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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

ME CONTA

 


Oi, me fala do teu dia.

Me conta daquela conquista que te abriu um sorriso largo, logo cedo.

Me diga do teu carro que quebrou, foi preciso chamar um guincho e, mesmo na chuva, você resolveu caminhar sem preocupação.

Comenta sobre a cara que fizeram quando te viram sorrir, chorar ou perder a paciência.

Me fala daquele café gostoso, do pão quentinho e do cheiro de livro novo.

Quero saber sobre a música que você cantou enquanto tomava o teu banho demorado.

O que te fez despertar hoje cedo?

Diz pra mim sobre o que sentiu quando a chuva veio e estragou os teus planos.

Me conta sobre o som das ondas e do barulho do vento nas folhas das árvores. O que fez brilhar os teus olhos?

Me fala das tuas vitórias, mas não esqueça das tuas derrotas.

Eu abro o vinho, você abre o coração e revela alguns segredos. Quem sabe até as mais loucas lembranças.

Temos tempo. Não se preocupe em resumir. Fala tudo. Cada letra. Cada palavra. Cada frase. Apenas fale, ao pé do ouvido, antes do beijo, depois do abraço, antes de irmos dormir.


JOTA B


sábado, 8 de agosto de 2020

O CORETO DA PRAÇA CENTRAL


Outro dia resolvi fazer minha caminhada de fim de tarde em um lugar diferente, que há muito tempo não visitava. Fui até uma pequena cidade, muito aconchegante e vizinha da cidade onde eu moro. A calma daquele lugar é o contrate perfeito em relação a intensidade da sua vizinha maior. A praça central é dotada de muitas árvores e trilhas pavimentadas, ótimas para caminhadas urbanas. Apesar do tamanho da cidade, a praça central é relativamente ampla. No centro da praça existe um coreto muito bem conservado que, só de olhar, faz a imaginação voltar no tempo, tentando capturar a imagem das bandinhas tocando nas tardes ensolaradas de domingo. Casais bem trajados caminhando lentamente enquanto conversavam. Famílias que se encontravam na praça para assistir as apresentações. Ao redor do coreto, vários bancos e muitos jardins. Cena típica de novelas épicas que nos traz um exercício histórico, saudável para qualquer um.

 

Lembrei que naquela praça, oito anos antes, encontrei Ela pela primeira vez. Estava sentada em um dos bancos ao redor do coreto e conversando com um ex-colega meu, de faculdade. Naquela oportunidade, ao me ver passando, Ethan veio ao meu encontro para me cumprimentar. Apresentou-me sua esposa, Ela, e seus dois filhos. Tivemos uma conversa relativamente rápida, mas muito cordial.

 

Caminhei aproximadamente duas horas entre as trilhas da praça e as ruas da cidade. Para finalizar a caminhada, resolvi subir um morro próximo, onde havia um ponto de observação da cidade. Uma espécie de mirante que tinha uma estrutura de trilha com deck de madeira. De lá era possível observar boa parte da cidade e o olhar se perdia pelo lindo horizonte daquela região. Fui até lá para ver o pôr do sol. Várias pessoas fizeram o mesmo. Sentei-me num dos bancos para descansar e aguardar o espetáculo do astro-rei. Enquanto aguardava, uma doce e encantadora voz feminina se fez ouvir por trás de mim. “Oi! Lembra de mim?”, disse. Virei para trás e tal foi minha surpresa ao ver Ela. “Oi, claro que lembro”, respondi. Percebi que Ela estava só, sem Ethan ou os filhos. “Me admira, depois de tanto tempo você ainda lembrar. Posso sentar ao seu lado?”, perguntou. Acenei positivamente e sentou-se.

 

Ela tem estatura baixa e estava especialmente linda. Pele escura, cabelos pretos, lisos e longos. Olhar penetrante acompanhado de um sorriso singular, expostos por lábios perfeitamente esculpidos. Vestia roupa de academia, colada ao corpo, mostrando que não foram as duas gestações, nem mesmo o tempo que a impediram de ter belas curvas do início ao fim. Ela tinha me visto caminhando na praça e resolveu ir até o mirante também.

 

Perguntei por Ethan e os filhos. Disse havia se divorciado a apenas dois anos e os filhos estavam passando o fim de semana com Ethan. Estava aproveitando para passear e ver o por do sol daquele ponto. A conversa fluiu até o momento em que percebemos que foi necessário o silêncio para apreciar aquele espetáculo. Aos poucos, o crepúsculo chegava. A luz do dia era substituída pelo escuro da noite. As pessoas iam embora e nós acabamos ficando um pouco mais.

 

Fiquei surpreso, pois a conversa revelava vários pontos em comum. Hábitos de caminhada em cenários diferentes, pôr do sol, praia, preferências musicais, enfim. Vagamos por vários assuntos.

 

A lua já tomava conta do seu lugar no céu e nós estávamos ali, sozinhos. Não contamos as horas, nem os temas conversados. Apenas nos permitimos viver aquele momento. Num dos raros instantes de silêncio, Ela apoiou sua cabeça em meu ombro e ficou olhando para as estrelas. Entrei no silêncio dela e a envolvi num abraço. Com isso, Ela se aconchegou ainda mais, procurando espaço no meu peito. Aquele silêncio foi quebrado por um movimento. Ela estendeu sua mão, tocando o lado do meu rosto e fazendo com que eu virasse meu olhar para o dela. Sem dizer nada, lançou seus lábios contra os meus. Beijo doce e intenso. Impossível tentar explicar a sensação de saber que aquele beijo seria meu, algum dia. As palavras davam lugar aos olhares. Os beijos viajavam entre a docilidade e a lascividade. Nossas mãos passaram a percorrer nossos corpos, numa volúpia indescritível. Tudo isso interrompido de forma repentina pelo guarda que cuidava da vigilância daquele espaço. Momento tenso e estranho. Acalmamos os ânimos enquanto éramos orientados a deixar o lugar, por motivos de segurança.

 

Fui para o meu carro. Ela para o dela. Como tínhamos que sair dali, combinamos de nos reencontrar na praça central. E lá fomos. Aproveitamos aquela noite e o restante do fim de semana. Ela e seus filhos não moram na mesma cidade que eu, porém não é muito distante. Trocamos mensagens, nos encontramos e vivemos nossos momentos intensamente. As vezes eu aqui e Ela lá. Outras, eu aqui, Ela e seus filhos também. Outras ainda, eu e Ela em algum outro lugar. Ambos presos pela liberdade na qual vivemos. E assim vamos cantando a vida, como num coreto na praça central.

 

João Borges


sábado, 13 de junho de 2020

RECONECTAR




Finalmente havia chegado o feriado. Seriam quatro dias para aproveitar fazendo caminhadas por trilhas em meio a mata fechada. Era um daqueles programas que recarregam as energias, que demandam cuidados e algum planejamento.

Passei um bom tempo pesquisando as melhores trilhas para caminhada nas regiões mais próximas. A maioria delas eu já havia passado pelo menos uma vez. Uma delas eu ainda não conhecia. Alguns trilheiros contam que no caminho é possível encontrar lagos e quedas d’água. Era o cenário perfeito para a minha próxima caminhada.

Fui de carro até o ponto máximo permitido. Era um camping, bem estruturado e movimentado. Estacionei o carro, retirei minha mochila, troquei meu calçado e me preparei para a caminhada. Seriam 14km percorridos até o final da trilha escolhida.

O cenário era perfeito. A temperatura amena, dia ensolarado, pessoas indo e voltando. No início a trilha era larga e plana. Adentrando a mata, ficava mais estreita e com obstáculos. O terreno já não era tão plano e o sol cada vez menos presente. Alguns poucos raios de luz solar se deitavam sobre a trilha, apenas. O som das folhas ao vento e dos pássaros era sinfonia. Tudo aquilo me envolvia de tal forma que o stress já nem mesmo era lembrado. Como é bom ouvir o som do silêncio e deixar que a alma dance naqueles acordes.

Pouco mais de uma hora de caminhada e aos poucos outros sons começavam a aparecer. Parecia o som de um riacho. Caminhei em direção ao som, como se fosse um mosquito atraído pela luz de uma lâmpada. Desci um barranco, tropecei em raízes de árvores quase enterradas que invadiam a trilha, rolei pelo chão, arranhei meus braços, mas consegui chegar. Era um rio. Nele havia pedras de todos os tamanhos. O nível do rio estava baixo e a água totalmente limpa corria suave em torno das pedras, como crianças no parque numa tarde de sábado. Aproveitei para sentir a temperatura da água, lavar as mãos e o braço que pouco sangrava pelos arranhões. Fiquei ali por alguns instantes, aproveitando aquele ponto de paraíso. Decidi subir o rio pela margem. Não havia trilha, o que atrasaria minha chegada ao final do percurso, mas parecia recompensador. No caminho tortuoso ia me reencontrando. Sentia reconectar a vida. Meu suor naquela mata era diferente daquele que tinha em dias quentes quando saia do escritório. Era um abraço da natureza em forma de gotículas que brotavam dos meus poros.

Duas horas de caminhada pela margem e o som das águas ficava mais robusto. Era claramente o som de uma queda d´água. Por ter saído da trilha e percorrido a margem do rio, não havia encontrado outras pessoas pelo caminho. Depois de uma curva no rio e de algumas árvores enormes para desviar, finalmente cheguei a um lago. Ao fundo, um paredão de pedra que era banhado por uma cascata. Era possível ver os degraus finais da cascata, mas não era possível ver onde começava. O lago era relativamente grande e não havia pessoas no final da trilha. Nesse ponto do caminho o sol ganhava um grande espaço para mostrar sua majestade. Sentei as margens do lago, querendo ouvir o som da queda d’água, que de tão alto sobrepunha o som das folhas. Estava cansado, mas feliz. Deitei-me ali mesmo para aproveitar aquele momento, que foi interrompido por som de passos. Ela apareceu da trilha. Estava com biquini e caminhava em direção ao lado para tomar um banho naquela água fria e límpida. Passou por mim, lançou um olhar, deu um sorriso e entrou na água. Não pude deixar de perceber a beleza daquele sorriso. O sol dava ainda mais brilho naquele corpo cuidadosamente esculpido e de pele morena. Seus olhos eram castanhos, cabelos pretos esvoaçantes e que iam até pouco abaixo do ombro. Seios médios e curvas sinuosas pelo corpo que me prendiam o olhar. O coração disparou vendo-a entrar na água. Fiquei ali, meio desconcertado, mas firme em aproveitar aquele instante. Depois de alguns minutos, Ela saiu da água e veio em minha direção. Estendeu a mão, me convidando para segui-la. Eu não estava disposto a entrar na água, mas chegar mais perto da margem era bem possível. Ela me levou até mais próximo da margem e com cuidado molhou os arranhões, limpando-os. “Eu vou cuidar disso aqui”, dizia com voz doce. A água que percorria meu braço parecia não estar fria. Ela se sentou ao meu lado e começamos a conversar. O papo fluiu natural e encantadoramente. “Seria Iara, a sereia dos rios brasileiros?”, pensei. Ela mostrava ser afetuosa. Por várias vezes procurava me tocar. Aos poucos chegava cada vez mais perto de mim. Por fim, se envolveu no meu braço e deitou sua cabeça em meu ombro. Seguíamos conversando quando Ela me interrompeu. Me convidou para tirar a roupa e entrar na água. Olhei em volta. Ninguém. Ela viu que fiquei um pouco intimidado pelo convite inusitado. Chegou perto de mim e me beijou. Tirou minha roupa vagarosamente. Fui recíproco. Entramos no lago. A água era fria, mas assustadoramente gostosa. Ela foi mais próxima da queda d´água, onde os pés já não alcançavam o fundo. Me chamou e eu fui. Me entreguei de vez ao inesperado. Com calma, nadou para perto de mim, envolveu seus braços em volta do meu pescoço e chegou seu corpo junto ao meu. Suas pernas envolveram minha cintura. A respiração de ambos aos poucos ficava mais intensa. Os olhos se cruzavam e o calor dos corpos aumentava. Longos beijos eram trocados. Não foi difícil esconder minha excitação, da mesma forma que ela também estava. A pele arrepiada, a intensidade dos toques e os gemidos que se confundiam com os sons da natureza, completavam o cenário do nosso primeiro contato. Ficamos ali por longos minutos, que mais pareciam segundos.

Saímos do lago abraçados. Fomos para um lugar com sombra, nos vestimos e ficamos conversando. Tantos assuntos apareceram, mas não sabia de onde Ela era. Perguntei e ela respondeu: “Longe de tudo, mas perto de você”. Uma resposta vaga que foi precedida de um beijo. Ela botou a mão em meu peito e me fez deitar na grama. Me beijou novamente e de um jeito que jamais vou esquecer. De repente se levantou e caminhou em direção a mata. Sobre minha mochila um bilhete. “Me liga. Quero teus beijos pra mim”. Olhei em volta e não a encontrei mais.

Eu precisava me reconectar, mas aquele feriado me mostrou que a natureza reserva boas surpresas que levam a graus elevados de conexão pura.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

AS LÁGRIMAS QUE NÃO PUDE ENXUGAR



Aquela quinta-feira era especial. Naquela noite era o lançamento do meu mais novo livro. Meses de trabalho, semanas de preparação e analgésicos de perder a conta por causa das frequentes dores de cabeça. O corre-corre era tão intenso, que os dias que antecederam o evento pareciam pequenos. Faltavam horas.

Naquela quinta eu resolvi desacelerar. Cumprir alguns poucos compromissos para pensar um pouco mais num ser que eu estava deixando de lado: eu mesmo.

No final da manhã fui visitar um amigo. Ele havia me convidado para uma entrevista numa rádio local para conversar sobre o livro. Ao chegar na emissora, me apresentou todo o estúdio, os colegas e a estrutura de trabalho. Numa das salas estava Ela. Veio ao meu encontro com um sorriso irresistível e iluminado, mas tinha algo a mais. Diferente. Me cumprimentou e deu um beijo no rosto. Confesso que aquele sorriso ficou gravado na minha mente durante todo o tempo da visita.

Fui levado ao estúdio para a entrevista. A sala era relativamente pequena. Uma janela de vidro permitia que as pessoas acompanhassem a dinâmica da programação sem que os ruídos externos interferissem. De dentro do estúdio pude perceber algumas pessoas vendo a entrevista através da janela. Uma delas era Ela.

Após a entrevista, meu amigo me levou até a recepção. Deixei convites para que a equipe pudesse comparecer ao lançamento do livro, agradeci a oportunidade e despedi-me.

A grande noite havia chegado. Minha ansiedade só não era maior que a vontade da gerente da editora querer me estrangular. Eu deixei a equipe dela pilhada. Pedi cadeiras adicionais, mudei o lugar do cerimonialista umas trinta vezes, pedi repetidas conferências na lista de convidados, enfim. Virei o lugar do avesso com pouca necessidade e muita ansiedade.

Aos poucos os convidados iam chegando. Os lugares, sendo preenchidos. Ainda bem que pedi cadeiras adicionais. Entre as pessoas que vieram estava Ela. O sorriso, marcante, completava natural e perfeitamente aquele rosto bem construído por mãos divinas. Mas aquele olhar... eu ainda precisava entender aquele olhar.

Durante a cerimônia meus olhos percorriam a plateia, mas era impossível resistir ao magnetismo da presença dela. Eram aproximadamente trezentas pessoas, mas Ela se destacava naquela pequena multidão.

Ao final foram cumprimentos, fotos, dedicatórias, bate papo, descontração e muita energia boa. Ela ficou até o final. Trocamos telefone. A partir dali passamos a conversar todos os dias. Nos encontrávamos com certa frequência. Nossas conversas fluíam naturalmente. Não encontrava meios de conseguir resistir ao sorriso. Era de tirar do chão. Mas aquele olhar...

Num desses encontros disparei: “preciso entender: quantas lágrimas estão escondidas atrás desse olhar?”. Ela, sem rodeios, devolveu o tiro: “...todas as que derramei sem que você pudesse enxugar”.

Todas as dores, medos e incertezas estavam ali, quase imperceptíveis. O sorriso iluminado que ofuscava e guardava sentimentos que desejavam sair. Um olhar misterioso que escondia um grito inaudível. Quantas lágrimas escorreram da alma, sem o mínimo de percepção aos olhos? Quantos gritos foram dados sem que chegassem aos ouvidos da ajuda?

Ela, agora confiante, despia a alma completamente. Enquanto ouvia, também entendia o encanto que Ela era capaz de produzir.

Mas aquele olhar... não era mais necessário entender ou buscar explicações. O mistério deu lugar à leveza.

Não pude enxugar todas as suas lágrimas, mas somente até ali. Desde então vejo brilho, e não são de lágrimas.

João Borges

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

AQUELE ABRAÇO



Que dia! Quem nunca usou essa expressão pra resumir os extremos opostos, tanto para uma conquista, um “sim” que muda a rota da vida ou simplesmente para mostrar o quão leve foi o dia, quanto para absorver uma decepção, uma situação que trouxe frustração ou ainda para amenizar a sincera vontade de ligar o “botão do foda-se”.

Tinha tudo para ser um dia especial. Saí de casa motivado, animado, com minha potência vital em alto nível. Ela ainda dormia. Antes de sair, beijei-a com o cuidado necessário para não acordar a fera. Ela é o tipo de mulher que tem o termômetro do humor alterado por necessidades biológicas simples como dormir e se alimentar bem. Aprendi, com o passar do tempo, que liberdade, alimentação saudável e descanso fazem bem a si e a uma relação que deseja ser duradoura.

Nem a chuva, que caía com vontade, abalou meu entusiasmo. Desci ao térreo cantarolando, cheguei na garagem e percebi um dos pneus do carro furado. Ainda bem que aconteceu em casa, num lugar onde posso fazer a troca sem me molhar com essa chuva, pensei. Troquei o pneu, guardei as ferramentas, subi até o apartamento, tomei mais um banho e troquei de roupa. Ela acordou com o barulho e percebeu meu atraso. Resolveu levantar e me acompanhar no banho. Aquele era o tipo de atraso que vale a pena o risco. 
Apesar de ser um convite quase irrecusável, mantive o foco. No banho, nossos corpos eram apenas detalhes, porém aquele abraço, que para ela significava aconchego e segurança, para mim era, na verdade, a minha recarga de energia favorita. Procurei sair rapidamente do banho. Troquei de roupa, beijei-a novamente, dessa vez com maior intensidade.

Desci novamente até a garagem. A chuva era insistente. Entrei no carro e fui trabalhar. No caminho, por causa da chuva, um acidente de trânsito. Parecia estar tudo bem, apesar do clima aparentemente tenso. O trânsito estava pesado. Aquela motivação inicial, aos poucos, dava lugar a preocupação. O dia dava sinais de dificuldades.

Já no trabalho, entrei na sala e vi um bilhete sobre minha mesa. Reunião as 10h. A apresentação da proposta para meu principal cliente havia sido antecipada. Virei para a porta e meu diretor estava ali, estático e aparentemente ansioso. Proposta pronta, porém, ainda havia alguns alinhamentos necessários. Tínhamos dez minutos para conversar e montar a abordagem. A tensão nos olhos do meu diretor era visível. Vamos em frente, vai dar certo. No momento da apresentação o projetor falhou. Constrangimento. Mantive a calma e o foco. Meu diretor, nem tanto. No final, tudo certo. Apresentação feita e contrato renovado. Apesar de tudo, vitória.

Corre-corre do dia, tensão, e-mails, ligações, ...

Dor de cabeça. Ah, aquela dor de cabeça não estava nos planos. Se havia algo que me tirava a concentração, era a enxaqueca que me acompanhava de vez em quando. Meu dia começou bem. Estava tão motivado. O que houve? Rapidamente, a força vital que estava em alta foi se esvaindo. As circunstâncias do dia pareciam engolir minha motivação inicial. Eu precisava de recarga. Ela pareceu sentir o que eu sentia. Recebi uma mensagem no celular. Te amo. Você escolhe a massa, eu escolho o vinho. Era Ela. Mensagem simples, mas significativa.

Tomei um remédio, respirei fundo e finalizei a rotina daquele dia. Antes de seguir para casa, resolvi caminhar. Respirar. Olhar o movimento frenético dos carros sem necessidade de estar dentro de um. A dor de cabeça foi amenizando. Fiz a reflexão do dia enquanto caminhava. Momentos de vitórias e outros de derrotas. O que fiz com cada um desses instantes? Ela surgiu na minha mente, novamente. Isso era comum. Independente do instante, Ela estava lá povoando meus melhores pensamentos.

Após a caminhada, voltei para a empresa, encontrei meu carro e retornei para casa. Ela ainda não havia chegado.

Fui até o quarto, tirei a roupa e fui para o banho. Aproveitei o tempo livre para preparar uma massa. Ouvi o barulho da porta abrir e fechar. Ela chegou trazendo o vinho. Armada de sorriso, me fuzilou com os olhos. Fui presa fácil. Eu a agradei com a massa que ela gostava. Ela agradou-me com meu vinho preferido. Chegou mais perto, largou o vinho sobre a mesa e me abraçou. Aquele abraço me tirava do chão, me refazia sem esforço. Como pode um gesto tão simples conseguir reconectar os cacos que vão soltando no decorrer da existência? E o que é essa coisa inexplicável de poder sentir o pulsar incessante do coração da outra pessoa, a explosão de adrenalina e que te joga numa dimensão sem tempo ou espaço conhecido?

Ah, aquele abraço. Simples. Único. Completo. Sem qualquer explicação lógica.

Éramos apenas nós, a simplicidade, vinho e uma noite inteira. Sublime conexão.


João Borges

terça-feira, 26 de novembro de 2019

EU, ELA E O MOMENTO



Caía o entardecer. O crepúsculo era o prenúncio das cortinas do dia que se fechavam, para dar lugar ao espetáculo da lua cheia que já ensaiava seu brilho. Eu não fazia ideia, mas definitivamente aquela seria uma noite especial.

Chegamos quase ao mesmo tempo ao aeroporto, despachamos nossas malas praticamente juntas, entramos na sala de embarque e no mesmo avião, sentamo-nos em poltronas da mesma fileira, fizemos o check-in no mesmo hotel e éramos completos estranhos até então.

Enquanto eu fazia o check-in, Ela aguardava ao meu lado. Discretamente, pediu a caneta que eu usava para preencher a ficha de cadastro de hóspede. Sem qualquer esforço, sorria com os olhos. Não foi difícil perceber. Puxou assunto dizendo que havia notado que saímos do mesmo lugar para chegar ao mesmo destino. Contou-me sobre o objetivo da viagem, do trabalho, dos lugares que já havia conhecido. Quando nos demos conta, já estávamos num bistrô e as poucas horas da noite já queriam dar lugar as primeiras horas da madrugada.

Falamos desde as trivialidades das nossas rotinas, passando pelas vãs filosofias de bar até chegar ao profundo poético da alma humana. Isso mostra o quão fomos intensos, rasos e profundos em tão pouco tempo.
Viajamos pelas nossas histórias, contamos segredos que jamais seriam contados. Era a estranha intimidade normalmente vista num touchscreen. Mais estranho ainda era viver aquilo, sabendo que éramos apenas aquele instante. Não havia uma perspectiva de dia seguinte, nem tampouco arrependimentos por dias passados. Eram apenas eu, Ela e o momento.

Deixamos a conversa fluir até que a intimidade das palavras passou a ser intimidade na pele. Nos permitimos tocar mãos, braços, rosto, cabelos... As palavras, aos poucos, davam lugar ao silêncio, que em certa medida falavam mais alto que nossas próprias vozes.

Em mais um piscar de olhos, não estávamos mais no bistrô, mas no corredor do hotel. Para fechar o ciclo da conspiração universal, estávamos hospedados em quartos próximos. Levei Ela até a porta do seu quarto, me despedi com um beijo e fui para o meu quarto. 

Enquanto procurava o cartão de acesso, fui surpreendido por um abraço. Aquelas mãos já não me pareciam estranhas. Ela estava atrás de mim, querendo invadir minha madrugada muito mais que invadir meu quarto. Mais uma vez éramos três: eu, Ela e o instante. Beijei-a com intensidade. Nela escrevi poesia com os lábios, tendo o corpo como papel. Em mim, ela recitou cada verso em movimentos.

Já não estávamos mais no interior do quarto, mas na sacada. A lua cheia era uma testemunha inocente e distante. Passamos horas nos permitindo visitar os segredos ainda não contados e descobrindo a beleza da simplicidade. Ouvimos reciprocamente os mais profundos suspiros. Vivemos. E como vivemos.  

Acordei com o sol tomando conta do espaço. O calor serviu de despertador. Janela aberta. As cortinas ensaiavam esvoaçar com a pouca força do vento que entrava quarto adentro. Já havia perdido completamente a noção das horas. Ao meu lado, na cama, um vazio. Ela não estava ali. Fui até o quarto dela. Nada. Fiz contato com a recepção. Nem mesmo um check-in feito com seu nome. Que estranho...

Sonho? Quem sabe. Não tenho resposta certa. Talvez mais um devaneio da mente de um jovem escritor.

João Borges

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ELA, CAUSA E EFEITO



Cheguei em casa cansado, depois de enfrentar um dia cheio de problemas. Foi um daqueles dias que mereciam uma comemoração, mesmo que simbólica. Celebrar a capacidade de “matar um leão por dia” é algo que vale muito a pena.

Ela já estava em casa. Me recebeu com aquele sorriso que me conquista e desarma. Qualquer problema perde todo sentido, diante daquele presente que Ela me oferece gratuita e naturalmente, sem qualquer esforço.  

Eu a convido para sair. Chope, bom papo e um ambiente com música ao vivo eram o suficiente para espairecer e abandonar toda a tensão daquele dia. Ela, por outro lado, parecia saber o que eu realmente precisava. Sair e aproveitar um chope é bom, mas já percebeu o quanto ficar em casa e sentir o aconchego de um abraço, pele na pele, olho no olho, é gostoso?

Independente do lugar, o que eu mais precisava naquele momento era sentir o doce sabor da reciprocidade. Ela sabia exatamente disso. A singularidade daquela mulher me impressiona. Ela me conhece de um jeito que não é necessário falar. Sabia que eu precisava daquele sorriso, daquele olhar, daquele abraço, no exato momento que entrasse em casa. Impagável.

Me joguei na proposta dela. Viver aquele instante, mesmo com toda simplicidade, era se deixar envolver por um pedido sem condições de recusa. Vem cá, fica comigo.
Música ao vivo é bom. Ativa os sentidos e relaxa. Mas você já percebeu o efeito causado pelo silêncio, quebrado apenas pela intensidade de um beijo?

Ela é assim. A resposta de uma pergunta que ainda não fiz. A descoberta diária, mesmo quando seu humor não é dos melhores. Minha força, quando sou fraco. Meu ponto fraco, quando me acho forte.

Até esqueci do cansaço. Percebeu o efeito que Ela me causa?

João Borges

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

...COM CHUVA MESMO




Era um fim de semana qualquer. Daqueles que você tira pra descansar, pensar em nada e aproveitar o dia. Pra completar a cena, a chuva resolveu dar o ar da graça aumentando ainda mais a vontade de permanecer na cama aqueles famosos “mais cinco minutinhos”.
Como de costume, tomei banho tão logo saí da cama. Vesti uma roupa trivial, entenda-se bermuda, camisa e chinelo. Arrumei o quarto e preparei o café. Uma das coisas que curto é ouvir música enquanto faço qualquer atividade, por isso escolhi uma playlist de rock dos anos setenta e oitenta para ouvir num aplicativo de celular. Talvez uma das rotinas mais típicas de quem mora sozinho.
Sem me prender a rotina doméstica, parei por dois minutos para observar a chuva. Minha mente viajou pelo passado até encontrar o dia em que Ela me fez um convite inusitado.
Foi o dia em que ambos estavam em período de férias e, sem combinar, escolheram os mesmos destinos: a praia. Na temporada de verão, aquele lugar triplica a população.

Resolvi saí para caminhar pela faixa de areia, lotada de guarda-sóis, pessoas estendidas sobre toalhas de praia ou sentadas em cadeiras, enquanto tomavam suas cervejas e observavam o movimento, muitas vezes com olhares escondidos pela lente escura dos óculos de sol.

Durante a caminhada, senti que alguma coisa bateu nas minhas costas. Olhei pra trás e vi uma bolinha e uma jovem que corria ao meu encontro. Sem jeito, pedia desculpas por ter me acertado em cheio. Olhei acima dos seus ombros e percebi que na verdade ela não havia me acertado, mas sim uma mulher que estava jogando com ela. Sem me importar por ter levado aquela bolada, sorri e devolvi a bola, acenei e continuei caminhando. Segui até praticamente o fim da orla. Calculei uns 5km de caminhada, sem cansar. O efeito da atmosfera da praia é incrível. Parafraseando a internet, não é água com açúcar que acalma. É água com sal.

Fiquei sentado na areia, no mesmo lugar que resolvi parar a caminhada. O sol aos poucos dava lugar as nuvens, que chegavam escuras e pesadas. A chuva se anunciava e eu ainda tinha 5km de caminhada para voltar. Não havia percebido, mas a mulher que me acertou a bolada também veio caminhar. Estava sentada, mais ao longe, observando a chegada da chuva.

Fiquei olhando o movimento das pessoas que deixavam a faixa de areia enquanto eu pensava as formas de cortar caminho pra fugir da chuva. Iniciei meu retorno pela faixa de areia mesmo, até chegar a um ponto que pudesse ser usado de abrigo. Distraído, ouvi uma voz que vinha por trás de mim. “Vamos continuar a caminhada?”, convidava. Meu olhar perdido ainda buscava um abrigo, enquanto a voz insistia: “Vem, vamos caminhar na chuva”. Olhei pra trás e me deparei com aquela bela mulher. Num primeiro momento, travei sem saber direito o que dizer. “Quer me acompanhar?”, insistia. No momento seguinte, retomei meus sentidos, sorri e continuei caminhando ao lado dela. Foram mais 5km de caminhada sob uma chuva que aumentava a cada instante, inversamente proporcional ao ritmo da caminhada, que diminuía a medida que o papo fluía. Como não havia queda de raios ou trovões, a caminhada seguiu tranquila. Ela me contou o que tinha passado aquele ano pra chegar até ali. Falou um pouco do trabalho e muito dos seus gostos musicais, o que gosta de fazer enquanto ouve música, dos lugares que frequenta, do divórcio, dos filhos e da sua rotina. Os poucos mais de 30 minutos que usei caminhando na ida, transformaram-se em quase três horas no caminho da volta. Não percebemos o tempo passar, nem mesmo o trajeto que havíamos feito.

Mais ou menos na metade do trajeto, interrompemos a caminhada. Sentamos na areia molhada para alongar o papo e a presença. Sorrisos tentavam disfarçar o envolvimento da troca de olhares que de vez em quando eram feitos. Nos poucos momentos de silêncio, ambos buscavam no horizonte alguma resposta para entender o que estava acontecendo ali. O vento soprava leve e as gotas de chuva já tomavam conta dos nossos corpos. 

Quando resolvemos finalizar o trajeto, poucas pessoas ainda estavam na praia. Nossa conversa foi boa, descolada e relaxada. Já no fim da caminhada, Ela virou de frente para mim e me beijou. No início um leve toque dos lábios, depois a intensidade aumentou.
Ainda abraçados, Ela agradeceu a companhia e o bom papo. Aqueles olhos castanhos sorriam naturalmente. Puro encanto.

Não trocamos contato, apenas o compromisso de sempre lembrarmos daquele momento de chuva. Um último beijo e a despedida. Ela desapareceu no movimento das ruas.

Passados os dois minutos para visitar minhas lembranças do passado, enquanto ouvia rock e o som da chuva, segui meu fim de semana. Quem sabe no fim da tarde faça uma caminhada na praia, com chuva mesmo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

ELA E O AMOR PRÓPRIO




Ela estava lá, a distância, e não fazia muita questão de conversar comigo. Umas poucas mensagens triviais trocadas por celular, e só. Eu até entendo o porquê. Ela preza pela liberdade e não quer dar chance, pois sabe que o coração não conseguiria reagir aos comandos do cérebro, caso esse fosse pego desprevenido. Ao mesmo tempo que se sente livre, também sente falta de uma companhia que a transborde. Aquela solidão “controlada”.

Tomada de amor próprio, decidiu aproveitar o tempo com e para ela mesma. Vai a praia, ao cinema, degusta um bom vinho sozinha, toma chopp e curte música ao vivo com as amigas. O problema era aquela batalha interna. O coração insistindo em compartilhar. Mas Ela é resistente. Firme em seu propósito.

As últimas experiências amorosas tinham sido frustrantes, para não dizer desastrosas. Isso motivou permitir-se um tempo só. Mas aquela batalha... Ela não contava com isso. Bendito coração! Depois de chorar pelas decepções que sofrera, ainda ficava insistindo nesse assunto. “Chega! Basta! Não quero mais!” O cérebro mandava seus impulsos. O coração calava. Pelo menos por enquanto. Bastava um momento de distração da massa encefálica e ele estava lá, o bendito coração mandando ver.

Para distrair o coração, mergulhou no trabalho. Para relaxar do trabalho, mergulhou em atividades físicas. De mergulho em mergulho, Ela tentava apaziguar a disputa interna de espaço entre razão e emoção.

Enquanto isso eu estava lá, observando à distância. Respeitando o espaço e a liberdade. Se estivesse perto, o respeito não mudaria, contudo resolvi deixar as coisas acontecerem naturalmente. Se fosse pra ser, seria de um jeito ou outro. Me restringi àquelas poucas mensagens por celular. No fundo, minha vontade era ter Ela perto. Dedicando parte do meu tempo a arrancar sorrisos daqueles lábios, fazendo da simplicidade minha arma para acelerar as batidas daquele coração. Quem sabe...

Um belo dia, entre as poucas mensagens trocadas, me disse que se sentia incomodada. Acho que o cérebro resolveu baixar a guarda. Em poucas palavras e muitas imagens, mostrou que a solidão estava falando mais alto. Percebi o vazio nela. Pior do que perceber o vazio em alguém, é perceber que a condição desse alguém faz enxergar o vazio em si mesmo, igualando a situação. Pior ainda, é compreender que estar perto dela nessa condição, é somar conjuntos vazios, ou seja, quem irá transbordar quem?

Nem preciso dizer que as poucas mensagens e muitas imagens me fizeram tomar uma decisão: hora de arrumar a casa. Continuo observando a distância. Um dia quem sabe...

Antes disso, Ela precisa de ajuda. Eu também.


João Borges




quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

MEU MELHOR AMIGO É O MEU AMOR



Se na medicina fosse possível fazer o diagnóstico do amor, seria necessário um bom exame de imagem para saber se lá dentro existe a amizade. Sim, ela mesma. A amizade. E a correlação entre os dois deveria ser quanto maior, melhor.

Na juventude, somos capazes de compartilhar nossos sonhos, defeitos, alegrias, imperfeições, vitórias e até os mais íntimos segredos com grandes amigos ou amigas, mas incapazes de fazer o mesmo com nossos pais. E se perguntados sobre o porquê disso, talvez tenhamos certa dificuldade em responder.

Na vida adulta, é possível que o mesmo venha a acontecer com aquela pessoa que você resolveu se relacionar. Por quê? Porque não aprendemos o suficiente sobre o MEU AMOR. Aquele que depositamos sobre nós mesmos. Fazer valer a letra da música que diz: “Meu melhor amigo é o MEU amor”. Esse mesmo. O meu. Aquele que dou a mim mesmo. O tão dito amor próprio. O mesmo que diz o quanto sou amigo de mim. Sem ele não há um “nós”. Quando aprendemos sobre isso, a vida acontece.

Se fosse dar um conselho, diria: tenha uma amizade sólida com aqueles que você insiste dizer que ama. Se tudo der errado no relacionamento, pelo menos haverá uma boa amizade a ser preservada.

Seja capaz de compartilhar tudo de você com aquela pessoa que você resolveu multiplicar sonhos e potencializar realizações. Se não for possível, meu amigo, algo deu errado e será necessário rever suas escolhas.

Amor não é degrau mais alto da amizade. É complemento dela. Bonito encontrar casais que são grandes amigos. Ao perguntar se são namorados, serão capazes de responder: também somos.

Amizade é valorizar cada instante. Aquele beijo roubado, aquela flor solitária numa despretensiosa quinta de manhã, aquele inesperado café na cama ou aquele carinho nos cabelos feitos durante uma troca de olhares.

Não há carro do ano, uma gorda conta bancária, cobertura de frente para o mar ou aquele iate ancorado que dirá o tamanho da amizade. Talvez até ajude, mas a ausência disso tudo – e mais um pouco – talvez diga muito mais.

E se no relatório do tal exame de imagem viesse a conclusão: amizade imperceptível, poderia diagnosticar: chame do que quiser, menos de amor.


João Borges
Escritor – Joinville/SC

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

CONVERSAR É UMA ARTE


Conversar com os filhos é uma arte. Quem é pai ou mãe de adolescente, sabe muito bem o desafio que é.

Sim, desafio. Somos pegos de surpresa com alguns temas que são levantados e, se você não estiver preparado, pode entrar numa baita saia justa. Particularmente, gosto de estar preparado para tudo, desde assuntos triviais, até assuntos mais polêmicos. Tudo pela formação intelectual sem barreiras e livre para tomar seus posicionamentos, diante de um mundo tão diferente daquele que vivi quando tinha a idade deles.

Dias atrás fui abordado pelo meu filho mais velho. No auge dos seus 16 anos, ele fala sobre os temas de redação que aparecem em sala de aula. Alguns temas se destacam pela polêmica, o que me deixa, de certa forma, feliz. Minha felicidade tem explicação. Os alunos na faixa etária a qual ele faz parte, precisam estar inseridos nos temas polêmicos. Eles serão os formadores de opinião de amanhã. Eles estarão atrás das mesas, “caneteando” nosso futuro e construindo, queira Deus, algo melhor daquilo que estamos construindo hoje. Tudo vai depender da forma como os orientamos e conduzimos.

Dizia ele que estava prestes a sugerir um tema para ser escrito numa redação, em conjunto com os demais colegas: amamentação em locais públicos. Confesso que um sorriso brotou em meus lábios, pois tenho uma opinião formada a esse respeito. Questionei qual seria a opinião dele. Ouvi uma resposta um tanto quanto vaga, o que me fez perceber que ainda não estava completamente seguro quanto ao tema. Antes de dar minha opinião, fiz questão de deixar claro que era algo o qual eu acredito e defendo, o que não significa que ele precisaria necessariamente seguir.

Para começar a reflexão, fiz algumas perguntas: quando vamos a restaurantes, lanchonetes ou bares, somos enclausurados em cabines individuais para esconder o ato de nos alimentar? Se isso não acontece, pois somos adultos o suficiente para aguentar o mastigar do vizinho de mesa, por que esconder o ato de uma criança em captar aquilo que, na maior parte das vezes, é sua única fonte de alimentação? Quem nunca comeu aquele lanche no meio da rua num momento de pressa ou sentou numa mesa de restaurante colocada em local aberto, onde era possível assistir alguém se alimentando?  

O fato de uma mãe ter que abrir parcialmente sua roupa para que seu seio possa ser alcançado pelo filho, incomoda um grupo de pessoas que simplesmente erotiza o abrir a roupa. Onde está no “nojinho” nisso? Que pena. O sublime escapa aos olhos.

Difícil viver num mundo que assiste erotismo aberto em programas de TV achando isso a coisa mais normal do mundo e, de forma hipócrita, erotiza o ato de amamentar.

Fechemos nossos restaurantes, lanchonetes e bares! Alimentar em público? Jamais! Se essa não é nossa bandeira, então precisamos ser, no mínimo, coerentes.

Meu filho deu uma excelente oportunidade de escrever. O que ele pensa a respeito? Ainda não sou conclusivo quanto a isso, mas independentemente do que seja, incentivarei a defender seu ponto de vista com coerência e retidão. Afinal, podemos ser até divergentes de ideias, mas seremos sempre pai e filho.


João Borges

Escritor - Joinville 

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...