitação, da mesma forma que ela também estava. A pele arrepiada, a intensidade dos toques e os gemidos que se confundiam com os sons da natureza, completavam o cenário do nosso primeiro contato. Ficamos ali por longos minutos, que mais pareciam segundos.

Saímos do lago abraçados. Fomos para um lugar com sombra, nos vestimos e ficamos conversando. Tantos assuntos apareceram, mas não sabia de onde Ela era. Perguntei e ela respondeu: “Longe de tudo, mas perto de você”. Uma resposta vaga que foi precedida de um beijo. Ela botou a mão em meu peito e me fez deitar na grama. Me beijou novamente e de um jeito que jamais vou esquecer. De repente se levantou e caminhou em direção a mata. Sobre minha mochila um bilhete. “Me liga. Quero teus beijos pra mim”. Olhei em volta e não a encontrei mais.

Eu precisava me reconectar, mas aquele feriado me mostrou que a natureza reserva boas surpresas que levam a graus elevados de conexão pura.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

ENTRE ASPAS



A rua era extensa e pouco movimentada. A tarde estava perfeita para um passeio de bicicleta. Sol brilhando, temperatura amena, uma brisa soprava leve e, o mais importante, eu estava de férias. O tempo estava todo a meu favor. Normalmente meu tempo é de outras coisas ou pessoas. Quando vejo, o dia passou. Aquele tempo entre levantar da cama e se deitar para dormir, passa num piscar de olhos. Melhor sensação é aquela que você tem quando, finalmente, resolve pagar o que deve a si mesmo.

O pouco movimento de carros contrastava com o movimento de pessoas caminhando nas calçadas. Não era época de festas ou qualquer feriado. Era apenas um dia ensolarado qualquer. Ao virar a esquina percebo um movimento incomum. Uma bicicleta derrubada no meio da ciclofaixa, um pequeno aglomerado de curiosos em volta e um carro com o sinal de alerta ligado, logo a frente. A cena típica de um atropelamento. Resolvo passar mais devagar para tentar ver se havia necessidade de ajuda. A moça ainda lá, sentada na ciclofaixa segurando a perna e mostrando expressão de dor. Eu, ainda no outro lado da rua, parei e tentei identificar melhor a pessoa. Ela percebeu que eu estava lá e com o olhar parecia me chamar. Desviei de alguns curiosos até chegar ao seu encontro. Ela, sem dizer nada, gritou por ajuda. Com cuidado, segurei sua perna. Não foi difícil perceber a fratura. Perguntei se alguém já havia chamado socorro médico. Um dos que estavam ali disse que sim e que já estava a caminho. Sem muita demora chegou uma ambulância. Rapidamente saiu um paramédico fazendo perguntas para identificar o problema. Os outros integrantes da equipe de socorro puxaram a maca e uma bolsa. Fizeram o primeiro atendimento, imobilizaram a perna fraturada e, com cuidado, colocaram-na na maca. Quando foi perguntada se estava sozinha ou se havia alguém que pudesse acompanhá-la, Ela apontou na minha direção. Larguei minha bicicleta junto a dela. Uma senhora que morava em frente tocou-me no ombro e disse que guardaria as bicicletas e que eu poderia acompanhar “minha namorada” com calma.

Entrei na ambulância e fui perguntado sobre a documentação da moça. Olhei para Ela. Estava no bolso de trás da calça. Ela estava imobilizada na maca, não havia como pegar. Meio sem jeito, mas com a necessidade de alcançar o documento, passei a mão pela cintura até alcançar o bolso. Difícil é explicar como Ela pôde exibir um sorriso no canto da boca, misturado a sensação de dor por causa da fratura. Mais difícil foi entender como ficamos sem trocar uma palavra sequer, durante o tempo todo.

Chegamos ao hospital e o atendimento foi relativamente rápido. A ficha médica já havia sido antecipada pelo pessoal de primeiro atendimento. Eu já havia sido promovido a “namorado” e acompanhante de hospital de uma pessoa totalmente estranha, mas incrível e inexplicavelmente próxima. Ela foi prontamente levada para fazer exames de imagem. Poucos instantes foram necessários para que o ortopedista me procurasse para dizer que Ela seria levada para o centro cirúrgico. A fratura não foi tão simples e era necessária cirurgia. Perguntei se era possível conversar rapidamente com ela antes do procedimento. Fui autorizado, porém não poderia ser demorado. Eu precisaria assinar alguns documentos de autorização e não o faria sem antes conversar com Ela.

Cheguei na maca onde Ela estava, já no pré-operatório. Aquele olhar tinha o poder de se comunicar comigo de forma extraordinária. Ali ouvi sua voz pela primeira vez, mas parecia déjà vu. Ao ouvi-la, a sensação de estar com Ela corria pelo tempo. Era a senha que eu precisava. Eu assinaria as autorizações sem me preocupar.

Fiquei na recepção em compasso de espera. Já havia esquecido meu passeio de bicicleta, do dia ensolarado e do tempo que reservei para pagar minhas dívidas comigo. Estava sentado numa recepção de hospital tentando entender tudo o que estava acontecendo. Uma pessoa que num momento era uma completa estranha, no outro era uma misteriosa conexão. De tanto viajar em pensamentos tentando dar explicações ao inexplicável, as horas acabaram passando rápido. A cirurgia havia acabado e Ela já estava na sala de recuperação. Seria encaminhada logo ao quarto.

Uma enfermeira veio ao meu encontro e pediu que eu fosse até o quarto 602. Logo ao entrar, a vi deitada na cama, sonolenta e com a perna suspensa. Os cabelos lisos e desarrumados, o rosto levemente pálido e os olhos entreabertos. Ela lutava contra o efeito dos medicamentos para manter-se acordada. A noite já dava lugar a madrugada. Fui até a cabeceira da cama e toquei seus cabelos. Ela fechou levemente os olhos como quem dissesse: “continua”. Fiquei ali um bom tempo, cuidando daquele pseudo-sono. Aos poucos fui recostando minha cabeça próximo ao dela. Quando me dei conta, o dia já era outro. O sol estava surgindo e fui acordado pelo médico que entrou subitamente dizendo “bom dia” em alta voz. Sorridente e com uma prancheta na mão, o médico disse que Ela ficaria ainda mais aquele dia no hospital, mas seria liberada logo no dia seguinte. A cirurgia havia sido tranquila e a recuperação seria feita em casa. Era necessário acompanhamento e sessões de fisioterapia, assim que terminasse a primeira fase da recuperação. De “namorado”, ainda acumulei a função de “cuidador”. Afinal, namorado não cuida num momento como esse? Pensei... De fato, a coisa estava ficando séria.

Fui para casa, tomei um banho e tentei voltar a realidade. Tudo aquilo parecia ter sido um grande sonho, mas não era. Já havia desistido de buscar explicações. Como entender aquela vontade de estar lá? Como dizer a si mesmo que esquecer e desejar boa sorte não estavam nos planos dali em diante? Resolvi apenas seguir aquilo que o coração dizia, o que não era muito comum para uma pessoa extremamente racional como eu.

Voltei ao hospital, acompanhei a recuperação, levei às sessões de fisioterapia, consultas médicas e exames complementares. Acompanhei-a nos novos primeiros passos. Dei a Ela minha mão, meu ombro, meus ouvidos, meu coração. Fui herói, motorista, cozinheiro, enfermeiro e nem sabia que tantas profissões habitavam em mim. Me redescobri, quando nem ao certo sabia que isso me era necessário. Tudo começou naquele dia em que Ela foi atropelada e, mesmo quebrada, me mostrou o quanto eu estava vivendo apenas entre aspas.  
#PartiuViver?



JOÃO BORGES

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

AS LÁGRIMAS QUE NÃO PUDE ENXUGAR



Aquela quinta-feira era especial. Naquela noite era o lançamento do meu mais novo livro. Meses de trabalho, semanas de preparação e analgésicos de perder a conta por causa das frequentes dores de cabeça. O corre-corre era tão intenso, que os dias que antecederam o evento pareciam pequenos. Faltavam horas.

Naquela quinta eu resolvi desacelerar. Cumprir alguns poucos compromissos para pensar um pouco mais num ser que eu estava deixando de lado: eu mesmo.

No final da manhã fui visitar um amigo. Ele havia me convidado para uma entrevista numa rádio local para conversar sobre o livro. Ao chegar na emissora, me apresentou todo o estúdio, os colegas e a estrutura de trabalho. Numa das salas estava Ela. Veio ao meu encontro com um sorriso irresistível e iluminado, mas tinha algo a mais. Diferente. Me cumprimentou e deu um beijo no rosto. Confesso que aquele sorriso ficou gravado na minha mente durante todo o tempo da visita.

Fui levado ao estúdio para a entrevista. A sala era relativamente pequena. Uma janela de vidro permitia que as pessoas acompanhassem a dinâmica da programação sem que os ruídos externos interferissem. De dentro do estúdio pude perceber algumas pessoas vendo a entrevista através da janela. Uma delas era Ela.

Após a entrevista, meu amigo me levou até a recepção. Deixei convites para que a equipe pudesse comparecer ao lançamento do livro, agradeci a oportunidade e despedi-me.

A grande noite havia chegado. Minha ansiedade só não era maior que a vontade da gerente da editora querer me estrangular. Eu deixei a equipe dela pilhada. Pedi cadeiras adicionais, mudei o lugar do cerimonialista umas trinta vezes, pedi repetidas conferências na lista de convidados, enfim. Virei o lugar do avesso com pouca necessidade e muita ansiedade.

Aos poucos os convidados iam chegando. Os lugares, sendo preenchidos. Ainda bem que pedi cadeiras adicionais. Entre as pessoas que vieram estava Ela. O sorriso, marcante, completava natural e perfeitamente aquele rosto bem construído por mãos divinas. Mas aquele olhar... eu ainda precisava entender aquele olhar.

Durante a cerimônia meus olhos percorriam a plateia, mas era impossível resistir ao magnetismo da presença dela. Eram aproximadamente trezentas pessoas, mas Ela se destacava naquela pequena multidão.

Ao final foram cumprimentos, fotos, dedicatórias, bate papo, descontração e muita energia boa. Ela ficou até o final. Trocamos telefone. A partir dali passamos a conversar todos os dias. Nos encontrávamos com certa frequência. Nossas conversas fluíam naturalmente. Não encontrava meios de conseguir resistir ao sorriso. Era de tirar do chão. Mas aquele olhar...

Num desses encontros disparei: “preciso entender: quantas lágrimas estão escondidas atrás desse olhar?”. Ela, sem rodeios, devolveu o tiro: “...todas as que derramei sem que você pudesse enxugar”.

Todas as dores, medos e incertezas estavam ali, quase imperceptíveis. O sorriso iluminado que ofuscava e guardava sentimentos que desejavam sair. Um olhar misterioso que escondia um grito inaudível. Quantas lágrimas escorreram da alma, sem o mínimo de percepção aos olhos? Quantos gritos foram dados sem que chegassem aos ouvidos da ajuda?

Ela, agora confiante, despia a alma completamente. Enquanto ouvia, também entendia o encanto que Ela era capaz de produzir.

Mas aquele olhar... não era mais necessário entender ou buscar explicações. O mistério deu lugar à leveza.

Não pude enxugar todas as suas lágrimas, mas somente até ali. Desde então vejo brilho, e não são de lágrimas.

João Borges

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

SIMPLES E INESQUECÍVEL, COMO A VIDA DEVE SER



Era um feriado de primeiro de maio de muito sol e calor. A data é comemorativa ao trabalhador, porém mais parecia o dia das crianças. Ruas movimentadas, pessoas seguravam crianças pelas mãos enquanto caminhavam pelas ruas do bairro, nas imediações da recém-inaugurada Ponte do Trabalho. 

Não eram os tempos de smarphones, tablets ou aplicativos de todo gênero. Era um tempo em que ter telefone fixo era investimento e a comunicação mais comum ainda dependia de papel, caneta, envelope, selos e correios. 

Eram lembranças da alegria daquele homem de cabelos brancos, olhos azuis, jeito calmo e simples. Nem parecia o mesmo homem que, por causa da morte de um parente próximo, assumiu as responsabilidades sobre uma criança, ainda que sua idade já lhe parecia avançada para isso. 

Na verdade, acabou criando tanto afeto que tratava a criança como a um filho. Tanto afeto, que a ideia de um eventual retorno da criança à família biológica, lhe trouxera depressão, e com ela, a tentativa de suicídio.

Olhar aquele rosto feliz e receber um convite para um passeio no feriado era o melhor prêmio que se poderia ganhar. Foram em caminhada pelas ruas do bairro vizinho. Em passos lentos, atravessaram a ponte de madeira, acompanharam o movimento intenso das bicicletas e de alguns poucos carros que transitavam, levando seus ocupantes para aproveitar aquele belo dia. 

Um pequeno, que agarrava com força os dedos das mãos enormes daquele homem, andava com um sorriso orgulhoso por poder desfrutar daqueles momentos.

Passado algum tempo de caminhada, chegaram a um sambaqui próximo a Ponte do Trabalho. Sem encontrar opções para as brincadeiras de uma criança naquele local, atravessaram a ponte. Na descida, logo após o término do pavimento da ponte, encontraram uma pequena inclinação de terreno, revestida de grama. Certamente veio a mente do homem de olhos azuis alguma lembrança da infância, pois pediu-lhe para aguardar naquela inclinação enquanto ele se embrenhava no meio do matagal próximo. 

Haviam muitas crianças caminhando com seus pais, passeando com suas bicicletas ou aproveitando o parque que havia não muito longe dali. A espera, apesar de angustiante, criava muita expectativa. O que será que foi buscar no meio daquele matagal?

O "logo" é um tempo com características distintas, vivida ao mesmo instante. Pode parecer demorado para quem espera, mas não para quem faz a ação; desaparecendo assim que existe o reencontro. Foi assim quando surgiu o mesmo homem que guiou o pequeno pelas mãos até aquele lugar, com algumas cascas de coqueiro nas mãos. 

Num primeiro momento não era possível entender, mas logo o mistério foi revelado. A casca serviria como uma espécie de prancha para a brincadeira de descer aquela inclinação de terreno. 

No começo era uma criança, uma casca de coqueiro e muitas risadas. Logo chegaram outras crianças e outros pais, repetindo todo o ritual de antes. Não demorou para aquele lugar virar parque de diversão improvisado. A brincadeira rolou solta durante várias horas. E nem parecia tanto tempo assim. Mais uma vez a dualidade do "logo" se fez.

A simplicidade da brincadeira, do momento, daquele calor e de uma casca de coqueiro realmente não importavam. De um momento de simplicidade partiu uma lembrança eterna. O estar perto, as boas gargalhadas que davam juntos, o caminhar de mãos dadas, nem de perto lembravam os momentos difíceis que aquele homem vivera.   

Logo escureceu, logo precisariam voltar. E tão breve quanto iniciou, aquele dia das crianças fantasiado de dia do trabalhador, acabou encerrando numa caminhada sorridente daquela criança e daquele homem inesquecível, o qual aquela criança tinha orgulho de chamar de PAI.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

AQUELE PRIMEIRO BEIJO QUE TE DEI


Quando queremos muito alguma coisa, é difícil não criar expectativa, mesmo que ela tenha o tamanho da unha do seu menor dedo do pé. E não é que isso seja ruim, pelo contrário. O que atrapalha são os excessos.

Uma expectativa boa gera cuidado com preparação, uma dose de ansiedade, sorrisos gratuitos, adrenalina, suor frio, aquela tremedeira imperceptível nas pernas e tantos outros sintomas. Olhando uma pessoa assim, é muito fácil perceber que está apaixonada.

Imagina só. Você está aguardando e, finalmente, terá a grande oportunidade. O primeiro beijo é um marco importante, apesar de muitos homens não darem o seu devido valor e os tempos atuais não darem tanta importância a isso.

É chegado o grande dia. O grande momento. Tudo preparado. De repente, ele ou ela aparece e você poderá dar seu primeiro beijo no seu filho ou sua filha, que acabou de nascer.

Poderá dar seu primeiro beijo no seu pet, que acabou de chegar.

Poderá receber o primeiro beijo da criança que acabou de aprender como estalar a boca, quando encostada no seu rosto.

Poderá dar seu primeiro beijo em alguém muito especial que, de tão longa viagem, demorou para chegar.

Ah, claro, também poderá dar o seu primeiro beijo no seu namorado ou namorada. Aquela pessoa especial que faz seu coração bater mais forte, cada vez que existe o encontro.

Não haverá outro primeiro beijo. Não haverá outro primeiro encontro. Então, valorize o momento. Aprenda a repetir a dose, quantas vezes forem necessárias. Viva intensamente cada uma delas, porém dê valor ao marco inicial.

A partir dali, serão alguns beijos roubados, mais sorrisos gratuitos, outros motivos de tremedeiras nas pernas, outras histórias, outros momentos, outros instantes.



João Borges
Escritor – Joinville/SC

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

AS DIFICULDADES SÃO COMO AS MONTANHAS. ELAS SÓ SE APLAINAM QUANDO...


Não são poucas as vezes em que nos vemos em situações onde a saída parece impossível. Que atire a primeira pedra, quem nunca passou por dúvidas diante de decisões importantes a serem tomadas. É incrível perceber as vendas nos olhos quando o problema é do outro. Mais incrível ainda é não tirar as próprias vendas, pois não as percebemos.

Viver um turbilhão é um processo que muitas vezes dói na alma. Os problemas parecem apenas crescer, os possíveis caminhos se multiplicam, gerando confusão e incerteza. Entretanto cabe aqui um provérbio japonês que diz: “as dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam avançando sobre elas”.

Desistir não é o caminho. Encarar o problema com força e coragem, utilizando-se de alguma ousadia e criatividade, apesar de parecer clichê, é a receita para que o provérbio se faça realidade. As dificuldades na caminhada da montanha são os problemas da vida, entretanto o objetivo não é ficar no meio do caminho, não é mesmo? Então, o que estamos esperando?

Uma dica: não suba a montanha sozinho ou sozinha. Andar é por sua conta, depende exclusivamente de você. Resolver seus problemas também. Contudo, fica mais fácil quando temos pessoas que realmente nos ajudam a subir, incentivam a caminhar, dão luz onde tudo parece uma grande nuvem escura. A vida fica mais leve quando sabemos dividir o peso, equilibrar as decisões. É a louca matemática da vida, onde o exato é, na realidade, inexato. Onde o dividir significa multiplicar. Onde erros, absortos, se convertem em lições e crescimento. Cabe a nós o cuidado de escolher as pessoas certas, para fazer parte dessa aventura, chamada vida. 

No livro Nove Meses e Quarenta Minutos, a personagem Amanda, desde sua infância, aprende com as dificuldades que sua existência lhe apresenta. Dessas que todos nós passamos e que fazem parte do processo natural de amadurecimento. Ela vive num ambiente familiar tido como o ideal, ainda assim as dificuldades insistem em fazer parte de sua vida. Até aqui tudo muito normal. Até demais, alguns poderão dizer. Mas o que fazer quando o problema envolve vida e morte? Para onde ir, quando uma decisão pode dar fim a própria vida? É, aparentemente o topo dessa montanha ainda não foi atingido. Existe mais um desafio a ser vencido, mais uma batalha, mais uma guerra, mais, e mais, e mais... Que bom que ela não subiu a montanha sozinha.

O texto apresentado no livro, leva a essas – e outras – reflexões. Subir a montanha é difícil. É uma tarefa árdua e complicada. Exige coragem, apesar de todos os medos. Exige força, apesar de todas as fraquezas. Exige decisão, apesar de todas as incertezas e dúvidas. No fim, um resultado: a certeza da transformação.
Ninguém é o mesmo depois que passa por algum tipo de dificuldade. Cabe a nós decidir o que pretendemos fazer com a oportunidade do aprendizado. Lamentar o problema e frear própria história ou olhar adiante e crescer?

Sempre em frente...


João Borges

Escritor – Joinville/SC

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

INSPIRAÇÃO - A alma da criação


O que te inspira? Pessoas? Lugares? Situações? Tanta coisa, não é mesmo?

Tudo o que nos rodeia pode ser fonte de inspiração, entretanto tenho minha inclinação por buscar minha inspiração nas pessoas. É incrível como as pessoas podem ser tão idênticas e, ao mesmo tempo, diferentes. Tão imprevisíveis, vivendo seu previsível. Tão singulares vivendo um mundo heterogêneo.

Pessoas me fascinam. Trazem consigo histórias. Algumas delas, dignas de um bom bate papo, outras, de algumas crônicas e tem aquelas que são dignas de livros.

A alma da criação está exatamente aí. Na forma como sua fonte de inspiração traz a matéria prima principal, a inspiração. No meu caso, em geral pessoas, como me cativam.

Já ouviu aquela expressão: “estava inspirado, hein”?. De forma geral, é dita quando o resultado da inspiração tocou seu objetivo.

Pessoas próximas me cativam, mas sabe aquela pessoa que mesmo estando distante da cidade onde você mora, tem o poder de te encantar? Então, esse é o tipo de pessoa que me inspira. Faz parte da minha história sem fazer qualquer esforço. Me entrega vida sem esperar o troco.

Com a história de NOVE MESES E QUARENTA MINUTOS foi assim. Pessoas que não estão no meu convívio diário, não moram na mesma cidade, mas fazem parte do círculo de amizades. A vida deles foi a inspiração para o livro. Me deixaram encantado pela forma como encararam tudo o que viveram. Simplesmente fascinante!

Da mesma forma, outras pessoas, de outras cidades, com outras histórias continuam sendo minha fonte de inspiração. Matéria prima não falta. Ainda bem que a tecnologia, neste sentido, joga a nosso favor. A internet nos aproxima de pessoas distantes – ao mesmo passo que distancia pessoas próximas (cuidado!). Um paradoxo a ser trabalhado.

Hoje, especialmente, acordei feliz. Alguém distante, mas perto, me inspirou a escrever.

E você? INSPIRE!


João Borges, escritor.

Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...