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terça-feira, 2 de março de 2021

SENSAÇÕES

 



Não é só te encontrar. É descobrir que é possível encurtar uma distância que achávamos longa demais. Talvez até impossível de percorrer.

Não é só te ver. É te enxergar bem mais do que os olhos podem alcançar e saber que, por vezes, vais duvidar que eu possa fazer isso.

Não é só te tocar. É sentir a alma viajar, lenta e leve por tuas curvas.

Não é só te ouvir. É sentir o doce da tua voz invadir o amargo do meu dia. Qual outro tempero me devolveria o sabor?

Não é só te beijar. É dar aos lábios a oportunidade de falar sem palavras. E há tanto a ser dito...

Não é só te abraçar forte. É envolver dois universos em um infinito, sem tentar entender. Apenas sentir.

Não é só conversar. É te conquistar todos os dias, com flores ou espinhos.

Não é só esperar. É saber dar tempo ao tempo e aprender a virtude da paciência, fluentemente.

Não é só lembrar. É te guardar em segredo dentro do peito, porque ali descobrimos ser possível.

É experimentar sensações. E delas extrair o sumo de uma vida inteira.

 

JOTA B


terça-feira, 1 de setembro de 2020

SURPRESA


Você já buscou surpreender alguém? Se já fez isso, parabéns! Caso não tenha feito, não perca a oportunidade. As vezes a atitude de surpreender alguém nos revela o quanto podemos surpreender a nós mesmos.


Ela tinha trinta e três anos. Uma mulher com expressões delicadas, personalidade forte e própria. Um delicioso contraste, mas que compunha um magnífico jeito de ser e se posicionar. Tinha dois filhos, os quais revelavam que “mulher guerreira” não era apenas um estereótipo. Depois de um casamento frustrado, resolveu seguir a vida em busca dos seus mais genuínos propósitos. Engajada em causas sociais, era uma voluntária incansável. Era mulher de brilho intenso. Poucas pessoas conseguiam perceber as lágrimas que caiam escondidas daqueles olhos castanhos claros. Aliás, essa era uma das suas características: o choro era, invariavelmente, solitário. O sorriso, frequentemente compartilhado.


Ela e eu tínhamos amigos em comum. Em algumas das nossas rodas de conversa, Ela era citada, sempre com admiração. “Um par perfeito pra você”, me diziam. Nas rodas de conversa onde eu era ausente e Ela presente, o assunto era eu. Adivinha qual era a estratégia dos pseudo-cupidos? Exatamente... “Um par perfeito pra você...”


De fato, aquela mulher me atraía pela forma de ser e viver. Seu jeito de ver a vida era sensível e forte; discreta e marcante. Até então não havíamos sido apresentados formalmente, embora fossemos seguidores recíprocos nas redes sociais. O mais interessante é que ambos não tinham tomado a iniciativa de iniciar uma conversa por receio de ser invasivos. Aos olhos de uns, uma decisão, até certo ponto, coerente. A outros, uma falta de coragem adolescente. O fato é que ferir a liberdade alheia não estava no plano de um e de outro.


Era o mês de aniversário dela. Algumas amigas se encarregaram de organizar uma festa surpresa e a notícia se espalhou num grupo de mensagens criada especialmente para o evento. Eu fui incluso no grupo. A festa seria feita na chácara Vale das Pedras. Um lugar aconchegante, rodeado de verde, caminho de terra que tinha uma pequena ponte de madeira em seu trecho. Por ali passava um riacho tranquilo, de água limpa e muito fria, vinda do alto da serra. O silêncio imperava naquele lugar. Silêncio que nossos amigos estavam dispostos a quebrar.


Foram formados pequenos grupos e cada grupo ficou encarregado de uma parte da festa. Um providenciaria o som. Outro, comida e bebida. E assim o evento foi tomando forma. Estranhamente não fui encaixado num grupo, mas ficaria responsável pela surpresa da festa. Minha missão era pensar no presente-surpresa, que seria revelado logo após o bendito “Parabéns a você...” Já que eu tinha assumido uma missão solo, resolvi não revelar o que faria. Um ambiente de expectativa havia se formado no grupo de mensagens. Que presente seria esse? As especulações variavam desde viagem, passando por objetos como anel ou alguma outra joia valiosa, até um presente mais simbólico. Da minha parte, fiquei preocupado em extrair informações que me ajudariam na escolha. Teria que ser um presente que pudesse refletir o que de mais belo havia nela. Pelas redes sociais, o jeito mais discreto que encontrei para observar, passei a ficar ainda mais atento aos seus gostos, suas preferências e aos pequenos sinais que Ela demonstrava na sua forma de ser.


Os dias foram passando e conforme a data se aproximava, as trocas de mensagens eram intensificadas. Todos compartilhavam suas iniciativas. Eu e meu terrível silêncio apenas acompanhavam a organização.


Pouco mais de uma semana antes do evento, Ela reagiu a uma das minhas fotografias no Instagram. De forma discreta, fez um comentário despretensioso sobre um pôr do sol. Aquela foi a senha que faltava para conversar e tentar conhecer um pouco mais daquela mulher que tanto me atraía, mas que habitava apenas meus pensamentos. Começamos com o pôr do sol, passamos por praias, campos, viagens e estações do ano. Conversa um tanto trivial, mas que fluiu fácil e gostosa. Dos textos, passamos a conversar por vídeo. As telas eram muros transparentes que tentavam nos manter distantes, enquanto nossos olhares tentavam nos manter próximos. Continuamos nossas trivialidades por um tempo. Com um sorriso inexplicável, me convidou para acompanhá-la num evento beneficente naquele próximo fim de semana. Seria um café organizado por um clube de mães, arrecadando fundos para a casa-lar, um abrigo de menores que viviam em situação de alta vulnerabilidade social. Ela seria voluntária no evento. “Claro que aceito”, disse sem pensar muito. Além de fazer algo que gosto e bate com suas afinidades, seria a oportunidade de passar um tempo a mais com ela. O café seria no salão paroquial de uma pequena comunidade litorânea, vizinha da cidade onde morávamos. O tipo de evento bem familiar e que todos se conhecem. Era certeza de encontro com sorrisos sinceros, abraços carinhosos e algumas boas risadas. Combinamos que eu passaria na casa dela e iríamos juntos.


Desde a chegada ficou evidente o quanto a organização fazia parte da vida dela. Chegamos com alguma antecedência e Ela foi logo reunindo as mães para organizar os grupos de trabalho. Cada qual nos seus respectivos estandes de serviço. Ela me escalou para o seu estande. Agilidade, trabalho e muitos sorrisos. Antes de abrir as portas, amarrou seus lisos e longos cabelos castanhos claros em formato de coque, ajeitou uma touca descartável na cabeça, colocou luvas plásticas nas mãos, olhou pra mim e, sorrindo, disse: “agora você vai fugir de mim, estou feia...”. Eu retribuí o sorriso, mas não falei, apenas pensei “Fugir? Feia?” Diante de mim estava uma mulher sensacional.


No fim da tarde, já terminado o evento, aproveitamos para irmos até a orla, sentarmos num banco para conversar e acompanhar o espetáculo que foi o pivô do nosso primeiro contato: o pôr do sol. Saímos dali com a chegada da escuridão da noite. Apesar daquela atmosfera boa, percebi que algo deixava Ela desconfortável. Levei-a pra casa para que pudesse descansar. Ao chegar, Ela se despediu com um beijo. Uma forma carinhosa e recíproca de gratidão pelo dia agradável que passamos juntos.


No dia seguinte, domingo, acordei com uma notificação de mensagem no celular. “Sem palavras para agradecer todo o carinho que recebi. Percebi que você notou um certo desconforto meu. Depois te falo sobre isso, ok?” Além de organizada, também era observadora.


A semana seria decisiva. Eu precisava providenciar o presente-surpresa, pois a festa seria no próximo final de semana. Helena, uma amiga próxima de Ela, estava ansiosa e preocupada. Durante todo o período os grupos compartilharam suas iniciativas. Eu era o silêncio em forma de gente. “Não se preocupe. Aliás, preciso da sua ajuda para a surpresa”. Helena mostrou alívio, pois foi o primeiro indício de que eu estava preparando algo. Pedi para que Helena tirasse Ela de casa no sábado de manhã, sem possibilidade de retorno antes da festa. Além disso, precisaria da chave do apartamento para que o complemento da surpresa pudesse ser preparado lá. Mesmo com as insistências de Helena, não revelei a surpresa. “Apenas confie em mim. Ela terá a surpresa que merece...”


Ela e eu passamos a conversar com frequência. Durante a semana comentou sobre aquilo que a incomodava. “Tenho algumas características físicas que não gosto. As vezes me acho feia. Eu recebi tanto carinho seu e, naquela tarde, durante várias vezes, me peguei pensando o que poderia ter encontrado em mim que lhe pudesse ser atraente”. Procurei analisar o que poderia ser tão desagradável fisicamente naquela mulher. Nada do que eu dissesse a faria mudar de ideia, mas mostraria meu ponto de vista. Ela era fisicamente atraente, sim. Cabelos longos, lisos e que passavam a maior parte do tempo soltos ao vento. Linhas faciais bem delineadas, belas curvaturas do sorriso, olhos que tinham brilho próprio. Corpo bem desenhado e esculpido com cuidado. Molde divino que trouxe ao mundo mais duas preciosidades, as quais chamava de filhos. Trazia consigo algumas marcas da vida. Afinal, beleza não se faz só com boa alimentação e academia. Quem não assume suas boas marcas de vida, não conta boas histórias. Apesar de tudo isso, Ela se sentia desconfortável com seu físico.


Chegado o dia da festa, Helena cumpriu exatamente o que combinamos. As duas saíram pela manhã. Ainda não consegui entender como Helena fez para deixar a porta do apartamento sem trancar. Cheguei logo em seguida. Passei o final da manhã e o início da tarde preparando o ambiente. Em seguida fui em busca do presente-surpresa. Não seria difícil. Já tinha certeza do que seria. No fim da tarde fui pra casa, tomei um banho e me preparei para a festa. No carro, uma caixa bem embalada me esperava para seguir até a chácara. O conteúdo era leve. Ao sacudir, era perceptível o som semelhante a um chocalho junto com uma peça mais densa, solta dentro da caixa.


Na chácara, a animação era grande. O grupo da decoração caprichou nas cores, que remetiam ao outono. Um misto de alegria e aconchego.  A casa era grande, num estilo rústico e muito aprazível. Móveis antigos se espalhavam no ambiente. Nas paredes, os quadros contavam histórias tão antigas quanto o aspecto amarelado das telas. Na enorme sala, uma lareira. O grupo do som escolheu a trilha sonora com cuidado, dentro das preferências de Ela. Mesa bem montada e, no canto da sala, um espaço com os presentes individuais. Minha pequena caixa quase sumiu perto de algumas outras bem maiores que já estavam ali. Fiz questão que não aparecesse, afinal era pra ser um presente surpresa.


Helena chegou trazendo Ela. Todos haviam combinado de “esquecer” que seria aniversário dela e fariam de conta que seria uma festa qualquer. Logo ao chegar, Ela ficou olhando para todos os lados até me encontrar. Abriu um sorriso e veio ao meu encontro. Me cumprimentou com um beijo. Ao ver a cena, nossos amigos, sem muito entender, entreolharam-se com sorrisos marotos que escondiam uma espécie de satisfação pela conquista dos pseudo-cupidos.


Dado momento, as luzes apagaram como se houvesse falta de energia elétrica. O silêncio foi tomando conta do ambiente. A luz de uma vela começou a aparecer aos poucos. A luz foi novamente acesa e todos gritaram “surpresa”. Ela não se conteve, numa mistura de riso e choro. Cantamos o bendito “parabéns a você...” acompanhado daqueles velhos pedidos de discurso. Ela agradeceu pelo carinho. Um de seus grandes presentes seria reunir os amigos, porém nem de perto imaginava uma reunião daquele tamanho. Em seguida cada um entregou seu presente. Quando chegou minha vez, percebi o ar de expectativa. Não falei nada, apenas deixei que abrisse. Enquanto abria, Ela me olhou e disse: “Já me viu de touca descartável e agora viu minhas lágrimas. Tem certeza que encontrou alguma beleza? Estou feia.”


Na caixa, várias folhas praticamente secas e um pequeno espelho. Alguns com ar de decepção, outros de frustração. “Um espelho? Que surpresa...” diziam. Olhei para Ela dizendo:  “Está feia? Já viu o brilho que vem do fundo dos seus olhos? É ali que habita sua alma linda e leve”. “E as folhas?”, perguntou Ela. “Elas já contaram suas histórias e hoje fazem parte da estação do ano que trouxe você. A partir de agora elas farão parte do alimento de novas folhas. São novas histórias. Assim quero que seja pra você. Histórias já foram contadas e que fazem parte de um passado, mas que ressignificadas, servirão de alimento para novas e belas histórias”, respondi. Ela juntou cada folha que havia deixado cair e colocou novamente na caixa. Junto delas, o espelho.


Após a festa, levei-a para casa. Ao chegar, tomou um susto, pois a porta não estava trancada. Ela entrou com cuidado e tentou acender as luzes, sem sucesso. Antes de sair, eu havia tomado o cuidado de desligar os disjuntores. Entramos vagarosamente na escuridão do apartamento. Ela na frente, eu atrás. Pedi para que parasse por um instante. Vendei seus olhos e a levei até o sofá, pedindo para que se sentasse confortavelmente. Acendi velas, que havia deixado no corredor, juntamente com folhas praticamente secas, espalhadas desde a sala até o quarto. Na mesa, um vinho e duas taças estavam a nossa espera. O tinto que ela mais gostava. Na suíte, preparei seu banho. Na cama, flores. Os sinais que eu havia observado e que agora faziam todo sentido. Desvendei-a e convidei para entrar no meu mundo em seu próprio apartamento. Queria proporcionar-lhe novas descobertas daquelas linhas que ela tanto conhecia, mas que escondia. 


Sentidos foram aflorados a cada toque, cada carícia, cada detalhe daquela noite. Intensidade que vivemos e repetimos muitas vezes mais.

Até hoje Ela guarda uma caixa com algumas folhas e um pequeno espelho para lembrar que não se deve guardar sua beleza essencial: a que vem de dentro.


Ao final, ainda ouço: “Um espelho? Que surpresa...” 


 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

SONHO REALIZADO

 



O que poderia acontecer de inusitado numa viagem de volta pra casa, depois de um dia incrível de trabalho? Você poderá ter diversas respostas na ponta da língua, afinal imprevistos acontecem em qualquer viagem. Eu não esqueço aquele fim de tarde de quinta-feira, que me presenteou com o melhor inusitado da vida.


Meu trabalho exige que eu viaje com certa frequência. E isso é uma das coisas que gosto na minha atividade. Dirigir me faz bem. Eu consigo ter ideias novas, sair da mesmice, montar estratégias, ser criativo e prestar atenção na estrada.


Na quarta-feira eu já estava me preparando. No dia seguinte eu teria uma reunião importante numa cidade próxima. Fechar negócio era questão de honra e eu estava muito motivado. Seria o resultado de quase seis meses de negociações e eu estava muito perto do objetivo. Entre a minha cidade e o local da reunião existem lugares que eu frequentemente vou para acampar ou fazer trilhas, ou seja, era um caminho absolutamente conhecido.


Banho, café da manhã gostoso, casa organizada, documentos na bolsa, computador, carregador de bateria, celular carregado, apresentação finalizada, playlist para ouvir no caminho, carro abastecido; sapato, calça jeans, cinto, camisa, blazer e meias separadas.

Check list finalizado na quinta-feira de manhã. Hora de me vestir e botar o pé na estrada. Meu dia estaria só começando.


A viagem foi fantástica. O cenário que se via pelo caminho trazia muita paz. Os olhos se perdiam pela beleza da natureza horizonte afora. Não é à toa que aquela região era uma das preferidas para meus momentos de descompressão. O dia ensolarado, o pouco movimento de carros e caminhões na estrada ajudavam no meu processo criativo, enquanto dirigia. Num dos pontos da viagem, passei pela entrada de uma estradinha de terra. Lembrei das vezes que a utilizei para chegar aos melhores pontos de acampamento no meio da mata. Ao passar, tive uma ideia. Se o negócio fosse fechado, minha comemoração seria naquele fim de semana, montando acampamento e curtindo a natureza.


Passei a manhã em reunião com a equipe técnica do cliente. No período da tarde, com a diretoria deles. A apresentação foi melhor do que eu esperava e o resultado não poderia ter sido outro: eu consegui. Saí da fábrica com uma sensação indescritível de vitória.


Voltei para o carro com sorriso largo. Precisava voltar pra casa sem deixar que a euforia tomasse conta e acabasse tirando a atenção que precisava no trajeto da volta.


A viagem de retorno estava tranquila até chegar na entrada daquela estradinha. Ali tinha um carro parado com porta malas aberto. Três senhoras idosas se colocaram na beira da estrada para pedir ajuda. Diminuí a velocidade, passei por elas e percebi que realmente era necessário parar. Voltei com cuidado e parei meu carro próximo ao delas. Junto com as três senhoras havia outra mulher. Essa era mais jovem e que se esforçava para resolver o suposto problema. Saí do carro e perguntei de que forma eu poderia ajudá-las. “O pneu furou, meu filho”, disse uma das senhoras. “Minha neta disse que trocaria, mas acho que ela está encontrando dificuldades”, completou. Olhei pra Ela, que me devolveu o olhar acompanhado de um sorriso. “Eu nunca troquei um pneu”, falou meio desconcertada. “Pode deixar que eu troco”. Percebi o ar de alívio enquanto as senhoras trocavam alguns sorrisos marotos como quem diz “quanta gentileza”.


Trocar o pneu não foi difícil. Difícil foi tirar os olhos daquela bela mulher. Enquanto trabalhava, Ela ficou ao meu lado, conversando. Disse que estava voltando de um passeio com a avó e duas amigas dela. Havia levado as três para uma caminhada perto do riacho, que corria ao longo da estradinha de terra. Enquanto ela falava, eu ouvia atentamente cada palavra. Aquela voz era música. Meus olhos intercalavam entre o trabalho e Ela. Como não notar aqueles longos cabelos castanhos claros, quase loiros que, lisos, escorriam pelos ombros e tomavam boa parte das costas? Como ficar indiferente àquele olhar sereno vindo de um par de olhos castanhos escuros, que eram acompanhados de um sorriso que encantava? Como seria possível desviar os olhos daquelas curvas, denunciadas pelo vestido longo que colava ao corpo até a cintura e soltava a imaginação junto com o tecido que a vestia da cintura para baixo? Impossível. Simplesmente impossível.


“Pronto, pneu trocado”. Olhei para as mulheres e percebi o alívio. Todas agradeceram. Ela me deu um beijo no rosto. A vitória daquele dia havia sido acompanhada por uma “vitória coletiva”, quando estendi minha mão para ajudar, mesmo que de forma simples. Retornei pra casa e Ela, as vezes, retornava às lembranças.


Na sexta-feira foi o dia de trabalho e comemoração com a equipe. Combinamos um happy hour no fim do expediente. Minha cabeça já pensava em organizar as coisas para o acampamento. O barulho da comemoração da sexta seria substituído pelo silêncio da natureza no sábado.


Cheguei relativamente cedo do happy hour. Ainda dava tempo de separar os equipamentos e mantimentos para um fim de semana na mata. Tomei um banho, preparei um lanche e fui à luta. Depois de tudo separado, colocado na mochila e levado ao carro, fui para o quarto. Na cama e de olhos fechados tentando dormir, Ela invadia minhas lembranças. Aquela voz ficou gravada de tal maneira que lembrando dela, aos poucos, consegui relaxar até finalmente dormir.


No dia seguinte acordei cedo. Me sentia revigorado pelo bom sono que tive. Tomei um banho, um café reforçado e saí em direção ao acampamento. A mesma estrada foi minha companheira de viagem. Ao passar pela entrada daquela estradinha de terra, não foi difícil lembrar do carro, das três senhoras e Ela. A memória ainda era recente. Seria muito interessante poder encontrar aquela bela mulher novamente.


Chegando ao final da estradinha, estacionei o carro embaixo de uma grande árvore. Todo o trajeto era margeado pelo riacho. O mesmo que Ela levou sua avó e as duas amigas dela. Resolvi montar meu acampamento não muito distante do carro, porém mais próximo ao riacho. O som das águas seria a principal trilha musical daquele fim de semana. A trilha, a partir dali, já era bem conhecida por mim. Daquele local, caminhando uns quinze minutos mata adentro era possível encontrar um lago, que seria meu local de banho. Montei a barraca, separei os mantimentos, preparei o terreno e saí em busca de gravetos, galhos e folhas que me permitissem fazer a manter uma fogueira. Durante minha busca por material, tentava concentrar a atenção nos sons da natureza. O canto dos pássaros, o som das folhas balançando ao vento, as águas que corriam lentas pelo riacho, toda essa orquestra era o início do espetáculo que minha mente esperava para fugir do stress. Misturado a trilha sonora natural, foi possível uma voz feminina, bem ao longe. No primeiro momento estranhei. Não era muito comum visitantes naquele lugar. Levei o material recolhido até a barraca e retornei para tentar encontrar a dona daquela voz. Parei no ponto onde ouvi a voz pela primeira vez para tentar identificar a direção de onde vinha. Parecia vir do lago. Caminhei um pouco mais até encontrar o lago e lá estava. Ela estava completamente nua, misturada as águas cristalinas e frias. Nadava com movimentos lentos e em perfeita harmonia com aquele lugar. A liberdade daquele momento era tanta, que não era difícil confundir a cena com um voo. Era pura poesia que ali nadava.


Eu estava em transe. O mundo havia ficado para trás e eu estava em outra dimensão, quando fui interrompido: “Vem, a água está uma delícia”. Desde o início Ela sabia que eu estava ali, observando. Não se furtou da sua liberdade e ainda me convidou para fazer parte do mundo dela. Tirei minha roupa e entrei no lago. A água estava fria, mas muito boa. Perguntei como ela havia parado naquele lugar. Ela chegou perto de mim sem falar nada, passou seus braços pelo meu pescoço, abraçando-me, e me beijou. Aquele beijo foi um pedido de silêncio. Nada era importante ser dito naquele momento. Ficamos aproveitando o voo nas águas durante um bom tempo, sem falar nada. Apenas ouvindo a orquestra e voando. Dado momento, Ela saiu do lago. As curvas do seu corpo, antes denunciadas pelo vestido longo, agora estavam visíveis sem um tecido que pudesse encorajar qualquer forma de imaginação. Também saí, nos vestimos e caminhamos em direção a estradinha. No caminho, colhi uma flor de um vermelho intenso. Coloquei entre seus cabelos, apoiada na orelha. Disse que havia montado um acampamento e se lhe fosse possível, gostaria que ficasse. Ela aceitou. Conversamos longamente e percebemos algumas afinidades. Ela me explicou como tinha chegado ali. Disse que era um dos seus locais preferidos para caminhada pela mata, além de acampar. E essa era só uma das afinidades que encontramos.

- Cadê seu carro? perguntei.

- Minha vó me trouxe. Noite passada ela teve um sonho. Disse que se eu viesse pra cá, te encontraria.

- Algo mais nesse sonho que é necessário que eu saiba? perguntei.

- Veremos. Disse sorrindo.  


A noite chegou rápida. A luz da lua tentava chegar completa ao chão, mas encontrava resistência das árvores que nos rodeavam. A umidade da mata trouxe uma leve sensação de frio. Fizemos nosso jantar, contamos boas e longas histórias. Entre as conversas triviais, olhares mais profundos. Aos poucos, as conversas foram ficando menos triviais e mais quentes. Nos demos a liberdade de jogar livres, sem restrições. Beijos e carícias foram surgindo. Toques mais intensos nos levaram para dentro da barraca. Ali a noite aconteceu livre. Despimos os corpos e as almas. A entrega foi excitante e completa. Descobrimos as marcas deixadas pela vida, mas levadas pela história. Nossa liberdade nos levou ao um novo voo, desta vez, pela descoberta de nós mesmos. Pele na pele. Poros visivelmente reagentes a cada movimento que fazíamos. Tudo isso temperado com o cheiro do mato e o sabor agradável da pele nua.


A noite passou rápida. “Algo mais nesse sonho?”, perguntei. “Não. Sonho realizado”, respondeu.

 


JOÃO BORGES





sábado, 8 de agosto de 2020

O CORETO DA PRAÇA CENTRAL


Outro dia resolvi fazer minha caminhada de fim de tarde em um lugar diferente, que há muito tempo não visitava. Fui até uma pequena cidade, muito aconchegante e vizinha da cidade onde eu moro. A calma daquele lugar é o contrate perfeito em relação a intensidade da sua vizinha maior. A praça central é dotada de muitas árvores e trilhas pavimentadas, ótimas para caminhadas urbanas. Apesar do tamanho da cidade, a praça central é relativamente ampla. No centro da praça existe um coreto muito bem conservado que, só de olhar, faz a imaginação voltar no tempo, tentando capturar a imagem das bandinhas tocando nas tardes ensolaradas de domingo. Casais bem trajados caminhando lentamente enquanto conversavam. Famílias que se encontravam na praça para assistir as apresentações. Ao redor do coreto, vários bancos e muitos jardins. Cena típica de novelas épicas que nos traz um exercício histórico, saudável para qualquer um.

 

Lembrei que naquela praça, oito anos antes, encontrei Ela pela primeira vez. Estava sentada em um dos bancos ao redor do coreto e conversando com um ex-colega meu, de faculdade. Naquela oportunidade, ao me ver passando, Ethan veio ao meu encontro para me cumprimentar. Apresentou-me sua esposa, Ela, e seus dois filhos. Tivemos uma conversa relativamente rápida, mas muito cordial.

 

Caminhei aproximadamente duas horas entre as trilhas da praça e as ruas da cidade. Para finalizar a caminhada, resolvi subir um morro próximo, onde havia um ponto de observação da cidade. Uma espécie de mirante que tinha uma estrutura de trilha com deck de madeira. De lá era possível observar boa parte da cidade e o olhar se perdia pelo lindo horizonte daquela região. Fui até lá para ver o pôr do sol. Várias pessoas fizeram o mesmo. Sentei-me num dos bancos para descansar e aguardar o espetáculo do astro-rei. Enquanto aguardava, uma doce e encantadora voz feminina se fez ouvir por trás de mim. “Oi! Lembra de mim?”, disse. Virei para trás e tal foi minha surpresa ao ver Ela. “Oi, claro que lembro”, respondi. Percebi que Ela estava só, sem Ethan ou os filhos. “Me admira, depois de tanto tempo você ainda lembrar. Posso sentar ao seu lado?”, perguntou. Acenei positivamente e sentou-se.

 

Ela tem estatura baixa e estava especialmente linda. Pele escura, cabelos pretos, lisos e longos. Olhar penetrante acompanhado de um sorriso singular, expostos por lábios perfeitamente esculpidos. Vestia roupa de academia, colada ao corpo, mostrando que não foram as duas gestações, nem mesmo o tempo que a impediram de ter belas curvas do início ao fim. Ela tinha me visto caminhando na praça e resolveu ir até o mirante também.

 

Perguntei por Ethan e os filhos. Disse havia se divorciado a apenas dois anos e os filhos estavam passando o fim de semana com Ethan. Estava aproveitando para passear e ver o por do sol daquele ponto. A conversa fluiu até o momento em que percebemos que foi necessário o silêncio para apreciar aquele espetáculo. Aos poucos, o crepúsculo chegava. A luz do dia era substituída pelo escuro da noite. As pessoas iam embora e nós acabamos ficando um pouco mais.

 

Fiquei surpreso, pois a conversa revelava vários pontos em comum. Hábitos de caminhada em cenários diferentes, pôr do sol, praia, preferências musicais, enfim. Vagamos por vários assuntos.

 

A lua já tomava conta do seu lugar no céu e nós estávamos ali, sozinhos. Não contamos as horas, nem os temas conversados. Apenas nos permitimos viver aquele momento. Num dos raros instantes de silêncio, Ela apoiou sua cabeça em meu ombro e ficou olhando para as estrelas. Entrei no silêncio dela e a envolvi num abraço. Com isso, Ela se aconchegou ainda mais, procurando espaço no meu peito. Aquele silêncio foi quebrado por um movimento. Ela estendeu sua mão, tocando o lado do meu rosto e fazendo com que eu virasse meu olhar para o dela. Sem dizer nada, lançou seus lábios contra os meus. Beijo doce e intenso. Impossível tentar explicar a sensação de saber que aquele beijo seria meu, algum dia. As palavras davam lugar aos olhares. Os beijos viajavam entre a docilidade e a lascividade. Nossas mãos passaram a percorrer nossos corpos, numa volúpia indescritível. Tudo isso interrompido de forma repentina pelo guarda que cuidava da vigilância daquele espaço. Momento tenso e estranho. Acalmamos os ânimos enquanto éramos orientados a deixar o lugar, por motivos de segurança.

 

Fui para o meu carro. Ela para o dela. Como tínhamos que sair dali, combinamos de nos reencontrar na praça central. E lá fomos. Aproveitamos aquela noite e o restante do fim de semana. Ela e seus filhos não moram na mesma cidade que eu, porém não é muito distante. Trocamos mensagens, nos encontramos e vivemos nossos momentos intensamente. As vezes eu aqui e Ela lá. Outras, eu aqui, Ela e seus filhos também. Outras ainda, eu e Ela em algum outro lugar. Ambos presos pela liberdade na qual vivemos. E assim vamos cantando a vida, como num coreto na praça central.

 

João Borges


sábado, 13 de junho de 2020

RECONECTAR




Finalmente havia chegado o feriado. Seriam quatro dias para aproveitar fazendo caminhadas por trilhas em meio a mata fechada. Era um daqueles programas que recarregam as energias, que demandam cuidados e algum planejamento.

Passei um bom tempo pesquisando as melhores trilhas para caminhada nas regiões mais próximas. A maioria delas eu já havia passado pelo menos uma vez. Uma delas eu ainda não conhecia. Alguns trilheiros contam que no caminho é possível encontrar lagos e quedas d’água. Era o cenário perfeito para a minha próxima caminhada.

Fui de carro até o ponto máximo permitido. Era um camping, bem estruturado e movimentado. Estacionei o carro, retirei minha mochila, troquei meu calçado e me preparei para a caminhada. Seriam 14km percorridos até o final da trilha escolhida.

O cenário era perfeito. A temperatura amena, dia ensolarado, pessoas indo e voltando. No início a trilha era larga e plana. Adentrando a mata, ficava mais estreita e com obstáculos. O terreno já não era tão plano e o sol cada vez menos presente. Alguns poucos raios de luz solar se deitavam sobre a trilha, apenas. O som das folhas ao vento e dos pássaros era sinfonia. Tudo aquilo me envolvia de tal forma que o stress já nem mesmo era lembrado. Como é bom ouvir o som do silêncio e deixar que a alma dance naqueles acordes.

Pouco mais de uma hora de caminhada e aos poucos outros sons começavam a aparecer. Parecia o som de um riacho. Caminhei em direção ao som, como se fosse um mosquito atraído pela luz de uma lâmpada. Desci um barranco, tropecei em raízes de árvores quase enterradas que invadiam a trilha, rolei pelo chão, arranhei meus braços, mas consegui chegar. Era um rio. Nele havia pedras de todos os tamanhos. O nível do rio estava baixo e a água totalmente limpa corria suave em torno das pedras, como crianças no parque numa tarde de sábado. Aproveitei para sentir a temperatura da água, lavar as mãos e o braço que pouco sangrava pelos arranhões. Fiquei ali por alguns instantes, aproveitando aquele ponto de paraíso. Decidi subir o rio pela margem. Não havia trilha, o que atrasaria minha chegada ao final do percurso, mas parecia recompensador. No caminho tortuoso ia me reencontrando. Sentia reconectar a vida. Meu suor naquela mata era diferente daquele que tinha em dias quentes quando saia do escritório. Era um abraço da natureza em forma de gotículas que brotavam dos meus poros.

Duas horas de caminhada pela margem e o som das águas ficava mais robusto. Era claramente o som de uma queda d´água. Por ter saído da trilha e percorrido a margem do rio, não havia encontrado outras pessoas pelo caminho. Depois de uma curva no rio e de algumas árvores enormes para desviar, finalmente cheguei a um lago. Ao fundo, um paredão de pedra que era banhado por uma cascata. Era possível ver os degraus finais da cascata, mas não era possível ver onde começava. O lago era relativamente grande e não havia pessoas no final da trilha. Nesse ponto do caminho o sol ganhava um grande espaço para mostrar sua majestade. Sentei as margens do lago, querendo ouvir o som da queda d’água, que de tão alto sobrepunha o som das folhas. Estava cansado, mas feliz. Deitei-me ali mesmo para aproveitar aquele momento, que foi interrompido por som de passos. Ela apareceu da trilha. Estava com biquini e caminhava em direção ao lado para tomar um banho naquela água fria e límpida. Passou por mim, lançou um olhar, deu um sorriso e entrou na água. Não pude deixar de perceber a beleza daquele sorriso. O sol dava ainda mais brilho naquele corpo cuidadosamente esculpido e de pele morena. Seus olhos eram castanhos, cabelos pretos esvoaçantes e que iam até pouco abaixo do ombro. Seios médios e curvas sinuosas pelo corpo que me prendiam o olhar. O coração disparou vendo-a entrar na água. Fiquei ali, meio desconcertado, mas firme em aproveitar aquele instante. Depois de alguns minutos, Ela saiu da água e veio em minha direção. Estendeu a mão, me convidando para segui-la. Eu não estava disposto a entrar na água, mas chegar mais perto da margem era bem possível. Ela me levou até mais próximo da margem e com cuidado molhou os arranhões, limpando-os. “Eu vou cuidar disso aqui”, dizia com voz doce. A água que percorria meu braço parecia não estar fria. Ela se sentou ao meu lado e começamos a conversar. O papo fluiu natural e encantadoramente. “Seria Iara, a sereia dos rios brasileiros?”, pensei. Ela mostrava ser afetuosa. Por várias vezes procurava me tocar. Aos poucos chegava cada vez mais perto de mim. Por fim, se envolveu no meu braço e deitou sua cabeça em meu ombro. Seguíamos conversando quando Ela me interrompeu. Me convidou para tirar a roupa e entrar na água. Olhei em volta. Ninguém. Ela viu que fiquei um pouco intimidado pelo convite inusitado. Chegou perto de mim e me beijou. Tirou minha roupa vagarosamente. Fui recíproco. Entramos no lago. A água era fria, mas assustadoramente gostosa. Ela foi mais próxima da queda d´água, onde os pés já não alcançavam o fundo. Me chamou e eu fui. Me entreguei de vez ao inesperado. Com calma, nadou para perto de mim, envolveu seus braços em volta do meu pescoço e chegou seu corpo junto ao meu. Suas pernas envolveram minha cintura. A respiração de ambos aos poucos ficava mais intensa. Os olhos se cruzavam e o calor dos corpos aumentava. Longos beijos eram trocados. Não foi difícil esconder minha excitação, da mesma forma que ela também estava. A pele arrepiada, a intensidade dos toques e os gemidos que se confundiam com os sons da natureza, completavam o cenário do nosso primeiro contato. Ficamos ali por longos minutos, que mais pareciam segundos.

Saímos do lago abraçados. Fomos para um lugar com sombra, nos vestimos e ficamos conversando. Tantos assuntos apareceram, mas não sabia de onde Ela era. Perguntei e ela respondeu: “Longe de tudo, mas perto de você”. Uma resposta vaga que foi precedida de um beijo. Ela botou a mão em meu peito e me fez deitar na grama. Me beijou novamente e de um jeito que jamais vou esquecer. De repente se levantou e caminhou em direção a mata. Sobre minha mochila um bilhete. “Me liga. Quero teus beijos pra mim”. Olhei em volta e não a encontrei mais.

Eu precisava me reconectar, mas aquele feriado me mostrou que a natureza reserva boas surpresas que levam a graus elevados de conexão pura.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

AS LÁGRIMAS QUE NÃO PUDE ENXUGAR



Aquela quinta-feira era especial. Naquela noite era o lançamento do meu mais novo livro. Meses de trabalho, semanas de preparação e analgésicos de perder a conta por causa das frequentes dores de cabeça. O corre-corre era tão intenso, que os dias que antecederam o evento pareciam pequenos. Faltavam horas.

Naquela quinta eu resolvi desacelerar. Cumprir alguns poucos compromissos para pensar um pouco mais num ser que eu estava deixando de lado: eu mesmo.

No final da manhã fui visitar um amigo. Ele havia me convidado para uma entrevista numa rádio local para conversar sobre o livro. Ao chegar na emissora, me apresentou todo o estúdio, os colegas e a estrutura de trabalho. Numa das salas estava Ela. Veio ao meu encontro com um sorriso irresistível e iluminado, mas tinha algo a mais. Diferente. Me cumprimentou e deu um beijo no rosto. Confesso que aquele sorriso ficou gravado na minha mente durante todo o tempo da visita.

Fui levado ao estúdio para a entrevista. A sala era relativamente pequena. Uma janela de vidro permitia que as pessoas acompanhassem a dinâmica da programação sem que os ruídos externos interferissem. De dentro do estúdio pude perceber algumas pessoas vendo a entrevista através da janela. Uma delas era Ela.

Após a entrevista, meu amigo me levou até a recepção. Deixei convites para que a equipe pudesse comparecer ao lançamento do livro, agradeci a oportunidade e despedi-me.

A grande noite havia chegado. Minha ansiedade só não era maior que a vontade da gerente da editora querer me estrangular. Eu deixei a equipe dela pilhada. Pedi cadeiras adicionais, mudei o lugar do cerimonialista umas trinta vezes, pedi repetidas conferências na lista de convidados, enfim. Virei o lugar do avesso com pouca necessidade e muita ansiedade.

Aos poucos os convidados iam chegando. Os lugares, sendo preenchidos. Ainda bem que pedi cadeiras adicionais. Entre as pessoas que vieram estava Ela. O sorriso, marcante, completava natural e perfeitamente aquele rosto bem construído por mãos divinas. Mas aquele olhar... eu ainda precisava entender aquele olhar.

Durante a cerimônia meus olhos percorriam a plateia, mas era impossível resistir ao magnetismo da presença dela. Eram aproximadamente trezentas pessoas, mas Ela se destacava naquela pequena multidão.

Ao final foram cumprimentos, fotos, dedicatórias, bate papo, descontração e muita energia boa. Ela ficou até o final. Trocamos telefone. A partir dali passamos a conversar todos os dias. Nos encontrávamos com certa frequência. Nossas conversas fluíam naturalmente. Não encontrava meios de conseguir resistir ao sorriso. Era de tirar do chão. Mas aquele olhar...

Num desses encontros disparei: “preciso entender: quantas lágrimas estão escondidas atrás desse olhar?”. Ela, sem rodeios, devolveu o tiro: “...todas as que derramei sem que você pudesse enxugar”.

Todas as dores, medos e incertezas estavam ali, quase imperceptíveis. O sorriso iluminado que ofuscava e guardava sentimentos que desejavam sair. Um olhar misterioso que escondia um grito inaudível. Quantas lágrimas escorreram da alma, sem o mínimo de percepção aos olhos? Quantos gritos foram dados sem que chegassem aos ouvidos da ajuda?

Ela, agora confiante, despia a alma completamente. Enquanto ouvia, também entendia o encanto que Ela era capaz de produzir.

Mas aquele olhar... não era mais necessário entender ou buscar explicações. O mistério deu lugar à leveza.

Não pude enxugar todas as suas lágrimas, mas somente até ali. Desde então vejo brilho, e não são de lágrimas.

João Borges

terça-feira, 26 de novembro de 2019

EU, ELA E O MOMENTO



Caía o entardecer. O crepúsculo era o prenúncio das cortinas do dia que se fechavam, para dar lugar ao espetáculo da lua cheia que já ensaiava seu brilho. Eu não fazia ideia, mas definitivamente aquela seria uma noite especial.

Chegamos quase ao mesmo tempo ao aeroporto, despachamos nossas malas praticamente juntas, entramos na sala de embarque e no mesmo avião, sentamo-nos em poltronas da mesma fileira, fizemos o check-in no mesmo hotel e éramos completos estranhos até então.

Enquanto eu fazia o check-in, Ela aguardava ao meu lado. Discretamente, pediu a caneta que eu usava para preencher a ficha de cadastro de hóspede. Sem qualquer esforço, sorria com os olhos. Não foi difícil perceber. Puxou assunto dizendo que havia notado que saímos do mesmo lugar para chegar ao mesmo destino. Contou-me sobre o objetivo da viagem, do trabalho, dos lugares que já havia conhecido. Quando nos demos conta, já estávamos num bistrô e as poucas horas da noite já queriam dar lugar as primeiras horas da madrugada.

Falamos desde as trivialidades das nossas rotinas, passando pelas vãs filosofias de bar até chegar ao profundo poético da alma humana. Isso mostra o quão fomos intensos, rasos e profundos em tão pouco tempo.
Viajamos pelas nossas histórias, contamos segredos que jamais seriam contados. Era a estranha intimidade normalmente vista num touchscreen. Mais estranho ainda era viver aquilo, sabendo que éramos apenas aquele instante. Não havia uma perspectiva de dia seguinte, nem tampouco arrependimentos por dias passados. Eram apenas eu, Ela e o momento.

Deixamos a conversa fluir até que a intimidade das palavras passou a ser intimidade na pele. Nos permitimos tocar mãos, braços, rosto, cabelos... As palavras, aos poucos, davam lugar ao silêncio, que em certa medida falavam mais alto que nossas próprias vozes.

Em mais um piscar de olhos, não estávamos mais no bistrô, mas no corredor do hotel. Para fechar o ciclo da conspiração universal, estávamos hospedados em quartos próximos. Levei Ela até a porta do seu quarto, me despedi com um beijo e fui para o meu quarto. 

Enquanto procurava o cartão de acesso, fui surpreendido por um abraço. Aquelas mãos já não me pareciam estranhas. Ela estava atrás de mim, querendo invadir minha madrugada muito mais que invadir meu quarto. Mais uma vez éramos três: eu, Ela e o instante. Beijei-a com intensidade. Nela escrevi poesia com os lábios, tendo o corpo como papel. Em mim, ela recitou cada verso em movimentos.

Já não estávamos mais no interior do quarto, mas na sacada. A lua cheia era uma testemunha inocente e distante. Passamos horas nos permitindo visitar os segredos ainda não contados e descobrindo a beleza da simplicidade. Ouvimos reciprocamente os mais profundos suspiros. Vivemos. E como vivemos.  

Acordei com o sol tomando conta do espaço. O calor serviu de despertador. Janela aberta. As cortinas ensaiavam esvoaçar com a pouca força do vento que entrava quarto adentro. Já havia perdido completamente a noção das horas. Ao meu lado, na cama, um vazio. Ela não estava ali. Fui até o quarto dela. Nada. Fiz contato com a recepção. Nem mesmo um check-in feito com seu nome. Que estranho...

Sonho? Quem sabe. Não tenho resposta certa. Talvez mais um devaneio da mente de um jovem escritor.

João Borges

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A PARTIR DALI, OS DETALHES...



Ainda lembro daquela noite. Era uma sexta-feira. Chovia forte e eu voltava para casa depois de ter encontrado com amigos para comemorar o aniversário de um deles. O trajeto era longo. Minha casa ficava no outro lado da cidade. Por causa do horário e volume de chuva, resolvi traçar uma rota maior, porém mais segura. Meu plano furou. De nada adiantou desviar o caminho. A impressão era que todos os motoristas da cidade resolveram fazer o mesmo percurso, no mesmo horário. Eu já estava preparado para encarar um longo período de tempo até chegar em casa, mas nada comparado ao que aconteceu naquela ocasião.

Entrei numa alameda que me levaria a uma avenida, cerca de dez quadras adiante. O trânsito pesado colaborou para que a alameda estivesse movimentada. Os carros moviam-se lentamente. Num dos pontos de tráfego parado, avistei um carro mal estacionado, com duas rodas sobre a calçada e as outras duas rodas na rua. O sinal de alerta estava ligado e por causa das luzes dos carros, era possível notar a silhueta de uma pessoa no interior do veículo. Enquanto estava parado, fiquei observando aquele carro. O contexto sinalizava que a pessoa precisava de ajuda. Percebi a movimentação no interior daquele carro. Ela mexia intensamente os braços, enquanto parecia falar ao telefone. Na lentidão do trânsito, meu carro foi chegando mais próximo. A curiosidade foi mais forte e me levou a estacionar logo a frente daquele carro. Para igualar o padrão mal estacionado, subi duas rodas na calçada. A chuva não dava tréguas. Mal dava para identificar o veículo de trás através do espelho retrovisor do meu carro. Criei coragem e saí naquela tempestade, sem ao menos saber se a pessoa realmente precisava de ajuda. Corri até o carro de trás e bati no vidro da janela do motorista. Sem guarda-chuva, eu estava ali, de pé, com uma mistura de alguém disposto a ajudar e, ao mesmo tempo, louco pra fugir daquele banho de chuva. De repente, uma frestinha da janela foi aberta e uma voz feminina se fez ouvir. A fresta era suficiente apenas para facilitar a comunicação e dificultar a entrada da chuva, porém na realidade dificultava a comunicação e facilitava a entrada de água no carro. Ali fora encharcado até os ossos e aproveitando a oportunidade, perguntei se precisava de ajuda. Não sei se por compaixão ou necessidade, a dona daquela voz feminina resolveu abrir e porta e sair do carro. Ela, prevenida, diferente de mim, abriu um guarda-chuva. A partir dali todos os detalhes não me escapam. As luzes dos carros que lentamente passavam, ajudavam a identificar alguns detalhes importantes. Aquele olhar misto de medo e alívio, um leve sorriso que denunciavam as covinhas que se formavam no rosto bem delineado, de pele clara e suave. Aquela mulher, cuidadosamente esculpida pelas mãos divinas estava ali, na minha frente, precisando de alguém que pudesse lhe tirar daquele lugar. Ela vestia uma camiseta preta, bem ajustada ao corpo, e saia jeans. O aspecto despojado não combinava com o contexto do momento. Procurei saber o que estava acontecendo e o que ela precisava. Ela me explicou sobre um suposto problema mecânica em seu carro e estava tentando chamar o seguro. Pelo aparente nervosismo, não havia conseguido contato. Por sorte, meu carro havia saído recentemente da revisão e o cartão de visitas do mecânico, ainda estava no junto ao painel. Corri para buscar o cartão, na esperança que o sujeito pudesse atender. A expressão facial ainda não tinha alterado. Misturava medo e alívio. Medo por não saber se eu poderia ajudar ou tramar alguma armadilha. Alívio por alguém estar disposto a sair na chuva, num lugar movimentado, para ajudá-la. O mecânico demorou um pouco, mas atendeu minha ligação. Ele não estava distante, mas iria demorar um pouco por causa do trânsito. A espera foi a senha para puxar conversa e tentar conhecer um pouco daquela linda mulher. Tentativa em vão. Poucas palavras trocadas, alguns sorrisos para tentar quebrar o gelo. Atitudes que tinham o objetivo de acalmá-la. 

Ficamos embaixo de uma marquise não muito longe dos carros mal estacionados. Sem muita demora, o mecânico chegou. Conversou um pouco com Ela para tentar diagnosticar o problema. Abriu o capô, olhou aqui, mexeu ali, e decretou: “Soltou essa mangueirinha aqui, ó. Simples de resolver. A abraçadeira de pressão escapou e a mangueira de alimentação do combustível soltou. Tenta ligar, por favor”. Como um passe de mágica, o motor ligou. Problema resolvido. Perguntei ao mecânico, quanto custaria aquele serviço. “Nada não! Estava aqui perto. Ainda bem que foi simples”. Com gratidão, dei a ele uma boa gorjeta e dispensei-o. Com expressão mais leve, Ela veio em minha direção e perguntou se havia alguma forma de recompensar-me. Disse que aceitaria um café, mas teria que ser naquele momento. Mesmo encharcado, não abriria mão de estar um pouco mais com Ela. Surpreendentemente ela aceitou o convite, mas com uma condição: de estarmos juntos em roupas secas, num lugar calmo. Ousado e de modo totalmente inusitado, convidei-a para me acompanhar até a minha casa. Lá eu poderia tomar um banho, trocar de roupa e acompanha-la. De presente, recebi um sorriso iluminado. Ela entrou no carro e seguiu atrás de mim. Entramos no apartamento e deixei-a a vontade enquanto eu corria apressado até o chuveiro. Tomei um merecido banho quente. Ela, na sala, passeava o olhar por alguns quadros e observava a decoração. Sem demorar muito, apareci pronto para sairmos. Na rua não foi possível, mas ali foi perceptível a fragrância suave do perfume. Pude notar outros detalhes dela, que a escuridão da noite insistiu me ocultar. Seus olhos castanhos, seus cabelos lisos que escorriam pelos ombros, ondulando levemente nas pontas; seu corpo bem torneado, sensual e proporcionalmente distribuído. Um conjunto deliciosamente provocante, que aliciava meus pensamentos.

Ela deixou seu carro na garagem e fomos no meu carro até um Coffee Shop. Lá pudemos explorar nossas histórias. Ela, vinda de longe, estava na cidade a pouco tempo. A empresa que trabalha, a transferiu para cá e ainda estava “caçando” apartamento. Sorte minha, pensei.

Nosso papo fluiu leve. Às vezes, passávamos a linha do trivial. Viajamos entre o frívolo e o culto. Sem perceber, as horas passaram rapidamente. A chuva, lá fora, caía solta e vigorosa.

Na saída do Coffee Shop, nos aproximamos para ficar embaixo do mesmo guarda-chuva, Ela passou seu braço direito pela minha cintura, abraçando. Meu braço esquerdo envolveu suas costas e minha mão chegou em sua cintura. Levei-a até o carro, abri a porta do carona e Ela não entrou. Estranhei, mas ainda debaixo do guarda-chuva ela ficou de frente para mim, passou seus braços pelo meu pescoço e ficamos frente a frente. Olhos nos olhos, bocas muito próximas. Palavras ditas apenas com troca de olhares. Desejos dilatando os poros da pele. Um beijo. Numa hora estávamos entrando no carro. Em outra, compartilhando o mesmo espaço, envolvidos na sala do meu apartamento. Da superficialidade desconhecida, passamos ao profundo do íntimo compartilhado a dois. A partir dali os detalhes foram eternizados.

Dos minutos de trânsito entre uma festa de aniversário e minha casa a horas de ousadia e entrega entre chuva e um café.

Assim Ela entrou em minha vida, e assim ainda permanece.


João Borges
Joinville/SC

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A DISTÂNCIA NÃO DIMINUI A IMPORTÂNCIA




Das coisas que sempre gostei de fazer, botar o pé na estrada é uma das preferidas. Se a viagem envolver simplicidade e uma boa dose de ousadia, melhor ainda. Não quero dizer que planejar não é necessário. Pelo contrário, faço com que planejamento e organização trabalhem a meu favor, contribuindo para oportunizar minhas intempestivas decisões. Não sou o tipo de pessoa que planeja uma viagem com meses ou até anos de antecedência. Eu decido de uma hora para outra. Havendo tempo e condições, apenas vou. E vou sozinho, de carro, porque a estrada me dá tempo de respirar, refletir e acalmar a mente.

Lembro que num desses momentos de boa insanidade, resolvi aproveitar as férias para viajar para o interior do país. Era uma viagem longa, mas esse tipo de distância – entre origem e destino – nunca me incomodou. A distância que me incomoda é aquela que, as vezes, existe entre as pessoas que estão bem ao nosso lado. Essa é a pior delas.

Num dia fiz a revisão do carro, no outro já estava na estrada, dirigindo para um lugar que surgiu numa conversa trivial qualquer, entre amigos.
Para deixar a viagem mais interessante, inclui no roteiro algumas cidades vizinhas, onde poderia conhecer uma região maior.

Conforme se afastava da minha cidade, percebia a mudança de cenário. Do corre-corre urbano, dos horários e demandas que precisam de atenção, do trânsito e dos problemas que qualquer cidade grande tem, à tranquilidade da estrada. Muito verde ao redor e apenas o som do rádio ligado. A música, o asfalto e a natureza foram meus companheiros durante várias horas. Pouco mais de meio dia de viagem, cheguei ao destino. Uma cidade pequena, onde as pessoas se conhecem, se cumprimentam e confiam umas nas outras. Estacionei meu carro em frente a uma pousada e resolvi entrar para conhecer as instalações, além de verificar se havia vaga para pernoitar. Fui recebido por um senhor de cabelos brancos, ar de gente simples, mas com a disposição de um jovem. De imediato mostrou-me o lugar. Nem mesmo pediu pra preencher formulários ou assinar qualquer documento, como seria o protocolo. O lugar era um casarão simples, mas muito bem cuidado e limpo. Aquele ambiente favorecia a sensação de estar em casa. Enquanto aquele velhinho simpático me mostrava a pousada, falava sobre a história do casarão e das pessoas que ali moravam. Fui arremessado ao passado. Era possível visualizar aquele belo lugar e as imensas plantações de café, cravadas na zona da mata mineira. Hoje as plantações que acompanhavam o casarão não existem mais. No lugar, outras casas foram erguidas, ruas e praças foram construídas. Ao fundo do casarão, havia uma escola. Meu quarto era na parte superior da pousada e a janela do quarto dava para essa escola. Logo ao chegar, percebi o som das crianças brincando. Para alguns poderia ser motivo para mudar de quarto, ou até mesmo sair da pousada. Para mim não havia problema.

Tratei de levar minhas bolsas para o quarto, tomar um banho e descansar um pouco. O som das brincadeiras havia sido interrompido. Olhei pela janela e vi que as crianças haviam entrado em sala de aula. Senti que estava conectado àquele lugar. Toda aquela atmosfera era favorável ao prazer do descanso.

Terminando o banho, notei o som de um violão. Em coro, as crianças acompanhavam a professora. Não consegui identificar a música, mas confesso que o som era bem agradável. Me vesti e voltei para a janela. Dali consegui ver a professora sentada no chão, e as crianças sentadas em círculo junto dela. Num relance nossos olhares se cruzaram. Eu, da janela, olhei sorrindo. Ela, da sala, retribuiu. Como não ser atraído pelo olhar fulminante e sorriso perfeito que formavam covinhas naquela face iluminada? Fiquei ali acompanhando a cena durante alguns instantes, até que a música acabasse.

Resolvi relaxar e dormir um pouco. Queria dar uma volta na cidade assim que fosse possível. Meu sono durou o suficiente para recarregar as energias. Fui acordado pela chuva que caía. Minha caminhada para conhecer a cidade estava comprometida, mas como não desisto fácil, comprei um guarda-chuva no mercadinho próximo a pousada. 

Alguns poderão dizer que foi coincidência, eu prefiro achar que Deus me colocou na hora e lugar certo, pois no trajeto do mercadinho para a pousada, cruzei com a bela professora. Ela tentava correr para fugir da chuva, mas estava tão cheia de material escolar nas mãos, que correr não lhe era possível. Chamei-a e perguntei se ela aceitaria abrigo debaixo do meu guarda-chuva. Ela me olhou, correu ao meu encontro e chegou perto de mim, de forma que a chuva não pudesse causar estrago ao material. Ofereci carona de carro até sua casa. No primeiro momento fez aquela expressão de “deixa pensar”, mas ao perceber que as poucas quadras que tinha que caminhar até em casa poderiam estragar seu material, resolveu aceitar. Fomos até a entrada do casarão. Eu ainda precisaria pegar a chave do carro que estava no quarto. Enquanto isso, aquele senhor simpático, ao perceber que ela estava me esperando, mas toda molhada por causa da chuva, correu ao encontro oferecendo-a uma toalha.

Entramos no carro e fui leva-la em casa. O trajeto era curto, mas pedi permissão para alongar o percurso. Queria conversar um pouco mais. Logo de cara Ela percebeu que eu não era dali. O sotaque me denunciava. Contei a história sobre como fui parar naquele lugar, longe de casa, mas próximo de mim mesmo. Nossa conversa não foi longa, mas o suficiente para deixar um gostinho de quero mais. Combinamos nos encontrar no dia seguinte, sábado. Ela se dispôs a ser minha guia para conhecer a região. Deixei Ela em casa e retornei à pousada. Se caminhar estava nos planos e não deu certo, aceitei de bom grado as mudanças que acabaram acontecendo naturalmente.

No dia seguinte, Ela me encontrou na praça central. O dia estava ensolarado e minha guia pediu que eu fosse de carro. Os lugares que visitaríamos seriam mais distantes. No caminho pudemos mergulhar um pouco mais nas nossas histórias. Rir de coisas bobas. Aquele sorriso dela me deixava sem ação. Visitamos cachoeiras e caminhamos por belas trilhas. Uma dessas cachoeiras fica numa propriedade particular, que também serve de ponto turístico e tem estrutura com restaurante. Ali almoçamos, diante de uma queda d’água com aproximadamente vinte e cinco metros de altura. A tarde foi pequena para nossas caminhadas e visitas. A última das trilhas que percorremos, terminava num pequeno riacho. Águas calmas, som da mata com o efeito do vento e muitos pássaros. O sol mostrava que o fim do dia estava próximo. Nos sentamos a beira do riacho, em silêncio. Nossos olhares se cruzaram. Fiz um carinho em seu rosto e beijei-a. Se pudesse, congelaria o tempo naquele instante. Aqueles lábios macios me fizeram levitar. A eternidade poderia se chamar beijo. Por um instante, Ela me colocou em algum lugar longe de preocupações, pressões e stress. Era o lugar perfeito.

Abracei-a com vontade de contrariar as leis da física. Ali, dois corpos ocupariam o mesmo lugar no espaço. E assim ficamos durante um bom tempo. Era possível a um, sentir as batidas do coração do outro.

O sol se punha. O dia passou muito rápido.

Assim como o sábado, os dias que se seguiram não foram diferentes. Ela e eu conversávamos todos os dias, durante os cinco dias que fiquei na cidade. Passadas as férias e de volta a rotina, continuamos conversando pela internet. Quer saber se ainda nos encontramos? Sempre, afinal ainda contrariamos as leis da física.

Enfim, vivi na prática o paradoxo que diz: a distância entre duas pessoas distantes pode bem menor do que a distância entre duas pessoas próximas.



João Borges
Joinville

sábado, 9 de fevereiro de 2019

SOMOS INSTANTES





Ainda lembro o dia em que estava no aeroporto. Aquele vasto saguão, pessoas indo e vindo, monitores de vídeo informando os atrasos dos voos por conta da chuva forte que caía. Já havia despachado malas e equipamentos e não havia outra coisa a ser feita senão esperar. Cheguei com a antecedência necessária, mas como havia atraso no meu voo, aproveitei o tempo e fui tomar um café. Cheguei a um aconchegante bistrô e, com certa dificuldade, encontrei uma mesa. Da minha bagagem de mão, tirei um livro e continuei a leitura enquanto aguardava a chegada do meu café. Tentei disfarçar, mas confesso que aquele momento não me convidou a mergulhar na história do livro. Claro, havia um motivo. Logo ao chegar, percebi que Ela estava sentada numa mesa próxima. Havia muito tempo que não nos encontrávamos. Namoramos durante quatro anos e foi intenso. Uma história que ficou marcada na história. Depois do fim do relacionamento, não havíamos mais nos encontrado.

Na mesa do bistrô estava eu, um café, um livro e milhões de lembranças. Seria clichê dizer que um filme passou na mente? Talvez, mas foi exatamente isso que aconteceu. Temos gostos muitos parecidos. Um deles é viajar. Aquele ambiente de aeroporto me fez voltar no tempo e relembrar algumas das loucuras que fizemos. Uma dessas foi nesse mesmo aeroporto. Meu voo estava marcado para a madrugada. Saímos de casa quase onze horas da noite. Tempo mais que suficiente para o check-in e despacho da mala. No caminho encontramos ruas vazias. Enquanto eu dirigia, Ela tentava tirar minha concentração me olhando desejosa e passando suas mãos em minha perna. Quanto mais próximos estávamos do aeroporto, mais ousadas eram as suas carícias. Chegamos ao estacionamento e procurei uma vaga mais distante e discreta possível. A essa altura, meu corpo já havia reagido completamente as carícias recebidas durante o trajeto. As películas escuras nos vidros do carro contribuíam para um ambiente mais privativo, mas não o suficiente para impedir a chegada de alguém. Essa mistura era muito excitante para ambos. Sem abrir as portas, Ela passou para o banco traseiro. Não eram necessárias palavras para ouvir me chamar. Minha camisa já estava praticamente aberta. Faltavam apenas dois botões. Também fui para o banco de trás, cheguei bem perto o olhei no fundo dos olhos dela. Era possível sentir a respiração mais forte. Beijei-a intensa e loucamente. Tirei sua roupa e aproveitei o pouco tempo que ainda me restava para mergulhar fundo naquelas curvas que sempre em encantaram. Explorei cada poro da pele dela, que sentia arrepios durante minha expedição por aquele mundo repleto de docilidade e certa malícia. Ela retribuiu cada gesto de carinho com mais carinho. A entrega era plena, apesar de estarmos dentro de um carro em pleno estacionamento de um aeroporto. Para nós, naquele momento não importava o lugar, mas o próprio momento. Somos instantes, ali era o agora e necessitava ser vivido.

Com o tempo estourando, nos refizemos, saímos do carro e pegamos as malas. O atendente do estacionamento nos olhou com aquela expressão típica de saber que aquela demora dentro de um carro fechado, tinha bom motivo.
Ela me acompanhou durante o check-in e permaneceu comigo até a hora da entrada na sala de embarque. Minha volta estava prevista para o dia seguinte, mas a intensidade que colocávamos nos momentos juntos, dava a impressão que a viagem demoraria meses.

Ainda no bistrô, fui acordado das lembranças com um cumprimento. Quando percebi, Ela estava em pé ao meu lado. Olhei pra cima e, sem tempo de reação, ganhei um beijo. Aqueles inesquecíveis lábios macios foram tão rápidos que não pude negar o gesto. Com olhar carinhoso, Ela disse que ouviu a confirmação do seu voo e estava indo para a sala de embarque. “Te vejo por aí”, foi tudo o que ouvi naqueles poucos segundos. Poucos e eternos segundos.

Mais uma vez a vida me mostra a oportunidade de ser intenso. De fato, somos instantes.

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...