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sábado, 20 de março de 2021

 


Hoje quero compartilhar contigo coisas que me são preciosas. Algumas delas tenho guardado comigo, sem revelar a ninguém.

Ninguém se decide pela infelicidade. Todos querem e merecem ser felizes.

Durante a jornada da vida algumas decisões, que até então pareciam ser acertadas, acabaram mostrando que a busca pela felicidade não é um caminho simples ou fácil. Elas acabam nos afastando dos nossos sonhos. Não quero me eximir dos meus erros. Quero aprender com eles para que não tornem a acontecer.

Não me arrependo de ter lutado pelos meus sonhos, ainda que tenha errado. Meu arrependimento se volta àqueles momentos em que eu não vivi, apenas sobrevivi.

Hoje percebo a dimensão da oportunidade, a grandiosidade do presente e o quão é importante viver o agora. Cada segundo longe disso é desperdício.

Sei que você também tem seus sonhos e que luta por cada um deles. Alguns parecem distantes, até inalcançáveis. Mas preste atenção...

Cada pessoa que passa pela nossa vida traz consigo um fio. As vezes decidimos entrelaçar o nosso fio ao dessas pessoas por laços simples, que com o tempo vão se desprendendo e com a mesma fragilidade que chegaram, acabam indo embora. Outras por nós mais fortes, que com o tempo vão se emaranhando, tonando a vida bem mais complicada. Sair desse emaranhado é difícil, mas não impossível. Outras vezes, ainda, por um único nó. Visível, simples e resistente. O tipo que marca a vida para sempre e que traz a segurança necessária para que seja leve e eterno.

Independentemente de como você decide entrelaçar seus fios, saiba: seus sonhos estão ali, bem diante de você. Eles não te abandonam. Nós que os deixamos de lado, por própria conta e risco. Não desista deles, por mais difícil e distante que pareça.

Nessa busca por realizações, descobrimos que os nossos sonhos se encontram e conversam bem. Quem sabe o que nos espera é simplesmente o entrelace de um único nó.

 

JOTA B


domingo, 14 de março de 2021

ATÉ QUANDO?

 


Ninguém. Absolutamente ninguém pode tirar teu desejo imenso de felicidade.

Não há pessoa no mundo que tenha o direito de subtrair o teu direito à liberdade.

Até quando entregarás barras de ferro para que construam tua prisão?

Até quando deixarás que conduzam teu destino, por medo de caminhar só?

Até quando aceitarás viver das migalhas dos teus sentimentos, quando é possível viver a plenitude deles?

Até quando será dada permissão para que outras pessoas prendam tuas asas e impeçam teu voo?

Ninguém pode te calar. Ninguém pode te diminuir. Ninguém pode apagar o teu brilho.

Decida por ti, pela liberdade. Coragem, viva!


JOTA B


quinta-feira, 11 de março de 2021

MOMENTOS

 


Chega o momento em que você percebe que algumas guerras não valem a pena. Que sua saúde mental merece atenção e que a simplicidade é a melhor escolha.

Chega a hora em que você aprende sobre boas decisões. Sobre manter a serenidade e deixar que o tempo flua a seu favor.

Chega o instante em que você vai perceber que a razão é subjetiva e tudo pode ganhar um novo significado. Nesse mesmo instante vai optar em ter paz ao invés de brigar pela razão.

Vai chegar o tempo em que você vai notar que a liberdade é um direito inegociável. Que a felicidade é uma busca diária e que as frustrações se tornam motor para que essa busca não cesse.

Tenha certeza, a vida ensina que algumas regras não mudam. A lei do retorno existe e é implacável. Amar é simples, mas vivemos complicando. Nunca é tarde para começar, nem tampouco para recomeçar. Dinheiro não compra uma consciência tranquila. O perdão apaga o pecado, mas não apaga cicatrizes. Existe encanto e beleza na simplicidade. Amor-próprio não é egoísmo, por isso a primeira pessoa de qualquer conjugação verbal é “eu”.

Chega o momento. Não permita que passe em vão.

 

JOTA B


sábado, 13 de junho de 2020

RECONECTAR




Finalmente havia chegado o feriado. Seriam quatro dias para aproveitar fazendo caminhadas por trilhas em meio a mata fechada. Era um daqueles programas que recarregam as energias, que demandam cuidados e algum planejamento.

Passei um bom tempo pesquisando as melhores trilhas para caminhada nas regiões mais próximas. A maioria delas eu já havia passado pelo menos uma vez. Uma delas eu ainda não conhecia. Alguns trilheiros contam que no caminho é possível encontrar lagos e quedas d’água. Era o cenário perfeito para a minha próxima caminhada.

Fui de carro até o ponto máximo permitido. Era um camping, bem estruturado e movimentado. Estacionei o carro, retirei minha mochila, troquei meu calçado e me preparei para a caminhada. Seriam 14km percorridos até o final da trilha escolhida.

O cenário era perfeito. A temperatura amena, dia ensolarado, pessoas indo e voltando. No início a trilha era larga e plana. Adentrando a mata, ficava mais estreita e com obstáculos. O terreno já não era tão plano e o sol cada vez menos presente. Alguns poucos raios de luz solar se deitavam sobre a trilha, apenas. O som das folhas ao vento e dos pássaros era sinfonia. Tudo aquilo me envolvia de tal forma que o stress já nem mesmo era lembrado. Como é bom ouvir o som do silêncio e deixar que a alma dance naqueles acordes.

Pouco mais de uma hora de caminhada e aos poucos outros sons começavam a aparecer. Parecia o som de um riacho. Caminhei em direção ao som, como se fosse um mosquito atraído pela luz de uma lâmpada. Desci um barranco, tropecei em raízes de árvores quase enterradas que invadiam a trilha, rolei pelo chão, arranhei meus braços, mas consegui chegar. Era um rio. Nele havia pedras de todos os tamanhos. O nível do rio estava baixo e a água totalmente limpa corria suave em torno das pedras, como crianças no parque numa tarde de sábado. Aproveitei para sentir a temperatura da água, lavar as mãos e o braço que pouco sangrava pelos arranhões. Fiquei ali por alguns instantes, aproveitando aquele ponto de paraíso. Decidi subir o rio pela margem. Não havia trilha, o que atrasaria minha chegada ao final do percurso, mas parecia recompensador. No caminho tortuoso ia me reencontrando. Sentia reconectar a vida. Meu suor naquela mata era diferente daquele que tinha em dias quentes quando saia do escritório. Era um abraço da natureza em forma de gotículas que brotavam dos meus poros.

Duas horas de caminhada pela margem e o som das águas ficava mais robusto. Era claramente o som de uma queda d´água. Por ter saído da trilha e percorrido a margem do rio, não havia encontrado outras pessoas pelo caminho. Depois de uma curva no rio e de algumas árvores enormes para desviar, finalmente cheguei a um lago. Ao fundo, um paredão de pedra que era banhado por uma cascata. Era possível ver os degraus finais da cascata, mas não era possível ver onde começava. O lago era relativamente grande e não havia pessoas no final da trilha. Nesse ponto do caminho o sol ganhava um grande espaço para mostrar sua majestade. Sentei as margens do lago, querendo ouvir o som da queda d’água, que de tão alto sobrepunha o som das folhas. Estava cansado, mas feliz. Deitei-me ali mesmo para aproveitar aquele momento, que foi interrompido por som de passos. Ela apareceu da trilha. Estava com biquini e caminhava em direção ao lado para tomar um banho naquela água fria e límpida. Passou por mim, lançou um olhar, deu um sorriso e entrou na água. Não pude deixar de perceber a beleza daquele sorriso. O sol dava ainda mais brilho naquele corpo cuidadosamente esculpido e de pele morena. Seus olhos eram castanhos, cabelos pretos esvoaçantes e que iam até pouco abaixo do ombro. Seios médios e curvas sinuosas pelo corpo que me prendiam o olhar. O coração disparou vendo-a entrar na água. Fiquei ali, meio desconcertado, mas firme em aproveitar aquele instante. Depois de alguns minutos, Ela saiu da água e veio em minha direção. Estendeu a mão, me convidando para segui-la. Eu não estava disposto a entrar na água, mas chegar mais perto da margem era bem possível. Ela me levou até mais próximo da margem e com cuidado molhou os arranhões, limpando-os. “Eu vou cuidar disso aqui”, dizia com voz doce. A água que percorria meu braço parecia não estar fria. Ela se sentou ao meu lado e começamos a conversar. O papo fluiu natural e encantadoramente. “Seria Iara, a sereia dos rios brasileiros?”, pensei. Ela mostrava ser afetuosa. Por várias vezes procurava me tocar. Aos poucos chegava cada vez mais perto de mim. Por fim, se envolveu no meu braço e deitou sua cabeça em meu ombro. Seguíamos conversando quando Ela me interrompeu. Me convidou para tirar a roupa e entrar na água. Olhei em volta. Ninguém. Ela viu que fiquei um pouco intimidado pelo convite inusitado. Chegou perto de mim e me beijou. Tirou minha roupa vagarosamente. Fui recíproco. Entramos no lago. A água era fria, mas assustadoramente gostosa. Ela foi mais próxima da queda d´água, onde os pés já não alcançavam o fundo. Me chamou e eu fui. Me entreguei de vez ao inesperado. Com calma, nadou para perto de mim, envolveu seus braços em volta do meu pescoço e chegou seu corpo junto ao meu. Suas pernas envolveram minha cintura. A respiração de ambos aos poucos ficava mais intensa. Os olhos se cruzavam e o calor dos corpos aumentava. Longos beijos eram trocados. Não foi difícil esconder minha excitação, da mesma forma que ela também estava. A pele arrepiada, a intensidade dos toques e os gemidos que se confundiam com os sons da natureza, completavam o cenário do nosso primeiro contato. Ficamos ali por longos minutos, que mais pareciam segundos.

Saímos do lago abraçados. Fomos para um lugar com sombra, nos vestimos e ficamos conversando. Tantos assuntos apareceram, mas não sabia de onde Ela era. Perguntei e ela respondeu: “Longe de tudo, mas perto de você”. Uma resposta vaga que foi precedida de um beijo. Ela botou a mão em meu peito e me fez deitar na grama. Me beijou novamente e de um jeito que jamais vou esquecer. De repente se levantou e caminhou em direção a mata. Sobre minha mochila um bilhete. “Me liga. Quero teus beijos pra mim”. Olhei em volta e não a encontrei mais.

Eu precisava me reconectar, mas aquele feriado me mostrou que a natureza reserva boas surpresas que levam a graus elevados de conexão pura.

sábado, 25 de agosto de 2018

AS BOAS SURPRESAS QUE A VIDA APRONTA




Aquela tarde de sábado com sol brilhando e temperatura amena brindava minha felicidade. Uma caminhada pelas ruas, ainda úmidas pela chuva leve que caira no período da manhã, me davam a oportunidade de organizar as ideias e estruturar alguns projetos que tinha em mente.

Essa prática, comum nas minhas tardes de sábado, foi interrompida pelo inusitado. Uma daquelas boas surpresas que a vida apronta.

Havia um grupo de crianças na praça, organizadas em pequenas mesas que se espalhavam na calçada central. Algumas mulheres, provavelmente suas professoras, davam algumas instruções de como as crianças deveriam se portar diante das pessoas que ali passavam. Sobre as mesas, placas com dizeres bem visíveis: ABRAÇOS GRÁTIS. QUER O MEU?

Parei meio ao longe na tentativa de observar a reação das pessoas, sem que minha reação pudesse ser notada ou testada. Minha tentativa foi em vão. Ao meu lado, puxando pela minha camisa, uma menina com sorriso leve e olhar cativante, sem pronunciar qualquer palavra ou dar alguma chance, me pegou pela mão para levar até a pequena mesa onde ela distribuía seus singelos abraços. Mudo, não pude resistir ao pedido. Antes do abraço, porém, deveria sentar em um pequeno banco, onde iríamos conversar por alguns instantes.

Para minha surpresa ela não falava, mas gesticulava. Estava tentando se comunicar comigo através de LIBRAS*. Desconcertado, por não ter ideia do que ela estava tentando dizer, fui auxiliado por uma daquelas mulheres. Fiquei atônito. O sorriso leve e olhar cativante da menina também estavam presentes naquela bela mulher. “Sou mãe dela”, me respondeu quando questionei sobre a similaridade. “Ela disse que você chamou a atenção pois parece ser um bom homem”. Com um sorriso, agradeci.

Vi aquele rostinho iluminado por luz própria sorrir e, com os braços abertos, me oferecia um abraço, o qual aceitei sem titubear.

Ah! Aquele abraço. As leis da física poderiam ser desafiadas, pois se fosse possível, tentaria parar o tempo e o espaço naquele instante. Eu, adulto, fui completamente envolvido num abraço gentil e inocente de uma criança. Aquele abraço apertado e sincero, conseguiu expulsar minhas mazelas e reclamações da vida. A generosidade daquela criança reverberava em mim através de um gesto tão simples, porém muito significativo.

Quando ela me soltou, novamente sorriu e com gestos me agradecia.

“Eu agradeço, minha criança!”, disse a ela com toda a sinceridade que brotava do peito. Ao seu lado, sua mãe era só sorrisos.

Não foi acaso nem mesmo sabia, mas tudo o que eu mais precisava naquela tarde não era organizar ideias ou estruturar projetos, mas fazer uma caminhada rumo a um forte, generoso e sincero abraço. Meu dia estava completo. Estava renovado e pronto.

A você, ABRAÇOS GRÁTIS. QUER O MEU?



(*) Linguagem Brasileira de Sinais

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

SIMPLES E INESQUECÍVEL, COMO A VIDA DEVE SER



Era um feriado de primeiro de maio de muito sol e calor. A data é comemorativa ao trabalhador, porém mais parecia o dia das crianças. Ruas movimentadas, pessoas seguravam crianças pelas mãos enquanto caminhavam pelas ruas do bairro, nas imediações da recém-inaugurada Ponte do Trabalho. 

Não eram os tempos de smarphones, tablets ou aplicativos de todo gênero. Era um tempo em que ter telefone fixo era investimento e a comunicação mais comum ainda dependia de papel, caneta, envelope, selos e correios. 

Eram lembranças da alegria daquele homem de cabelos brancos, olhos azuis, jeito calmo e simples. Nem parecia o mesmo homem que, por causa da morte de um parente próximo, assumiu as responsabilidades sobre uma criança, ainda que sua idade já lhe parecia avançada para isso. 

Na verdade, acabou criando tanto afeto que tratava a criança como a um filho. Tanto afeto, que a ideia de um eventual retorno da criança à família biológica, lhe trouxera depressão, e com ela, a tentativa de suicídio.

Olhar aquele rosto feliz e receber um convite para um passeio no feriado era o melhor prêmio que se poderia ganhar. Foram em caminhada pelas ruas do bairro vizinho. Em passos lentos, atravessaram a ponte de madeira, acompanharam o movimento intenso das bicicletas e de alguns poucos carros que transitavam, levando seus ocupantes para aproveitar aquele belo dia. 

Um pequeno, que agarrava com força os dedos das mãos enormes daquele homem, andava com um sorriso orgulhoso por poder desfrutar daqueles momentos.

Passado algum tempo de caminhada, chegaram a um sambaqui próximo a Ponte do Trabalho. Sem encontrar opções para as brincadeiras de uma criança naquele local, atravessaram a ponte. Na descida, logo após o término do pavimento da ponte, encontraram uma pequena inclinação de terreno, revestida de grama. Certamente veio a mente do homem de olhos azuis alguma lembrança da infância, pois pediu-lhe para aguardar naquela inclinação enquanto ele se embrenhava no meio do matagal próximo. 

Haviam muitas crianças caminhando com seus pais, passeando com suas bicicletas ou aproveitando o parque que havia não muito longe dali. A espera, apesar de angustiante, criava muita expectativa. O que será que foi buscar no meio daquele matagal?

O "logo" é um tempo com características distintas, vivida ao mesmo instante. Pode parecer demorado para quem espera, mas não para quem faz a ação; desaparecendo assim que existe o reencontro. Foi assim quando surgiu o mesmo homem que guiou o pequeno pelas mãos até aquele lugar, com algumas cascas de coqueiro nas mãos. 

Num primeiro momento não era possível entender, mas logo o mistério foi revelado. A casca serviria como uma espécie de prancha para a brincadeira de descer aquela inclinação de terreno. 

No começo era uma criança, uma casca de coqueiro e muitas risadas. Logo chegaram outras crianças e outros pais, repetindo todo o ritual de antes. Não demorou para aquele lugar virar parque de diversão improvisado. A brincadeira rolou solta durante várias horas. E nem parecia tanto tempo assim. Mais uma vez a dualidade do "logo" se fez.

A simplicidade da brincadeira, do momento, daquele calor e de uma casca de coqueiro realmente não importavam. De um momento de simplicidade partiu uma lembrança eterna. O estar perto, as boas gargalhadas que davam juntos, o caminhar de mãos dadas, nem de perto lembravam os momentos difíceis que aquele homem vivera.   

Logo escureceu, logo precisariam voltar. E tão breve quanto iniciou, aquele dia das crianças fantasiado de dia do trabalhador, acabou encerrando numa caminhada sorridente daquela criança e daquele homem inesquecível, o qual aquela criança tinha orgulho de chamar de PAI.

domingo, 14 de janeiro de 2018

CAFÉ QUENTE, CABEÇA FRIA.


Era um dia de muitas nuvens. A chuva, aos poucos, ficava menos intensa. Já era possível sair para caminhar, se as poucas gotas de água que insistiam em cair não fossem fator de incômodo – e de fato não eram, pelo menos para mim.

Era necessário ir ao mercado próximo da minha casa, pois a desatenção acabou não permitindo perceber a falta de filtro para café – e minha vontade de tomar esse precioso líquido, era grande.

O mercado não é distante. Necessário caminhar uns oitocentos metros, já considerando ida e volta. No caminho, um estabelecimento para limpeza de carros, uma loja de roupas, uma igreja, uma sorveteria, algumas casas e o destino final, o mercado. Tudo muito perto.

No caminho percebo que, aos poucos, as pessoas iam tomando as calçadas, porém ainda portando seus guarda-chuvas. Aquela chuvinha enganava. A famosa “chuvinha de molhar bobo”.

Chego ao mercado, vou direto até a prateleira, apanho o pacote de filtros, me dirijo ao caixa, pago e faço o caminho inverso. Minha vontade de tomar aquele café só aumentava, a medida que a distância até minha casa diminuía.

No caminho de volta o cenário não havia mudado muito. Sons de carros passando na rua, pessoas caminhando, o som da música que era ensaiada na igreja – imagino que o culto estava prestes a iniciar – calçada molhada e, claro, o café. Aquela vontade era insubstituível.

Poucos passos depois de iniciado o caminho de volta, uma cena um tanto quanto inusitada. Um casal, elegantemente vestido, andava no sentido contrário, na mesma calçada. Ele de terno num tom claro, gravata azul, chapéu panamá combinando com a cor do terno, segurava uma pasta executiva e o guarda-chuva. Ela estava de vestido longo, detalhes floridos, cabelos cuidadosamente amarrados e salto alto. Caminhavam vagarosamente em minha direção. Aquilo poderia ser comparado a uma cena dos célebres filmes de Hollywood dos anos 50 do século passado, não fosse por um detalhe: quem estava protegido da chuva era ele, não ela.

Certamente Don Lockwood ficaria envergonhado e cederia seu guarda-chuva àquela dama, mesmo porque esse artefato era apenas detalhe nas mãos de Gene Kelly na famosa cena de “Cantando na Chuva”.

- Senhor, essa senhora está na chuva! Disse eu, sorridente para tentar “quebrar o gelo”.

- É bom para esfriar a cabeça. Disse ele grosseiramente, inversamente proporcional a elegância do traje.

A ela coube apenas me retribuir a tentativa com um sorriso tímido, enquanto caminhava ao lado do distinto “cavalheiro”.
A mim, coube ficar refletindo sobre aquela cena, avaliando o quanto conseguimos ser vazios enquanto somos cheios de si.

É, Gene Kelly. Algumas pessoas precisariam voltar aos anos 50 e extrair de lá algumas coisas boas que eram vividas naquele tempo.

E o meu café? Saboreei assim que cheguei em casa, pois acabara de esfriar a cabeça na chuva, a exemplo daquela senhora, no caminho de volta.


João Borges
Escritor - Joinville


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

AS MELHORES COISAS DA VIDA SÃO GRATUITAS



Recentemente participei de uma Bienal do Livro em Pernambuco. Uma experiência maravilhosa, em muitos sentidos.

Sem patrocínios ou dinheiro para participar do evento, organizei uma campanha para vender meu livro, publicado em março deste ano (2017), sendo que a renda gerada serviria para arcar com os custos de tudo: passagem, hospedagem, estande, deslocamentos, envio de material para o evento e alimentação. Era um projeto ousado. Seria necessária a venda de, pelo menos, cem exemplares do livro para que o projeto fosse viável. Minha preocupação era estritamente financeira, já que a motivação para viver o clima da Bienal era muito elevada.

No âmbito pessoal, vivo um caos. Desempregado, tenho nas vendas eventuais do mesmo livro a única fonte de renda para me manter. Quem é autor independente sabe bem do que estou falando. Para quem não é autor independente, tente imaginar a certeza de suas contas vencendo, sem a certeza de que terá os recursos suficientes para paga-los.

Campanha montada, era hora de começar a fazer contatos, divulgar e espalhar a notícia. Tinha pouco mais de um mês para levantar recursos suficientes. Passei muitas horas nessa empreitada. Sacrifiquei um bom tempo para estar com meus filhos, acompanhar atividades deles, escrever o novo livro, enfim. Todo o esforço era necessário e concentrado para que o sonho de participar da Bienal de Pernambuco fosse realizado. Ainda, o dinheiro era a maior preocupação.

Os dias foram passando, os exemplares eram vendidos e os recursos iam sendo arrecadados. Infelizmente, ao final da campanha, não consegui chegar na meta. Na verdade, fiquei bem longe de atingir o objetivo, porém não me dei por vencido. Refiz os cálculos, retirei bagagem, fiz opções ainda mais baratas das que já tinha feito anteriormente. Ainda assim o arrecadado não era suficiente. Uma decisão era necessária: desistir era uma; seguir viagem, apresentar o trabalho e com o resultado das vendas na Bienal cobrir o que ainda faltava, era a outra.

Mais uma vez, ousadia. Decidi seguir viagem, porém a preocupação financeira ainda insistia em martelar a cabeça. Deixei para trás os abraços, beijos e sorrisos carinhosos dos filhos para partir rumo ao sonho.
Viagem realizada, troca de experiência com leitores e outros escritores, alguns livros vendidos e a certeza de que tudo o que havia feito anteriormente, não tinha sido em vão.

Resultado financeiro? Não obtive. Os livros vendidos antes e durante a Bienal não foram suficientes para que os custos fossem cobertos. O financeiro ainda está martelando a cabeça. Se antes estava difícil, agora está mais.

Ainda assim existem as compensações. Ao retornar da viagem, recebo os melhores presentes do mundo. Cheguei em casa e meus filhos ainda não tinham vindo da escola. Fiquei esperando dentro do carro. Quando ao longe me avistaram, saíram correndo e me deram os abraços, beijos e sorrisos mais sinceros que poderiam existir. Ah, aquele carinho todo. É capaz de afogar todas as preocupações numa fração de segundo. Não que esteja sendo relapso com as obrigações que ainda restam. Longe disso. Mas aquele momento não poderia - nem deveria - ser dispensado. É único, verdadeiro, arrebatador. Daqueles que te arrastam de uma tormenta e carregam a um lugar seguro. 
É o tipo de gesto que não tem preço, é gratuito, mas tem um valor imensurável.


De tudo o que o dinheiro pôde pagar, das experiências vividas, e daquilo que ainda precisa ser pago, o melhor ainda é gratuito. 


João Borges, escritor.
Joinville/SC

terça-feira, 15 de agosto de 2017

SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO


A célebre frase de Shakespeare na peça “A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, é o retrato do que fazemos todos os dias, mesmo que isso não seja perceptível: tomamos decisões. Para ser um pouco mais preciso, fazemos isso quase o tempo todo.

Ao acordar, decidimos levantar da cama “ligados na tomada” ou permanecer aqueles gostosos e revigorantes cinco minutinhos – que se descuidados, podem virar desesperadoras horas a mais.

Durante o dia, mais e mais decisões. Ir para o trabalho de carro ou a pé? Ônibus ou bicicleta? Sair agora ou mais tarde? Almoçar em casa ou na empresa? Será que vai chover? Preciso levar casaco, acho que vai esfriar. E por aí vai...

São tantas as perguntas, que as decisões são tomadas quase que automaticamente, porém existem outras que não podem ser tomadas desta forma. Algumas decisões têm o poder de mudar completamente o rumo de uma vida. Para essas, o merecimento do nosso tempo, cuidado e atenção.

Decidir casar não é como decidir comprar uma flor – mesmo sabendo que casamentos nasceram a partir de ações como essa. Decidir ser pai/mãe não é como decidir ir ao cinema – mesmo sabendo que filhos foram concebidos depois de assistir um bom filme. Decidir a profissão que irá trabalhar não é como decidir ouvir uma música – mesmo sabendo que muitas pessoas decidiram ser músicos profissionais por receberem esse tipo de incentivo.

Cada decisão que tomamos carrega consigo as consequências, e elas não podem ser ignoradas.

No livro Nove Meses e Quarenta Minutos, os personagens Richard e Amanda se deparam com um dilema. Durante uma gestação, a vida de Amanda está sob risco. Existe uma decisão a ser tomada e, independentemente do que for escolhida, ela irá mudar completamente a vida da família. Qual a decisão tomada? A melhor, na visão do casal. Se você vai concordar ou discordar da decisão deles, não sei. O importante é que a decisão foi tomada de maneira responsável e livre. Reforçando: cada decisão, uma consequência. E, nesse caso específico, uma pergunta foi respondida: decidiram pela felicidade.

Sim, ser feliz é uma decisão. Tão real, que somos capazes de trilhar nossa felicidade através das nossas escolhas. Se bem ponderadas, mais fácil. Do contrário, recomeços.

Com todas as decisões que tomamos todos os dias, será que tiramos um tempo para perguntar a nós mesmos: AFINAL, QUANDO VOU DECIDIR SER FELIZ?

Fica como sugestão, uma tarefa para ser praticada diariamente: SER FELIZ. Que tal?


João Borges

Escritor – Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...