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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

POR TRÁS DO ESPELHO

 


Quando eu a conheci, ela tinha saído de um relacionamento de vários anos. Carregava marcas evidentes de uma relação não saudável. Não era difícil notar que ela estranhava a atenção que eu dava. Gestos de carinho eram confundidos com “golpe”. Apesar da nitidez do envolvimento, a sensação de medo a rondava e, de certa forma, causava aquela confusão de não saber como pensar ou agir. A consequência era algum distanciamento. Pessoas assim ficam tão “cascudas”, que resistem em receber gestos genuínos de carinho. Infelizmente ela não havia sido acostumada com a generosidade.

Apesar disso, havia sorriso nela. Os lábios expressavam fagulhas momentâneas de uma sede imensa de felicidade. As vezes algumas frases soltas do tipo “você me faz bem” mostravam que ela estava dedicada a tentar mudar uma história de algumas escolhas infelizes. Como era bom ouvir ela dizer “Eu estava aqui pensando...”. Era a certeza de que ela queria minha companhia. E era muito bom quando isso era possível. Qualquer programa, por mais simples que fosse, me fazia sentir realizado. No fundo... bem no fundo, talvez o meu jeito de ser tenha se aproximado de um ideal que ela esperava em alguém. Não que eu fosse o cara perfeito, mas somando minhas imperfeições e colocando-as na balança, minhas qualidades poderiam ter um peso maior e que chamaram a atenção, de alguma forma.

Tudo isso me faz pensar a respeito das intenções dentro de um relacionamento. Como alguém ainda é capaz se supor uma relação baseada na dependência, seja ela qual tipo for? Como ainda existem pessoas que entendem a submissão, as vezes análoga a uma hierarquização quase militar, como uma forma de construir um “casamento”?

Relação boa é troca saudável. Respeito é indispensável e não se negocia. Reciprocidade não é toma lá, dá cá, mas uma gratuidade natural dada sem muito esforço. Leveza é uma busca que não pode ser deixada de lado. Carinho é um presente que precisa ser genuíno, verdadeiro. Enquanto existirem pessoas que não acreditam nessa pequena via e que preferem o caminho dos abusos velados, teremos filas nas portas dos consultórios de psicologia e infelizmente não será por terapia preventiva.

Ame e respeite a pessoa que está ao seu lado. Ali tem uma história de vida que ainda acredita. Não seja a pessoa que vai ajudar na construção de uma sociedade de pessoas transtornadas com relacionamentos de mentira ou que sobrevive apenas de aparências.

 

JOTA B


quarta-feira, 3 de março de 2021

QUEM


Quem sou eu para invadir seus pensamentos?

E porque você, com tanta facilidade, invade os meus?

Pensar demais é obstinação. Sonhar demais e perder a realidade.

Não pensar é desistir. Não sonhar é matar o desejo.

Quem sou eu para querer desequilibrar sua vida?

Logo quem tanto valoriza seus passos cadenciados e cheios de objetivo, sem esquecer do seu coração que arde em sentimentos, desde os puros aos mais secretos e lascivos.

Quem sou eu para ameaçar sua liberdade?

Logo quem admira essa mulher de asas fortes e imponentes, que abertas tomam o céu para si e fechadas trazem proteção e conforto.

Quem sou eu para não acreditar nos seus sonhos?

Logo quem incentiva, até nos momentos mais duros, a prosseguir.

Quem sou eu para ser seu ombro e seu colo?

Sou eu. Porque sei enxugar suas lágrimas e acariciar seus cabelos. Sei ouvir e sei falar.

Sou eu. Porque respeito seu medo e sua coragem. Sei entender suas tempestades e calmarias. Eu entendo o seu tempo.

Sou eu. Apenas um copo, mas com um oceano dentro dele.

 

JOTA B


 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

DETALHES ESCONDIDOS


Gosto dos detalhes escondidos nos detalhes.

Não é aquela mensagem inesperada e despretensiosa, só pra saber como você está, mas sim dizer que me importo e que penso em você durante o dia.

Não é o fato de usar meu moletom, mas poder olhar você se aconchegar na minha blusa como se quisesse me abraçar sentindo meu cheiro.

Não é participar das brincadeiras mais loucas, mas gostar da nossa cumplicidade.

Não se trata de sorrir e chorar, mas comemorar suas conquistas e te encorajar quando estiver insegura.

Não é querer aproveitar um fim de semana juntos, mas querer tua companhia independente do dia. Nossos instantes são sempre intensos de segunda a segunda.

Gosto dos detalhes. Gosto, ainda mais, dos detalhes escondidos.

Daqueles que escapam aos olhos, mas que são fluentes ao coração.

 

JOTA B


 

quinta-feira, 18 de junho de 2020

ENTÃO, FAÇAMOS VALER A PENA




Ainda sou capaz de ouvir o som das ondas do mar daquela tarde ensolarada de sábado.

Eu vivia um momento muito particular e o que mais procurava era um pouco de silêncio e tranquilidade. Em geral o contato com a areia, com o vento do litoral e com a água do mar me faz reconectar. É como viver na prática essas frases prontas que encontramos na internet, tipo “não é água com açúcar que acalma, é água com sal”. Pra mim, uma espécie de mantra que resolve.

No celular, várias chamadas perdidas e mensagens enviadas dos amigos. Eles sabiam exatamente como eu me sentia e faziam de tudo para me dar um novo ânimo. “Cara, hoje é o aniversário da Yasmim. Ela convidou a galera toda. Vamos?”, “Te anima, toma um banho, te veste e vamos no aniversário da Yasmim”, “Partiu aniversário da Yasmim. Tua chance de renascer, meu irmão”, eram algumas das mensagens que eu havia recebido.

Eu procurava silêncio, meus amigos queriam me levar para o sentido contrário. Em tese, reencontrar os amigos, celebrar, dar boas risadas e jogar conversa fora era uma boa opção. A oportunidade de sair da minha apatia. As oportunidades surgem exclusivas. Podem até surgirem novas, mas nunca serão as mesmas. Passam como o vento. Sopram e vão embora. Você pode aproveitar ou simplesmente se esconder.

Fiquei caminhando na praia naquele fim de tarde. Era um momento só meu. Fiquei na orla até o pôr-do-sol. Confesso que a insistência dos amigos me inclinava para sair com eles durante a noite. Yasmim era namorada de um dos meus amigos de faculdade. Aliás, aquela turma conseguiu a façanha de permanecer unida, mesmo depois de tantos anos após a formatura. Dali saíram alguns casamentos. Famílias foram se formando e nossos encontros foram ficando cada vez maiores. Aquela noite certamente encontraria boa parte daquela imensa turma.

Resolvi voltar para casa. Ainda não muito decidido, caminhei a passos lentos. Procurei notar os detalhes de cada coisa. Desde o vento que já diminuíra, as pessoas caminhando, o cachorro que corria pela areia, os idosos sentados nos bancos do calçadão enquanto conversavam, a lua que já aparecia tímida, mas sorridente, o som das ondas, até mesmo o som dos meus passos na areia. Eu queria absorver o máximo de experiências daquele momento. Afinal, somos instantes. Então, façamos valer a pena.

Cheguei em casa, liguei uma música e fui tomar um banho. Daqueles que a água quente abraça o corpo num ritual mágico de ousadia, leveza e relaxamento. As mensagens dos amigos fizeram meus pensamentos revisitarem os tempos de faculdade. Lembrei das festas e viagens que fizemos, além dos acampamentos que organizamos. Era um saudosismo que insistia ficar. A impressão era que a isca havia sido jogada e o peixe aqui estava quase sendo fisgado. Saí do banho e sem dar muita chance a inércia, fui procurar uma roupa. Me decidi: iria rever a turma.

Passei mensagem no grupo, dizendo que os encontraria na casa da Yasmim. A reação foi imediata. Corri até o shopping, comprei um presente e fui pra festa. Yasmim morava em um casarão. Aos fundos, um imenso jardim, uma piscina e a área onde estava acontecendo a festa. Música boa, gente rindo e conversando. Fui chegando aos poucos, quando senti uma mão em meus ombros. Yasmim chegou por trás de mim. Me viu chegar e foi me encontrar. Junto dela estava o Ricardo, meu colega de turma, que chegou me abraçando e oferecendo uma bebida. Abracei Yasmim e entreguei-lhe o presente. Yasmim falou bem perto do meu ouvido que precisava me mostrar uma coisa. Olhei com ar de estranheza. Com tanta gente pra atender, ela ainda queria me mostrar algo? Na verdade, não era algo, mas alguém. Yasmim segurou minha mão e me levou até um grupo de pessoas que estava próximo a piscina. No curto percurso, percebi alguém que se destacava. Ela estava lá, com seus sapatos de salto alto, pernas estonteantemente esculpidas, vestido preto que combinava com sua linda cor de pele. Curvas que se desenhavam desde o início do calcanhar, passavam pela cintura, seios, ombros, pescoço, até chegar a cabeça. Um sorriso que tinha brilho próprio e o olhar que transpassava qualquer tentativa de lucidez. Seus cabelos leves e soltos, caiam pelos ombros.

Tentei entrar na conversa, mas meus olhos insistiam encontrar Ela. Não era difícil perder a concentração. Como se fosse combinado, aos poucos o grupo foi se dispersando, as conversas iam ficando mais rasas, até que eu e Ela ficássemos a sós, ainda próximos a piscina.

Fiquei extasiado, mas procurei me manter centrado. Conversamos demoradamente. Ficamos juntos durante a festa. Caminhamos pelo jardim e tive a oportunidade de reencontrar os amigos. Encontramos uma mesa de bistrô onde pudemos permanecer juntos e conversando. Num momento de distração, nossas mãos se encontraram sobre a mesa. Quase de imediato voltamos nossos olhares um ao outro, até que ouvi um “posso?” saindo daqueles lábios, me pedindo pra segurar pela mão. Retribuí o sorriso e acenei em sinal de positivo. Não há como esquecer aquele toque. Suas mãos eram macias e seus dedos buscaram entrelaçar entre os meus. As horas passaram como o vento. Encontramos alguns pontos em comum na conversa que fluiu leve. Aos poucos os convidados se despediam. O lugar foi ficando cada vez mais vazio. Yasmim foi ao nosso encontro e perguntou se Ela tinha como voltar. “Não, estou sem carro”, disse. Eu me ofereci para dar uma carona, mesmo sem saber o quão longe seria o destino. Ela deu um sorriso discreto e nem precisou falar para mostrar que havia aceitado.

As oportunidades surgem exclusivas. Podem até surgirem novas, mas nunca serão as mesmas. Passam como o vento...

Nos despedimos de Yasmim, Ricardo e dos demais amigos que ainda estavam por ali. Entramos no carro, nos olhamos e nos beijamos. Indescritível aqueles lábios. Tentando manter a serenidade perguntei: “pra onde?”. “Pra onde você quiser, desde que seja com você”, recebi como resposta. Rodei pelas ruas de forma aleatória. Ela apoiou sua mão sobre minha perna, enquanto eu dirigia. Queria sentir sua presença o maior tempo possível. Chegamos a um ponto da orla onde não havia calçadão, mas uma grande faixa de areia interrompida por dunas. Não havia movimento, nem a presença de outros carros. Parei, desliguei o motor e os faróis. Agora éramos nós e a noite. A mão, antes apoiada sobre minha perna, agora apertava minha coxa. A outra mão buscou meu rosto, puxando para perto de si e me beijar. Começou leve e foi ficando cada vez mais intenso. Sua boca buscava descobrir cada traço do meu rosto até encontrar espaço no pescoço. Os beijos foram ficando lascivos e intensos. Eu retribuí na mesma moeda, afinal intensidade com intensidade se paga. Ela, vagarosamente abriu minha camisa e a tirou. Passou suas mãos macias sobre meu peitoral até a altura da cintura. Como um ritual, repetiu o mesmo gesto com as demais peças da minha roupa. Com atitude dominadora, não deixou que eu fizesse o mesmo com as roupas dela. Entrei no jogo. Vamos brincar. Com toques macios, queria conhecer cada espaço do meu corpo. A cada lugar visitado, um beijo. A cada carinho, uma verdadeira viagem. Foi assim até se sentir quase satisfeita. Quando achei que Ela iria desistir, despiu-se completamente. Não, eu não poderia tocá-la. No máximo, beijos em lugares que Ela escolheria. O jogo continuava. Ela veio sobre mim e, sem poder tocá-la, mostrou-me a regência da orquestra que aquele corpo havia se tornado. Movimentos leves que se alternavam com intensidade e força. Nosso suor se misturava naquele pouco espaço do carro. As horas, que haviam passado rápido na festa, eu queria que fossem generosas, passando bem devagar. Queria aproveitar cada detalhe de cada segundo. Aquele momento corroborou com a fluência da nossa conversa durante a noite.

Eu queria absorver o máximo de experiências daquele momento. Afinal, somos instantes. Então, façamos valer a pena.

Era quase dia. A lua, sorridente, já se despedia para dar lugar ao astro-rei. Levei Ela para casa. Trocamos contatos e marcamos novo encontro. Afinal, intensidade com intensidade se paga.


João Borges

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

ENTRE ASPAS



A rua era extensa e pouco movimentada. A tarde estava perfeita para um passeio de bicicleta. Sol brilhando, temperatura amena, uma brisa soprava leve e, o mais importante, eu estava de férias. O tempo estava todo a meu favor. Normalmente meu tempo é de outras coisas ou pessoas. Quando vejo, o dia passou. Aquele tempo entre levantar da cama e se deitar para dormir, passa num piscar de olhos. Melhor sensação é aquela que você tem quando, finalmente, resolve pagar o que deve a si mesmo.

O pouco movimento de carros contrastava com o movimento de pessoas caminhando nas calçadas. Não era época de festas ou qualquer feriado. Era apenas um dia ensolarado qualquer. Ao virar a esquina percebo um movimento incomum. Uma bicicleta derrubada no meio da ciclofaixa, um pequeno aglomerado de curiosos em volta e um carro com o sinal de alerta ligado, logo a frente. A cena típica de um atropelamento. Resolvo passar mais devagar para tentar ver se havia necessidade de ajuda. A moça ainda lá, sentada na ciclofaixa segurando a perna e mostrando expressão de dor. Eu, ainda no outro lado da rua, parei e tentei identificar melhor a pessoa. Ela percebeu que eu estava lá e com o olhar parecia me chamar. Desviei de alguns curiosos até chegar ao seu encontro. Ela, sem dizer nada, gritou por ajuda. Com cuidado, segurei sua perna. Não foi difícil perceber a fratura. Perguntei se alguém já havia chamado socorro médico. Um dos que estavam ali disse que sim e que já estava a caminho. Sem muita demora chegou uma ambulância. Rapidamente saiu um paramédico fazendo perguntas para identificar o problema. Os outros integrantes da equipe de socorro puxaram a maca e uma bolsa. Fizeram o primeiro atendimento, imobilizaram a perna fraturada e, com cuidado, colocaram-na na maca. Quando foi perguntada se estava sozinha ou se havia alguém que pudesse acompanhá-la, Ela apontou na minha direção. Larguei minha bicicleta junto a dela. Uma senhora que morava em frente tocou-me no ombro e disse que guardaria as bicicletas e que eu poderia acompanhar “minha namorada” com calma.

Entrei na ambulância e fui perguntado sobre a documentação da moça. Olhei para Ela. Estava no bolso de trás da calça. Ela estava imobilizada na maca, não havia como pegar. Meio sem jeito, mas com a necessidade de alcançar o documento, passei a mão pela cintura até alcançar o bolso. Difícil é explicar como Ela pôde exibir um sorriso no canto da boca, misturado a sensação de dor por causa da fratura. Mais difícil foi entender como ficamos sem trocar uma palavra sequer, durante o tempo todo.

Chegamos ao hospital e o atendimento foi relativamente rápido. A ficha médica já havia sido antecipada pelo pessoal de primeiro atendimento. Eu já havia sido promovido a “namorado” e acompanhante de hospital de uma pessoa totalmente estranha, mas incrível e inexplicavelmente próxima. Ela foi prontamente levada para fazer exames de imagem. Poucos instantes foram necessários para que o ortopedista me procurasse para dizer que Ela seria levada para o centro cirúrgico. A fratura não foi tão simples e era necessária cirurgia. Perguntei se era possível conversar rapidamente com ela antes do procedimento. Fui autorizado, porém não poderia ser demorado. Eu precisaria assinar alguns documentos de autorização e não o faria sem antes conversar com Ela.

Cheguei na maca onde Ela estava, já no pré-operatório. Aquele olhar tinha o poder de se comunicar comigo de forma extraordinária. Ali ouvi sua voz pela primeira vez, mas parecia déjà vu. Ao ouvi-la, a sensação de estar com Ela corria pelo tempo. Era a senha que eu precisava. Eu assinaria as autorizações sem me preocupar.

Fiquei na recepção em compasso de espera. Já havia esquecido meu passeio de bicicleta, do dia ensolarado e do tempo que reservei para pagar minhas dívidas comigo. Estava sentado numa recepção de hospital tentando entender tudo o que estava acontecendo. Uma pessoa que num momento era uma completa estranha, no outro era uma misteriosa conexão. De tanto viajar em pensamentos tentando dar explicações ao inexplicável, as horas acabaram passando rápido. A cirurgia havia acabado e Ela já estava na sala de recuperação. Seria encaminhada logo ao quarto.

Uma enfermeira veio ao meu encontro e pediu que eu fosse até o quarto 602. Logo ao entrar, a vi deitada na cama, sonolenta e com a perna suspensa. Os cabelos lisos e desarrumados, o rosto levemente pálido e os olhos entreabertos. Ela lutava contra o efeito dos medicamentos para manter-se acordada. A noite já dava lugar a madrugada. Fui até a cabeceira da cama e toquei seus cabelos. Ela fechou levemente os olhos como quem dissesse: “continua”. Fiquei ali um bom tempo, cuidando daquele pseudo-sono. Aos poucos fui recostando minha cabeça próximo ao dela. Quando me dei conta, o dia já era outro. O sol estava surgindo e fui acordado pelo médico que entrou subitamente dizendo “bom dia” em alta voz. Sorridente e com uma prancheta na mão, o médico disse que Ela ficaria ainda mais aquele dia no hospital, mas seria liberada logo no dia seguinte. A cirurgia havia sido tranquila e a recuperação seria feita em casa. Era necessário acompanhamento e sessões de fisioterapia, assim que terminasse a primeira fase da recuperação. De “namorado”, ainda acumulei a função de “cuidador”. Afinal, namorado não cuida num momento como esse? Pensei... De fato, a coisa estava ficando séria.

Fui para casa, tomei um banho e tentei voltar a realidade. Tudo aquilo parecia ter sido um grande sonho, mas não era. Já havia desistido de buscar explicações. Como entender aquela vontade de estar lá? Como dizer a si mesmo que esquecer e desejar boa sorte não estavam nos planos dali em diante? Resolvi apenas seguir aquilo que o coração dizia, o que não era muito comum para uma pessoa extremamente racional como eu.

Voltei ao hospital, acompanhei a recuperação, levei às sessões de fisioterapia, consultas médicas e exames complementares. Acompanhei-a nos novos primeiros passos. Dei a Ela minha mão, meu ombro, meus ouvidos, meu coração. Fui herói, motorista, cozinheiro, enfermeiro e nem sabia que tantas profissões habitavam em mim. Me redescobri, quando nem ao certo sabia que isso me era necessário. Tudo começou naquele dia em que Ela foi atropelada e, mesmo quebrada, me mostrou o quanto eu estava vivendo apenas entre aspas.  
#PartiuViver?



JOÃO BORGES

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

AQUELE ABRAÇO



Que dia! Quem nunca usou essa expressão pra resumir os extremos opostos, tanto para uma conquista, um “sim” que muda a rota da vida ou simplesmente para mostrar o quão leve foi o dia, quanto para absorver uma decepção, uma situação que trouxe frustração ou ainda para amenizar a sincera vontade de ligar o “botão do foda-se”.

Tinha tudo para ser um dia especial. Saí de casa motivado, animado, com minha potência vital em alto nível. Ela ainda dormia. Antes de sair, beijei-a com o cuidado necessário para não acordar a fera. Ela é o tipo de mulher que tem o termômetro do humor alterado por necessidades biológicas simples como dormir e se alimentar bem. Aprendi, com o passar do tempo, que liberdade, alimentação saudável e descanso fazem bem a si e a uma relação que deseja ser duradoura.

Nem a chuva, que caía com vontade, abalou meu entusiasmo. Desci ao térreo cantarolando, cheguei na garagem e percebi um dos pneus do carro furado. Ainda bem que aconteceu em casa, num lugar onde posso fazer a troca sem me molhar com essa chuva, pensei. Troquei o pneu, guardei as ferramentas, subi até o apartamento, tomei mais um banho e troquei de roupa. Ela acordou com o barulho e percebeu meu atraso. Resolveu levantar e me acompanhar no banho. Aquele era o tipo de atraso que vale a pena o risco. 
Apesar de ser um convite quase irrecusável, mantive o foco. No banho, nossos corpos eram apenas detalhes, porém aquele abraço, que para ela significava aconchego e segurança, para mim era, na verdade, a minha recarga de energia favorita. Procurei sair rapidamente do banho. Troquei de roupa, beijei-a novamente, dessa vez com maior intensidade.

Desci novamente até a garagem. A chuva era insistente. Entrei no carro e fui trabalhar. No caminho, por causa da chuva, um acidente de trânsito. Parecia estar tudo bem, apesar do clima aparentemente tenso. O trânsito estava pesado. Aquela motivação inicial, aos poucos, dava lugar a preocupação. O dia dava sinais de dificuldades.

Já no trabalho, entrei na sala e vi um bilhete sobre minha mesa. Reunião as 10h. A apresentação da proposta para meu principal cliente havia sido antecipada. Virei para a porta e meu diretor estava ali, estático e aparentemente ansioso. Proposta pronta, porém, ainda havia alguns alinhamentos necessários. Tínhamos dez minutos para conversar e montar a abordagem. A tensão nos olhos do meu diretor era visível. Vamos em frente, vai dar certo. No momento da apresentação o projetor falhou. Constrangimento. Mantive a calma e o foco. Meu diretor, nem tanto. No final, tudo certo. Apresentação feita e contrato renovado. Apesar de tudo, vitória.

Corre-corre do dia, tensão, e-mails, ligações, ...

Dor de cabeça. Ah, aquela dor de cabeça não estava nos planos. Se havia algo que me tirava a concentração, era a enxaqueca que me acompanhava de vez em quando. Meu dia começou bem. Estava tão motivado. O que houve? Rapidamente, a força vital que estava em alta foi se esvaindo. As circunstâncias do dia pareciam engolir minha motivação inicial. Eu precisava de recarga. Ela pareceu sentir o que eu sentia. Recebi uma mensagem no celular. Te amo. Você escolhe a massa, eu escolho o vinho. Era Ela. Mensagem simples, mas significativa.

Tomei um remédio, respirei fundo e finalizei a rotina daquele dia. Antes de seguir para casa, resolvi caminhar. Respirar. Olhar o movimento frenético dos carros sem necessidade de estar dentro de um. A dor de cabeça foi amenizando. Fiz a reflexão do dia enquanto caminhava. Momentos de vitórias e outros de derrotas. O que fiz com cada um desses instantes? Ela surgiu na minha mente, novamente. Isso era comum. Independente do instante, Ela estava lá povoando meus melhores pensamentos.

Após a caminhada, voltei para a empresa, encontrei meu carro e retornei para casa. Ela ainda não havia chegado.

Fui até o quarto, tirei a roupa e fui para o banho. Aproveitei o tempo livre para preparar uma massa. Ouvi o barulho da porta abrir e fechar. Ela chegou trazendo o vinho. Armada de sorriso, me fuzilou com os olhos. Fui presa fácil. Eu a agradei com a massa que ela gostava. Ela agradou-me com meu vinho preferido. Chegou mais perto, largou o vinho sobre a mesa e me abraçou. Aquele abraço me tirava do chão, me refazia sem esforço. Como pode um gesto tão simples conseguir reconectar os cacos que vão soltando no decorrer da existência? E o que é essa coisa inexplicável de poder sentir o pulsar incessante do coração da outra pessoa, a explosão de adrenalina e que te joga numa dimensão sem tempo ou espaço conhecido?

Ah, aquele abraço. Simples. Único. Completo. Sem qualquer explicação lógica.

Éramos apenas nós, a simplicidade, vinho e uma noite inteira. Sublime conexão.


João Borges

terça-feira, 26 de novembro de 2019

EU, ELA E O MOMENTO



Caía o entardecer. O crepúsculo era o prenúncio das cortinas do dia que se fechavam, para dar lugar ao espetáculo da lua cheia que já ensaiava seu brilho. Eu não fazia ideia, mas definitivamente aquela seria uma noite especial.

Chegamos quase ao mesmo tempo ao aeroporto, despachamos nossas malas praticamente juntas, entramos na sala de embarque e no mesmo avião, sentamo-nos em poltronas da mesma fileira, fizemos o check-in no mesmo hotel e éramos completos estranhos até então.

Enquanto eu fazia o check-in, Ela aguardava ao meu lado. Discretamente, pediu a caneta que eu usava para preencher a ficha de cadastro de hóspede. Sem qualquer esforço, sorria com os olhos. Não foi difícil perceber. Puxou assunto dizendo que havia notado que saímos do mesmo lugar para chegar ao mesmo destino. Contou-me sobre o objetivo da viagem, do trabalho, dos lugares que já havia conhecido. Quando nos demos conta, já estávamos num bistrô e as poucas horas da noite já queriam dar lugar as primeiras horas da madrugada.

Falamos desde as trivialidades das nossas rotinas, passando pelas vãs filosofias de bar até chegar ao profundo poético da alma humana. Isso mostra o quão fomos intensos, rasos e profundos em tão pouco tempo.
Viajamos pelas nossas histórias, contamos segredos que jamais seriam contados. Era a estranha intimidade normalmente vista num touchscreen. Mais estranho ainda era viver aquilo, sabendo que éramos apenas aquele instante. Não havia uma perspectiva de dia seguinte, nem tampouco arrependimentos por dias passados. Eram apenas eu, Ela e o momento.

Deixamos a conversa fluir até que a intimidade das palavras passou a ser intimidade na pele. Nos permitimos tocar mãos, braços, rosto, cabelos... As palavras, aos poucos, davam lugar ao silêncio, que em certa medida falavam mais alto que nossas próprias vozes.

Em mais um piscar de olhos, não estávamos mais no bistrô, mas no corredor do hotel. Para fechar o ciclo da conspiração universal, estávamos hospedados em quartos próximos. Levei Ela até a porta do seu quarto, me despedi com um beijo e fui para o meu quarto. 

Enquanto procurava o cartão de acesso, fui surpreendido por um abraço. Aquelas mãos já não me pareciam estranhas. Ela estava atrás de mim, querendo invadir minha madrugada muito mais que invadir meu quarto. Mais uma vez éramos três: eu, Ela e o instante. Beijei-a com intensidade. Nela escrevi poesia com os lábios, tendo o corpo como papel. Em mim, ela recitou cada verso em movimentos.

Já não estávamos mais no interior do quarto, mas na sacada. A lua cheia era uma testemunha inocente e distante. Passamos horas nos permitindo visitar os segredos ainda não contados e descobrindo a beleza da simplicidade. Ouvimos reciprocamente os mais profundos suspiros. Vivemos. E como vivemos.  

Acordei com o sol tomando conta do espaço. O calor serviu de despertador. Janela aberta. As cortinas ensaiavam esvoaçar com a pouca força do vento que entrava quarto adentro. Já havia perdido completamente a noção das horas. Ao meu lado, na cama, um vazio. Ela não estava ali. Fui até o quarto dela. Nada. Fiz contato com a recepção. Nem mesmo um check-in feito com seu nome. Que estranho...

Sonho? Quem sabe. Não tenho resposta certa. Talvez mais um devaneio da mente de um jovem escritor.

João Borges

sábado, 9 de fevereiro de 2019

SOMOS INSTANTES





Ainda lembro o dia em que estava no aeroporto. Aquele vasto saguão, pessoas indo e vindo, monitores de vídeo informando os atrasos dos voos por conta da chuva forte que caía. Já havia despachado malas e equipamentos e não havia outra coisa a ser feita senão esperar. Cheguei com a antecedência necessária, mas como havia atraso no meu voo, aproveitei o tempo e fui tomar um café. Cheguei a um aconchegante bistrô e, com certa dificuldade, encontrei uma mesa. Da minha bagagem de mão, tirei um livro e continuei a leitura enquanto aguardava a chegada do meu café. Tentei disfarçar, mas confesso que aquele momento não me convidou a mergulhar na história do livro. Claro, havia um motivo. Logo ao chegar, percebi que Ela estava sentada numa mesa próxima. Havia muito tempo que não nos encontrávamos. Namoramos durante quatro anos e foi intenso. Uma história que ficou marcada na história. Depois do fim do relacionamento, não havíamos mais nos encontrado.

Na mesa do bistrô estava eu, um café, um livro e milhões de lembranças. Seria clichê dizer que um filme passou na mente? Talvez, mas foi exatamente isso que aconteceu. Temos gostos muitos parecidos. Um deles é viajar. Aquele ambiente de aeroporto me fez voltar no tempo e relembrar algumas das loucuras que fizemos. Uma dessas foi nesse mesmo aeroporto. Meu voo estava marcado para a madrugada. Saímos de casa quase onze horas da noite. Tempo mais que suficiente para o check-in e despacho da mala. No caminho encontramos ruas vazias. Enquanto eu dirigia, Ela tentava tirar minha concentração me olhando desejosa e passando suas mãos em minha perna. Quanto mais próximos estávamos do aeroporto, mais ousadas eram as suas carícias. Chegamos ao estacionamento e procurei uma vaga mais distante e discreta possível. A essa altura, meu corpo já havia reagido completamente as carícias recebidas durante o trajeto. As películas escuras nos vidros do carro contribuíam para um ambiente mais privativo, mas não o suficiente para impedir a chegada de alguém. Essa mistura era muito excitante para ambos. Sem abrir as portas, Ela passou para o banco traseiro. Não eram necessárias palavras para ouvir me chamar. Minha camisa já estava praticamente aberta. Faltavam apenas dois botões. Também fui para o banco de trás, cheguei bem perto o olhei no fundo dos olhos dela. Era possível sentir a respiração mais forte. Beijei-a intensa e loucamente. Tirei sua roupa e aproveitei o pouco tempo que ainda me restava para mergulhar fundo naquelas curvas que sempre em encantaram. Explorei cada poro da pele dela, que sentia arrepios durante minha expedição por aquele mundo repleto de docilidade e certa malícia. Ela retribuiu cada gesto de carinho com mais carinho. A entrega era plena, apesar de estarmos dentro de um carro em pleno estacionamento de um aeroporto. Para nós, naquele momento não importava o lugar, mas o próprio momento. Somos instantes, ali era o agora e necessitava ser vivido.

Com o tempo estourando, nos refizemos, saímos do carro e pegamos as malas. O atendente do estacionamento nos olhou com aquela expressão típica de saber que aquela demora dentro de um carro fechado, tinha bom motivo.
Ela me acompanhou durante o check-in e permaneceu comigo até a hora da entrada na sala de embarque. Minha volta estava prevista para o dia seguinte, mas a intensidade que colocávamos nos momentos juntos, dava a impressão que a viagem demoraria meses.

Ainda no bistrô, fui acordado das lembranças com um cumprimento. Quando percebi, Ela estava em pé ao meu lado. Olhei pra cima e, sem tempo de reação, ganhei um beijo. Aqueles inesquecíveis lábios macios foram tão rápidos que não pude negar o gesto. Com olhar carinhoso, Ela disse que ouviu a confirmação do seu voo e estava indo para a sala de embarque. “Te vejo por aí”, foi tudo o que ouvi naqueles poucos segundos. Poucos e eternos segundos.

Mais uma vez a vida me mostra a oportunidade de ser intenso. De fato, somos instantes.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

CURTI SUA FOTO



Cheguei no aeroporto e vi no monitor que o voo chegaria com algum atraso. Só serviu para aumentar um pouco mais a ansiedade que já tomava conta de mim nos dias que antecederam aquele encontro.

Nos conhecemos pela internet. Sorrisos e poses estáticos que mostravam um pouco da rotina. Comentários que davam pequenos sinais do que seria a essência. Era a impessoalidade com vontade de ser pessoalidade. As redes sociais permitem essas tentativas, no entanto nada substitui o “olho no olho”, o toque, o cheiro...

No aeroporto, a espera era composta de idas e voltas entre saguão principal e a área de desembarque. Mil pensamentos passavam pela cabeça, que iam desde a troca das primeiras mensagens até combinarmos passar alguns dias juntos. Aos poucos, a movimentação de pessoas próximas a área de desembarque aumentava. Conferi o monitor e lá informava que o avião estava em solo e que o desembarque já iniciara. O coração acelerado e a ansiedade de ver aquele sorriso eram visíveis.

Quando Ela enfim apareceu, o mundo ao meu redor perdeu o sentido. Pelo menos momentaneamente. Armou-se de olhar doce e sorriso que irradiava felicidade. Me desarmou completamente. Até havia ensaiado discurso, como se isso fosse me dar algum controle sobre a situação. Nada do tudo que pensei dizer, saiu naquele instante. Toda a expectativa, pensamentos, ansiedade e os pouco mais de mil quilômetros de distância entre nossas cidades foram interrompidos num longo e encaixado abraço. Os corações acelerados combinavam ritmos e se permitiam em beats compassados. Ainda abraçados, a troca de olhares pedia um beijo. O toque naqueles lábios macios, substituiu meses e meses de longas conversas madrugada adentro.  Nenhuma palavra havia sido dita até então. Apenas a pura reciprocidade no carinho do encontro.

No caminho para casa, conversamos sobre a viagem e a expectativa pela programação dos próximos dias. Como estávamos de férias, tratei de providenciar um roteiro que pudesse mostrar os lugares mais atraentes da minha região, além dos locais que eu mais gostava de frequentar. As extensas conversas pela internet permitiram saber que temos preferências em comum.

Chegando em casa, conduzi Ela até o quarto e a deixei a vontade para guardar suas malas, tomar um banho e descansar. Enquanto isso, prepararia o jantar. Já sabia que a correria da viagem não permitiria uma refeição decente, por isso procurei caprichar no cardápio. Obviamente o vinho não poderia ficar de fora.

Ela estava bem a vontade. Saiu do quarto vestindo roupão, deixando a mostra suas pernas bem torneadas. Os cabelos molhados estavam envoltos num turbante feito com uma toalha. Seus olhos sorriam livremente, sem esforço. Sentou-se e aproveitou o jantar enquanto dávamos risadas contando as situações mais inusitadas que ambos haviam passado na vida. A conversa fluiu solta e leve, como a vida deve ser.

Após o jantar, recolhemos as louças e tratamos de lava-las. Minha mania por organização não permitia que pudéssemos relaxar na sala enquanto houvesse louças sujas na cozinha. Ela, a vontade, me acompanhou. Enquanto conversávamos, eu lavava, ela secava. Simples assim. Em certos momentos, Ela se aproximava por trás, me abraçava, estendia sua mão até deixar molhar e, brincando, jogava água em meu abdômen. O jeito leve, o sorriso fácil e o carinho recíproco faziam aquele instante, mais que especial.

Sentamos no sofá, cada qual com sua taça de vinho. No ambiente, o som da música era testemunha das conversas divertidas que, aos poucos eram substituídas por trocas de olhares que se intensificavam a medida que a noite caía. Palavras eram quase desnecessárias. O desejo mostrava força através dos beijos que surgiram, misturando carinho, paixão e lascividade. Nossos corpos conversavam sem palavras. Encaixavam perfeitamente. Nossas mãos viajavam leves e intensamente pelos corpos quase nus, intercalando visitas as taças para que o vinho pudesse regar ainda mais aquela intensidade.

As conversas de vários meses via internet, deram lugar aos olhares que falavam por si. As telas do computador e do celular, ao toque. A distância, ao abraço. A vontade, aos beijos. Éramos um universo, dentro de um quarto do meu pequeno apartamento. Nossos corpos misturavam o suor e desejo, em movimentos completos. Os sons dos gemidos recheados de prazer, abafavam a música do ambiente. A madrugada assistiu, passiva. Nada poderia ser feito, a não ser viver.

Foram noites intensas e dias inesquecíveis. Momentos eternizados por entrega sem restrições. Na hora da partida, a promessa do reencontro. Diante do que se apresentava, os pouco mais de mil quilômetros se transformavam em pouco mais de cem.

E pensar que tudo isso começou com uma curtida despretensiosa, numa foto em redes sociais.


João Borges
Joinville/SC


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

MEU MELHOR AMIGO É O MEU AMOR



Se na medicina fosse possível fazer o diagnóstico do amor, seria necessário um bom exame de imagem para saber se lá dentro existe a amizade. Sim, ela mesma. A amizade. E a correlação entre os dois deveria ser quanto maior, melhor.

Na juventude, somos capazes de compartilhar nossos sonhos, defeitos, alegrias, imperfeições, vitórias e até os mais íntimos segredos com grandes amigos ou amigas, mas incapazes de fazer o mesmo com nossos pais. E se perguntados sobre o porquê disso, talvez tenhamos certa dificuldade em responder.

Na vida adulta, é possível que o mesmo venha a acontecer com aquela pessoa que você resolveu se relacionar. Por quê? Porque não aprendemos o suficiente sobre o MEU AMOR. Aquele que depositamos sobre nós mesmos. Fazer valer a letra da música que diz: “Meu melhor amigo é o MEU amor”. Esse mesmo. O meu. Aquele que dou a mim mesmo. O tão dito amor próprio. O mesmo que diz o quanto sou amigo de mim. Sem ele não há um “nós”. Quando aprendemos sobre isso, a vida acontece.

Se fosse dar um conselho, diria: tenha uma amizade sólida com aqueles que você insiste dizer que ama. Se tudo der errado no relacionamento, pelo menos haverá uma boa amizade a ser preservada.

Seja capaz de compartilhar tudo de você com aquela pessoa que você resolveu multiplicar sonhos e potencializar realizações. Se não for possível, meu amigo, algo deu errado e será necessário rever suas escolhas.

Amor não é degrau mais alto da amizade. É complemento dela. Bonito encontrar casais que são grandes amigos. Ao perguntar se são namorados, serão capazes de responder: também somos.

Amizade é valorizar cada instante. Aquele beijo roubado, aquela flor solitária numa despretensiosa quinta de manhã, aquele inesperado café na cama ou aquele carinho nos cabelos feitos durante uma troca de olhares.

Não há carro do ano, uma gorda conta bancária, cobertura de frente para o mar ou aquele iate ancorado que dirá o tamanho da amizade. Talvez até ajude, mas a ausência disso tudo – e mais um pouco – talvez diga muito mais.

E se no relatório do tal exame de imagem viesse a conclusão: amizade imperceptível, poderia diagnosticar: chame do que quiser, menos de amor.


João Borges
Escritor – Joinville/SC

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

QUANDO TE AMAR ME DÁ MEDO


"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar" - William Shakespeare

Isso mesmo, mulher. Não estávamos acostumados a encontrar mulheres reais. Essas que não se escondem atrás das submissões, que falam, decidem, tem força e coragem de sobra, sem deixar de lado o coração e sua necessidade de amar.

Eu sei, talvez esse meu jeito grosseiro ainda precisa de adaptações. Também sei que preciso de lapidação... e de ajuda para isso. Por isso, estou na torcida para que o futebol com amigos e a cerveja gelada abracem o romantismo e a poesia. Não, não quero traduzir futebol, cerveja, romantismo e poesia em masculino ou feminino. Já estigmatizamos demais nossas existências. Tirando esse estigma, acredito que você entenderá o motivo do abraço.

Ainda preciso aprender a te amar, mulher. Não aquele tipo de amor que esconde nas entrelinhas um “preciso de você”, mas o tipo que é um convite a transbordar o outro. Olhar o igual, mesmo sabendo das diferenças. Encontrar a beleza das almas que se somam numa matemática inexata.

É, mulher. Os tempos são outros. As mulheres são outras, os homens também. Você aprendeu a conquistar seu espaço. Nós, homens, precisamos reaprender.

Te amar nesse contexto, as vezes, dá medo. Encontrar uma mulher decidida, forte, corajosa é colocar uma dúvida na cabeça do homem: será que conseguirei acompanhar o seu ritmo? Por isso, faço minhas as palavras de Shakespeare: “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar”.
Não é por medo de você, mas por medo de mim mesmo. De não ser suficiente, tanto quanto necessário. Medo de arriscar e acabar perdendo. Drama? Um pouco, talvez. Prefiro acreditar que ainda falta encontrar a receita do amor próprio. Saber de onde vem essa sua garra encantadora e assim encontrar um caminho convergente.

Não pense que te desejar irá deixar de existir, entretanto te olhar de um modo diferente é necessário.

Que o desejo de uma noite passageira possa ser substituído pelo eterno desejo de noites intensas seguidas de cafés da manhã, por mais simples que eles sejam; de beijos de despedida seguidos de beijos de reencontro. Que possamos substituir o ter, pelo ser. 

Ao invés de apenas contemplar, que possamos aprender a buscar na raiz, o motivo da beleza da flor.


Com carinho

Homem



João Borges

Escritor – Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...