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quinta-feira, 18 de junho de 2020

ENTÃO, FAÇAMOS VALER A PENA




Ainda sou capaz de ouvir o som das ondas do mar daquela tarde ensolarada de sábado.

Eu vivia um momento muito particular e o que mais procurava era um pouco de silêncio e tranquilidade. Em geral o contato com a areia, com o vento do litoral e com a água do mar me faz reconectar. É como viver na prática essas frases prontas que encontramos na internet, tipo “não é água com açúcar que acalma, é água com sal”. Pra mim, uma espécie de mantra que resolve.

No celular, várias chamadas perdidas e mensagens enviadas dos amigos. Eles sabiam exatamente como eu me sentia e faziam de tudo para me dar um novo ânimo. “Cara, hoje é o aniversário da Yasmim. Ela convidou a galera toda. Vamos?”, “Te anima, toma um banho, te veste e vamos no aniversário da Yasmim”, “Partiu aniversário da Yasmim. Tua chance de renascer, meu irmão”, eram algumas das mensagens que eu havia recebido.

Eu procurava silêncio, meus amigos queriam me levar para o sentido contrário. Em tese, reencontrar os amigos, celebrar, dar boas risadas e jogar conversa fora era uma boa opção. A oportunidade de sair da minha apatia. As oportunidades surgem exclusivas. Podem até surgirem novas, mas nunca serão as mesmas. Passam como o vento. Sopram e vão embora. Você pode aproveitar ou simplesmente se esconder.

Fiquei caminhando na praia naquele fim de tarde. Era um momento só meu. Fiquei na orla até o pôr-do-sol. Confesso que a insistência dos amigos me inclinava para sair com eles durante a noite. Yasmim era namorada de um dos meus amigos de faculdade. Aliás, aquela turma conseguiu a façanha de permanecer unida, mesmo depois de tantos anos após a formatura. Dali saíram alguns casamentos. Famílias foram se formando e nossos encontros foram ficando cada vez maiores. Aquela noite certamente encontraria boa parte daquela imensa turma.

Resolvi voltar para casa. Ainda não muito decidido, caminhei a passos lentos. Procurei notar os detalhes de cada coisa. Desde o vento que já diminuíra, as pessoas caminhando, o cachorro que corria pela areia, os idosos sentados nos bancos do calçadão enquanto conversavam, a lua que já aparecia tímida, mas sorridente, o som das ondas, até mesmo o som dos meus passos na areia. Eu queria absorver o máximo de experiências daquele momento. Afinal, somos instantes. Então, façamos valer a pena.

Cheguei em casa, liguei uma música e fui tomar um banho. Daqueles que a água quente abraça o corpo num ritual mágico de ousadia, leveza e relaxamento. As mensagens dos amigos fizeram meus pensamentos revisitarem os tempos de faculdade. Lembrei das festas e viagens que fizemos, além dos acampamentos que organizamos. Era um saudosismo que insistia ficar. A impressão era que a isca havia sido jogada e o peixe aqui estava quase sendo fisgado. Saí do banho e sem dar muita chance a inércia, fui procurar uma roupa. Me decidi: iria rever a turma.

Passei mensagem no grupo, dizendo que os encontraria na casa da Yasmim. A reação foi imediata. Corri até o shopping, comprei um presente e fui pra festa. Yasmim morava em um casarão. Aos fundos, um imenso jardim, uma piscina e a área onde estava acontecendo a festa. Música boa, gente rindo e conversando. Fui chegando aos poucos, quando senti uma mão em meus ombros. Yasmim chegou por trás de mim. Me viu chegar e foi me encontrar. Junto dela estava o Ricardo, meu colega de turma, que chegou me abraçando e oferecendo uma bebida. Abracei Yasmim e entreguei-lhe o presente. Yasmim falou bem perto do meu ouvido que precisava me mostrar uma coisa. Olhei com ar de estranheza. Com tanta gente pra atender, ela ainda queria me mostrar algo? Na verdade, não era algo, mas alguém. Yasmim segurou minha mão e me levou até um grupo de pessoas que estava próximo a piscina. No curto percurso, percebi alguém que se destacava. Ela estava lá, com seus sapatos de salto alto, pernas estonteantemente esculpidas, vestido preto que combinava com sua linda cor de pele. Curvas que se desenhavam desde o início do calcanhar, passavam pela cintura, seios, ombros, pescoço, até chegar a cabeça. Um sorriso que tinha brilho próprio e o olhar que transpassava qualquer tentativa de lucidez. Seus cabelos leves e soltos, caiam pelos ombros.

Tentei entrar na conversa, mas meus olhos insistiam encontrar Ela. Não era difícil perder a concentração. Como se fosse combinado, aos poucos o grupo foi se dispersando, as conversas iam ficando mais rasas, até que eu e Ela ficássemos a sós, ainda próximos a piscina.

Fiquei extasiado, mas procurei me manter centrado. Conversamos demoradamente. Ficamos juntos durante a festa. Caminhamos pelo jardim e tive a oportunidade de reencontrar os amigos. Encontramos uma mesa de bistrô onde pudemos permanecer juntos e conversando. Num momento de distração, nossas mãos se encontraram sobre a mesa. Quase de imediato voltamos nossos olhares um ao outro, até que ouvi um “posso?” saindo daqueles lábios, me pedindo pra segurar pela mão. Retribuí o sorriso e acenei em sinal de positivo. Não há como esquecer aquele toque. Suas mãos eram macias e seus dedos buscaram entrelaçar entre os meus. As horas passaram como o vento. Encontramos alguns pontos em comum na conversa que fluiu leve. Aos poucos os convidados se despediam. O lugar foi ficando cada vez mais vazio. Yasmim foi ao nosso encontro e perguntou se Ela tinha como voltar. “Não, estou sem carro”, disse. Eu me ofereci para dar uma carona, mesmo sem saber o quão longe seria o destino. Ela deu um sorriso discreto e nem precisou falar para mostrar que havia aceitado.

As oportunidades surgem exclusivas. Podem até surgirem novas, mas nunca serão as mesmas. Passam como o vento...

Nos despedimos de Yasmim, Ricardo e dos demais amigos que ainda estavam por ali. Entramos no carro, nos olhamos e nos beijamos. Indescritível aqueles lábios. Tentando manter a serenidade perguntei: “pra onde?”. “Pra onde você quiser, desde que seja com você”, recebi como resposta. Rodei pelas ruas de forma aleatória. Ela apoiou sua mão sobre minha perna, enquanto eu dirigia. Queria sentir sua presença o maior tempo possível. Chegamos a um ponto da orla onde não havia calçadão, mas uma grande faixa de areia interrompida por dunas. Não havia movimento, nem a presença de outros carros. Parei, desliguei o motor e os faróis. Agora éramos nós e a noite. A mão, antes apoiada sobre minha perna, agora apertava minha coxa. A outra mão buscou meu rosto, puxando para perto de si e me beijar. Começou leve e foi ficando cada vez mais intenso. Sua boca buscava descobrir cada traço do meu rosto até encontrar espaço no pescoço. Os beijos foram ficando lascivos e intensos. Eu retribuí na mesma moeda, afinal intensidade com intensidade se paga. Ela, vagarosamente abriu minha camisa e a tirou. Passou suas mãos macias sobre meu peitoral até a altura da cintura. Como um ritual, repetiu o mesmo gesto com as demais peças da minha roupa. Com atitude dominadora, não deixou que eu fizesse o mesmo com as roupas dela. Entrei no jogo. Vamos brincar. Com toques macios, queria conhecer cada espaço do meu corpo. A cada lugar visitado, um beijo. A cada carinho, uma verdadeira viagem. Foi assim até se sentir quase satisfeita. Quando achei que Ela iria desistir, despiu-se completamente. Não, eu não poderia tocá-la. No máximo, beijos em lugares que Ela escolheria. O jogo continuava. Ela veio sobre mim e, sem poder tocá-la, mostrou-me a regência da orquestra que aquele corpo havia se tornado. Movimentos leves que se alternavam com intensidade e força. Nosso suor se misturava naquele pouco espaço do carro. As horas, que haviam passado rápido na festa, eu queria que fossem generosas, passando bem devagar. Queria aproveitar cada detalhe de cada segundo. Aquele momento corroborou com a fluência da nossa conversa durante a noite.

Eu queria absorver o máximo de experiências daquele momento. Afinal, somos instantes. Então, façamos valer a pena.

Era quase dia. A lua, sorridente, já se despedia para dar lugar ao astro-rei. Levei Ela para casa. Trocamos contatos e marcamos novo encontro. Afinal, intensidade com intensidade se paga.


João Borges

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

ENTRE ASPAS



A rua era extensa e pouco movimentada. A tarde estava perfeita para um passeio de bicicleta. Sol brilhando, temperatura amena, uma brisa soprava leve e, o mais importante, eu estava de férias. O tempo estava todo a meu favor. Normalmente meu tempo é de outras coisas ou pessoas. Quando vejo, o dia passou. Aquele tempo entre levantar da cama e se deitar para dormir, passa num piscar de olhos. Melhor sensação é aquela que você tem quando, finalmente, resolve pagar o que deve a si mesmo.

O pouco movimento de carros contrastava com o movimento de pessoas caminhando nas calçadas. Não era época de festas ou qualquer feriado. Era apenas um dia ensolarado qualquer. Ao virar a esquina percebo um movimento incomum. Uma bicicleta derrubada no meio da ciclofaixa, um pequeno aglomerado de curiosos em volta e um carro com o sinal de alerta ligado, logo a frente. A cena típica de um atropelamento. Resolvo passar mais devagar para tentar ver se havia necessidade de ajuda. A moça ainda lá, sentada na ciclofaixa segurando a perna e mostrando expressão de dor. Eu, ainda no outro lado da rua, parei e tentei identificar melhor a pessoa. Ela percebeu que eu estava lá e com o olhar parecia me chamar. Desviei de alguns curiosos até chegar ao seu encontro. Ela, sem dizer nada, gritou por ajuda. Com cuidado, segurei sua perna. Não foi difícil perceber a fratura. Perguntei se alguém já havia chamado socorro médico. Um dos que estavam ali disse que sim e que já estava a caminho. Sem muita demora chegou uma ambulância. Rapidamente saiu um paramédico fazendo perguntas para identificar o problema. Os outros integrantes da equipe de socorro puxaram a maca e uma bolsa. Fizeram o primeiro atendimento, imobilizaram a perna fraturada e, com cuidado, colocaram-na na maca. Quando foi perguntada se estava sozinha ou se havia alguém que pudesse acompanhá-la, Ela apontou na minha direção. Larguei minha bicicleta junto a dela. Uma senhora que morava em frente tocou-me no ombro e disse que guardaria as bicicletas e que eu poderia acompanhar “minha namorada” com calma.

Entrei na ambulância e fui perguntado sobre a documentação da moça. Olhei para Ela. Estava no bolso de trás da calça. Ela estava imobilizada na maca, não havia como pegar. Meio sem jeito, mas com a necessidade de alcançar o documento, passei a mão pela cintura até alcançar o bolso. Difícil é explicar como Ela pôde exibir um sorriso no canto da boca, misturado a sensação de dor por causa da fratura. Mais difícil foi entender como ficamos sem trocar uma palavra sequer, durante o tempo todo.

Chegamos ao hospital e o atendimento foi relativamente rápido. A ficha médica já havia sido antecipada pelo pessoal de primeiro atendimento. Eu já havia sido promovido a “namorado” e acompanhante de hospital de uma pessoa totalmente estranha, mas incrível e inexplicavelmente próxima. Ela foi prontamente levada para fazer exames de imagem. Poucos instantes foram necessários para que o ortopedista me procurasse para dizer que Ela seria levada para o centro cirúrgico. A fratura não foi tão simples e era necessária cirurgia. Perguntei se era possível conversar rapidamente com ela antes do procedimento. Fui autorizado, porém não poderia ser demorado. Eu precisaria assinar alguns documentos de autorização e não o faria sem antes conversar com Ela.

Cheguei na maca onde Ela estava, já no pré-operatório. Aquele olhar tinha o poder de se comunicar comigo de forma extraordinária. Ali ouvi sua voz pela primeira vez, mas parecia déjà vu. Ao ouvi-la, a sensação de estar com Ela corria pelo tempo. Era a senha que eu precisava. Eu assinaria as autorizações sem me preocupar.

Fiquei na recepção em compasso de espera. Já havia esquecido meu passeio de bicicleta, do dia ensolarado e do tempo que reservei para pagar minhas dívidas comigo. Estava sentado numa recepção de hospital tentando entender tudo o que estava acontecendo. Uma pessoa que num momento era uma completa estranha, no outro era uma misteriosa conexão. De tanto viajar em pensamentos tentando dar explicações ao inexplicável, as horas acabaram passando rápido. A cirurgia havia acabado e Ela já estava na sala de recuperação. Seria encaminhada logo ao quarto.

Uma enfermeira veio ao meu encontro e pediu que eu fosse até o quarto 602. Logo ao entrar, a vi deitada na cama, sonolenta e com a perna suspensa. Os cabelos lisos e desarrumados, o rosto levemente pálido e os olhos entreabertos. Ela lutava contra o efeito dos medicamentos para manter-se acordada. A noite já dava lugar a madrugada. Fui até a cabeceira da cama e toquei seus cabelos. Ela fechou levemente os olhos como quem dissesse: “continua”. Fiquei ali um bom tempo, cuidando daquele pseudo-sono. Aos poucos fui recostando minha cabeça próximo ao dela. Quando me dei conta, o dia já era outro. O sol estava surgindo e fui acordado pelo médico que entrou subitamente dizendo “bom dia” em alta voz. Sorridente e com uma prancheta na mão, o médico disse que Ela ficaria ainda mais aquele dia no hospital, mas seria liberada logo no dia seguinte. A cirurgia havia sido tranquila e a recuperação seria feita em casa. Era necessário acompanhamento e sessões de fisioterapia, assim que terminasse a primeira fase da recuperação. De “namorado”, ainda acumulei a função de “cuidador”. Afinal, namorado não cuida num momento como esse? Pensei... De fato, a coisa estava ficando séria.

Fui para casa, tomei um banho e tentei voltar a realidade. Tudo aquilo parecia ter sido um grande sonho, mas não era. Já havia desistido de buscar explicações. Como entender aquela vontade de estar lá? Como dizer a si mesmo que esquecer e desejar boa sorte não estavam nos planos dali em diante? Resolvi apenas seguir aquilo que o coração dizia, o que não era muito comum para uma pessoa extremamente racional como eu.

Voltei ao hospital, acompanhei a recuperação, levei às sessões de fisioterapia, consultas médicas e exames complementares. Acompanhei-a nos novos primeiros passos. Dei a Ela minha mão, meu ombro, meus ouvidos, meu coração. Fui herói, motorista, cozinheiro, enfermeiro e nem sabia que tantas profissões habitavam em mim. Me redescobri, quando nem ao certo sabia que isso me era necessário. Tudo começou naquele dia em que Ela foi atropelada e, mesmo quebrada, me mostrou o quanto eu estava vivendo apenas entre aspas.  
#PartiuViver?



JOÃO BORGES

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

AS LÁGRIMAS QUE NÃO PUDE ENXUGAR



Aquela quinta-feira era especial. Naquela noite era o lançamento do meu mais novo livro. Meses de trabalho, semanas de preparação e analgésicos de perder a conta por causa das frequentes dores de cabeça. O corre-corre era tão intenso, que os dias que antecederam o evento pareciam pequenos. Faltavam horas.

Naquela quinta eu resolvi desacelerar. Cumprir alguns poucos compromissos para pensar um pouco mais num ser que eu estava deixando de lado: eu mesmo.

No final da manhã fui visitar um amigo. Ele havia me convidado para uma entrevista numa rádio local para conversar sobre o livro. Ao chegar na emissora, me apresentou todo o estúdio, os colegas e a estrutura de trabalho. Numa das salas estava Ela. Veio ao meu encontro com um sorriso irresistível e iluminado, mas tinha algo a mais. Diferente. Me cumprimentou e deu um beijo no rosto. Confesso que aquele sorriso ficou gravado na minha mente durante todo o tempo da visita.

Fui levado ao estúdio para a entrevista. A sala era relativamente pequena. Uma janela de vidro permitia que as pessoas acompanhassem a dinâmica da programação sem que os ruídos externos interferissem. De dentro do estúdio pude perceber algumas pessoas vendo a entrevista através da janela. Uma delas era Ela.

Após a entrevista, meu amigo me levou até a recepção. Deixei convites para que a equipe pudesse comparecer ao lançamento do livro, agradeci a oportunidade e despedi-me.

A grande noite havia chegado. Minha ansiedade só não era maior que a vontade da gerente da editora querer me estrangular. Eu deixei a equipe dela pilhada. Pedi cadeiras adicionais, mudei o lugar do cerimonialista umas trinta vezes, pedi repetidas conferências na lista de convidados, enfim. Virei o lugar do avesso com pouca necessidade e muita ansiedade.

Aos poucos os convidados iam chegando. Os lugares, sendo preenchidos. Ainda bem que pedi cadeiras adicionais. Entre as pessoas que vieram estava Ela. O sorriso, marcante, completava natural e perfeitamente aquele rosto bem construído por mãos divinas. Mas aquele olhar... eu ainda precisava entender aquele olhar.

Durante a cerimônia meus olhos percorriam a plateia, mas era impossível resistir ao magnetismo da presença dela. Eram aproximadamente trezentas pessoas, mas Ela se destacava naquela pequena multidão.

Ao final foram cumprimentos, fotos, dedicatórias, bate papo, descontração e muita energia boa. Ela ficou até o final. Trocamos telefone. A partir dali passamos a conversar todos os dias. Nos encontrávamos com certa frequência. Nossas conversas fluíam naturalmente. Não encontrava meios de conseguir resistir ao sorriso. Era de tirar do chão. Mas aquele olhar...

Num desses encontros disparei: “preciso entender: quantas lágrimas estão escondidas atrás desse olhar?”. Ela, sem rodeios, devolveu o tiro: “...todas as que derramei sem que você pudesse enxugar”.

Todas as dores, medos e incertezas estavam ali, quase imperceptíveis. O sorriso iluminado que ofuscava e guardava sentimentos que desejavam sair. Um olhar misterioso que escondia um grito inaudível. Quantas lágrimas escorreram da alma, sem o mínimo de percepção aos olhos? Quantos gritos foram dados sem que chegassem aos ouvidos da ajuda?

Ela, agora confiante, despia a alma completamente. Enquanto ouvia, também entendia o encanto que Ela era capaz de produzir.

Mas aquele olhar... não era mais necessário entender ou buscar explicações. O mistério deu lugar à leveza.

Não pude enxugar todas as suas lágrimas, mas somente até ali. Desde então vejo brilho, e não são de lágrimas.

João Borges

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A PARTIR DALI, OS DETALHES...



Ainda lembro daquela noite. Era uma sexta-feira. Chovia forte e eu voltava para casa depois de ter encontrado com amigos para comemorar o aniversário de um deles. O trajeto era longo. Minha casa ficava no outro lado da cidade. Por causa do horário e volume de chuva, resolvi traçar uma rota maior, porém mais segura. Meu plano furou. De nada adiantou desviar o caminho. A impressão era que todos os motoristas da cidade resolveram fazer o mesmo percurso, no mesmo horário. Eu já estava preparado para encarar um longo período de tempo até chegar em casa, mas nada comparado ao que aconteceu naquela ocasião.

Entrei numa alameda que me levaria a uma avenida, cerca de dez quadras adiante. O trânsito pesado colaborou para que a alameda estivesse movimentada. Os carros moviam-se lentamente. Num dos pontos de tráfego parado, avistei um carro mal estacionado, com duas rodas sobre a calçada e as outras duas rodas na rua. O sinal de alerta estava ligado e por causa das luzes dos carros, era possível notar a silhueta de uma pessoa no interior do veículo. Enquanto estava parado, fiquei observando aquele carro. O contexto sinalizava que a pessoa precisava de ajuda. Percebi a movimentação no interior daquele carro. Ela mexia intensamente os braços, enquanto parecia falar ao telefone. Na lentidão do trânsito, meu carro foi chegando mais próximo. A curiosidade foi mais forte e me levou a estacionar logo a frente daquele carro. Para igualar o padrão mal estacionado, subi duas rodas na calçada. A chuva não dava tréguas. Mal dava para identificar o veículo de trás através do espelho retrovisor do meu carro. Criei coragem e saí naquela tempestade, sem ao menos saber se a pessoa realmente precisava de ajuda. Corri até o carro de trás e bati no vidro da janela do motorista. Sem guarda-chuva, eu estava ali, de pé, com uma mistura de alguém disposto a ajudar e, ao mesmo tempo, louco pra fugir daquele banho de chuva. De repente, uma frestinha da janela foi aberta e uma voz feminina se fez ouvir. A fresta era suficiente apenas para facilitar a comunicação e dificultar a entrada da chuva, porém na realidade dificultava a comunicação e facilitava a entrada de água no carro. Ali fora encharcado até os ossos e aproveitando a oportunidade, perguntei se precisava de ajuda. Não sei se por compaixão ou necessidade, a dona daquela voz feminina resolveu abrir e porta e sair do carro. Ela, prevenida, diferente de mim, abriu um guarda-chuva. A partir dali todos os detalhes não me escapam. As luzes dos carros que lentamente passavam, ajudavam a identificar alguns detalhes importantes. Aquele olhar misto de medo e alívio, um leve sorriso que denunciavam as covinhas que se formavam no rosto bem delineado, de pele clara e suave. Aquela mulher, cuidadosamente esculpida pelas mãos divinas estava ali, na minha frente, precisando de alguém que pudesse lhe tirar daquele lugar. Ela vestia uma camiseta preta, bem ajustada ao corpo, e saia jeans. O aspecto despojado não combinava com o contexto do momento. Procurei saber o que estava acontecendo e o que ela precisava. Ela me explicou sobre um suposto problema mecânica em seu carro e estava tentando chamar o seguro. Pelo aparente nervosismo, não havia conseguido contato. Por sorte, meu carro havia saído recentemente da revisão e o cartão de visitas do mecânico, ainda estava no junto ao painel. Corri para buscar o cartão, na esperança que o sujeito pudesse atender. A expressão facial ainda não tinha alterado. Misturava medo e alívio. Medo por não saber se eu poderia ajudar ou tramar alguma armadilha. Alívio por alguém estar disposto a sair na chuva, num lugar movimentado, para ajudá-la. O mecânico demorou um pouco, mas atendeu minha ligação. Ele não estava distante, mas iria demorar um pouco por causa do trânsito. A espera foi a senha para puxar conversa e tentar conhecer um pouco daquela linda mulher. Tentativa em vão. Poucas palavras trocadas, alguns sorrisos para tentar quebrar o gelo. Atitudes que tinham o objetivo de acalmá-la. 

Ficamos embaixo de uma marquise não muito longe dos carros mal estacionados. Sem muita demora, o mecânico chegou. Conversou um pouco com Ela para tentar diagnosticar o problema. Abriu o capô, olhou aqui, mexeu ali, e decretou: “Soltou essa mangueirinha aqui, ó. Simples de resolver. A abraçadeira de pressão escapou e a mangueira de alimentação do combustível soltou. Tenta ligar, por favor”. Como um passe de mágica, o motor ligou. Problema resolvido. Perguntei ao mecânico, quanto custaria aquele serviço. “Nada não! Estava aqui perto. Ainda bem que foi simples”. Com gratidão, dei a ele uma boa gorjeta e dispensei-o. Com expressão mais leve, Ela veio em minha direção e perguntou se havia alguma forma de recompensar-me. Disse que aceitaria um café, mas teria que ser naquele momento. Mesmo encharcado, não abriria mão de estar um pouco mais com Ela. Surpreendentemente ela aceitou o convite, mas com uma condição: de estarmos juntos em roupas secas, num lugar calmo. Ousado e de modo totalmente inusitado, convidei-a para me acompanhar até a minha casa. Lá eu poderia tomar um banho, trocar de roupa e acompanha-la. De presente, recebi um sorriso iluminado. Ela entrou no carro e seguiu atrás de mim. Entramos no apartamento e deixei-a a vontade enquanto eu corria apressado até o chuveiro. Tomei um merecido banho quente. Ela, na sala, passeava o olhar por alguns quadros e observava a decoração. Sem demorar muito, apareci pronto para sairmos. Na rua não foi possível, mas ali foi perceptível a fragrância suave do perfume. Pude notar outros detalhes dela, que a escuridão da noite insistiu me ocultar. Seus olhos castanhos, seus cabelos lisos que escorriam pelos ombros, ondulando levemente nas pontas; seu corpo bem torneado, sensual e proporcionalmente distribuído. Um conjunto deliciosamente provocante, que aliciava meus pensamentos.

Ela deixou seu carro na garagem e fomos no meu carro até um Coffee Shop. Lá pudemos explorar nossas histórias. Ela, vinda de longe, estava na cidade a pouco tempo. A empresa que trabalha, a transferiu para cá e ainda estava “caçando” apartamento. Sorte minha, pensei.

Nosso papo fluiu leve. Às vezes, passávamos a linha do trivial. Viajamos entre o frívolo e o culto. Sem perceber, as horas passaram rapidamente. A chuva, lá fora, caía solta e vigorosa.

Na saída do Coffee Shop, nos aproximamos para ficar embaixo do mesmo guarda-chuva, Ela passou seu braço direito pela minha cintura, abraçando. Meu braço esquerdo envolveu suas costas e minha mão chegou em sua cintura. Levei-a até o carro, abri a porta do carona e Ela não entrou. Estranhei, mas ainda debaixo do guarda-chuva ela ficou de frente para mim, passou seus braços pelo meu pescoço e ficamos frente a frente. Olhos nos olhos, bocas muito próximas. Palavras ditas apenas com troca de olhares. Desejos dilatando os poros da pele. Um beijo. Numa hora estávamos entrando no carro. Em outra, compartilhando o mesmo espaço, envolvidos na sala do meu apartamento. Da superficialidade desconhecida, passamos ao profundo do íntimo compartilhado a dois. A partir dali os detalhes foram eternizados.

Dos minutos de trânsito entre uma festa de aniversário e minha casa a horas de ousadia e entrega entre chuva e um café.

Assim Ela entrou em minha vida, e assim ainda permanece.


João Borges
Joinville/SC

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

AS DIFICULDADES SÃO COMO AS MONTANHAS. ELAS SÓ SE APLAINAM QUANDO...


Não são poucas as vezes em que nos vemos em situações onde a saída parece impossível. Que atire a primeira pedra, quem nunca passou por dúvidas diante de decisões importantes a serem tomadas. É incrível perceber as vendas nos olhos quando o problema é do outro. Mais incrível ainda é não tirar as próprias vendas, pois não as percebemos.

Viver um turbilhão é um processo que muitas vezes dói na alma. Os problemas parecem apenas crescer, os possíveis caminhos se multiplicam, gerando confusão e incerteza. Entretanto cabe aqui um provérbio japonês que diz: “as dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam avançando sobre elas”.

Desistir não é o caminho. Encarar o problema com força e coragem, utilizando-se de alguma ousadia e criatividade, apesar de parecer clichê, é a receita para que o provérbio se faça realidade. As dificuldades na caminhada da montanha são os problemas da vida, entretanto o objetivo não é ficar no meio do caminho, não é mesmo? Então, o que estamos esperando?

Uma dica: não suba a montanha sozinho ou sozinha. Andar é por sua conta, depende exclusivamente de você. Resolver seus problemas também. Contudo, fica mais fácil quando temos pessoas que realmente nos ajudam a subir, incentivam a caminhar, dão luz onde tudo parece uma grande nuvem escura. A vida fica mais leve quando sabemos dividir o peso, equilibrar as decisões. É a louca matemática da vida, onde o exato é, na realidade, inexato. Onde o dividir significa multiplicar. Onde erros, absortos, se convertem em lições e crescimento. Cabe a nós o cuidado de escolher as pessoas certas, para fazer parte dessa aventura, chamada vida. 

No livro Nove Meses e Quarenta Minutos, a personagem Amanda, desde sua infância, aprende com as dificuldades que sua existência lhe apresenta. Dessas que todos nós passamos e que fazem parte do processo natural de amadurecimento. Ela vive num ambiente familiar tido como o ideal, ainda assim as dificuldades insistem em fazer parte de sua vida. Até aqui tudo muito normal. Até demais, alguns poderão dizer. Mas o que fazer quando o problema envolve vida e morte? Para onde ir, quando uma decisão pode dar fim a própria vida? É, aparentemente o topo dessa montanha ainda não foi atingido. Existe mais um desafio a ser vencido, mais uma batalha, mais uma guerra, mais, e mais, e mais... Que bom que ela não subiu a montanha sozinha.

O texto apresentado no livro, leva a essas – e outras – reflexões. Subir a montanha é difícil. É uma tarefa árdua e complicada. Exige coragem, apesar de todos os medos. Exige força, apesar de todas as fraquezas. Exige decisão, apesar de todas as incertezas e dúvidas. No fim, um resultado: a certeza da transformação.
Ninguém é o mesmo depois que passa por algum tipo de dificuldade. Cabe a nós decidir o que pretendemos fazer com a oportunidade do aprendizado. Lamentar o problema e frear própria história ou olhar adiante e crescer?

Sempre em frente...


João Borges

Escritor – Joinville/SC

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

SIM, NÓS TEMOS ESCOLHA.


Tenho acompanhado uma discussão nas redes sociais no que se refere ao aborto.

Será que minha visão das coisas anda tão deturpada assim? Ou será que as pessoas, no calor do debate, acabam se perdendo nos trilhos do assunto e acabam descarrilando os mais diversos vagões carregados com os mais variados tipos de ideias? – algumas delas sem o menor sentido.

Precisamos parar e analisar alguns pontos. Percebo que nessa discussão - e em outras pode se aplicar o mesmo - estamos errando em dois pontos fundamentais

O primeiro é nossa postura diante do contraditório. Virou moda destilar veneno, armar-se de ódio, unhas, dentes, punhal, revólver e algumas outras armas, para entrar num debate. 

No nosso processo evolutivo, retrocedemos e resolvemos à moda antiga, dando ares de inspiração nos filmes de “velho oeste”.

Um segundo ponto, não menos importante, é a mistura que está sendo feita diante de um assunto tão complexo, neste caso, o aborto.

Tudo começa com um PEC (Projeto de Emenda à Constituição), que criminaliza o aborto, incluindo os casos atualmente permitidos.

Sinceramente, a discussão começa muito antes de qualquer lei instituída. Pela escolha, ou não, a pena já é dada pela própria vida.

Uma das coisas que aprendi com meus pais é: “não faça com os outros, aquilo que não quer que faça com você”. Parece clichê, não é mesmo? Sim, e muito. Entretanto, se ampliarmos o contexto ao que essa frase clichê pode ser aplicada, podemos nos surpreender.

Vamos inverter a receita dos meus pais? Que tal fazermos para os outros o mesmo que queiramos que seja feito a nós?

Considerando os debates sobre aborto em caso de estupro, tônica da atual discussão, pergunto: a quem queremos punir? Estaremos resolvendo o problema com a execução de um aborto? Você, que defende o “direito” ao aborto, pode até argumentar sobre o direito da mulher em relação ao seu corpo, sobre os traumas decorrentes disso, enfim. Posso dizer que em nenhum de seus argumentos, o bebê terá culpa. E mesmo assim, está sendo sentenciado a morte por algo que ele não cometeu. Ao culpado pelo crime de estupro, que seja aplicada a pena. Esse sim deve pagar (e muito) pelo que fez. Ao bebê, infeliz inocente, deve ser dada a pena capital por estar no lugar errado e na hora errada? Mais um número nessa guerra informal.

Outra coisa que você, defensor(a) do “direito” ao aborto, pode dizer é: “é fácil falar tudo isso sendo homem, quando você passa por nada disso”. Confesso que ouvir ou ler isso me fere profundamente. Fere na dignidade de pessoa, de pai, de ser humano. De fato, não posso engravidar, sentir o movimento de um ser dentro de mim, amamentar ou viver qualquer momento próprio da mulher. Mas posso defende-lo. E vou. Dentro do corpo de uma mulher grávida, pode ter outra mulher que terá seus direitos defendidos. Poderá ter o corpo de um homem, que poderá ser educado para ajudar a defender esses mesmos direitos.

Não quero discutir ou tirar direito algum sobre o corpo da mulher. Não tenho esse direito. Ninguém tem. Porém, estamos discutindo os direitos que devem ser mantidos sobre outro corpo que se desenvolve dentro da mulher. Também não devem ser tirados. Não temos esse direito. Ninguém tem.

Num estupro, a mulher fica dilacerada em sua dignidade física e psicológica. Num aborto, também. Alguns motivos que podem fazer do aborto uma escolha podem ser: olhar a criança e lembrar da ferida, ter um filho não planejado – ainda mais, decorrente de uma violência, enfim. Pois bem, optando pelo aborto, a mulher terá duas feridas para tratar: o estupro e o aborto. Será que abortar é a saída menos traumática, já que traumas existirão de uma forma ou outra?

Efeitos psicológicos (e por vezes, físicos) precisarão de atenção especial, independente da escolha. Não há como fugir disso.


Sigo em frente, defendendo o direito a dignidade e a vida com a receita simples dos meus pais. Não quero para outros, o que não quero que façam para mim.


João Borges
Escritor - Joinville/SC

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

AS MELHORES COISAS DA VIDA SÃO GRATUITAS



Recentemente participei de uma Bienal do Livro em Pernambuco. Uma experiência maravilhosa, em muitos sentidos.

Sem patrocínios ou dinheiro para participar do evento, organizei uma campanha para vender meu livro, publicado em março deste ano (2017), sendo que a renda gerada serviria para arcar com os custos de tudo: passagem, hospedagem, estande, deslocamentos, envio de material para o evento e alimentação. Era um projeto ousado. Seria necessária a venda de, pelo menos, cem exemplares do livro para que o projeto fosse viável. Minha preocupação era estritamente financeira, já que a motivação para viver o clima da Bienal era muito elevada.

No âmbito pessoal, vivo um caos. Desempregado, tenho nas vendas eventuais do mesmo livro a única fonte de renda para me manter. Quem é autor independente sabe bem do que estou falando. Para quem não é autor independente, tente imaginar a certeza de suas contas vencendo, sem a certeza de que terá os recursos suficientes para paga-los.

Campanha montada, era hora de começar a fazer contatos, divulgar e espalhar a notícia. Tinha pouco mais de um mês para levantar recursos suficientes. Passei muitas horas nessa empreitada. Sacrifiquei um bom tempo para estar com meus filhos, acompanhar atividades deles, escrever o novo livro, enfim. Todo o esforço era necessário e concentrado para que o sonho de participar da Bienal de Pernambuco fosse realizado. Ainda, o dinheiro era a maior preocupação.

Os dias foram passando, os exemplares eram vendidos e os recursos iam sendo arrecadados. Infelizmente, ao final da campanha, não consegui chegar na meta. Na verdade, fiquei bem longe de atingir o objetivo, porém não me dei por vencido. Refiz os cálculos, retirei bagagem, fiz opções ainda mais baratas das que já tinha feito anteriormente. Ainda assim o arrecadado não era suficiente. Uma decisão era necessária: desistir era uma; seguir viagem, apresentar o trabalho e com o resultado das vendas na Bienal cobrir o que ainda faltava, era a outra.

Mais uma vez, ousadia. Decidi seguir viagem, porém a preocupação financeira ainda insistia em martelar a cabeça. Deixei para trás os abraços, beijos e sorrisos carinhosos dos filhos para partir rumo ao sonho.
Viagem realizada, troca de experiência com leitores e outros escritores, alguns livros vendidos e a certeza de que tudo o que havia feito anteriormente, não tinha sido em vão.

Resultado financeiro? Não obtive. Os livros vendidos antes e durante a Bienal não foram suficientes para que os custos fossem cobertos. O financeiro ainda está martelando a cabeça. Se antes estava difícil, agora está mais.

Ainda assim existem as compensações. Ao retornar da viagem, recebo os melhores presentes do mundo. Cheguei em casa e meus filhos ainda não tinham vindo da escola. Fiquei esperando dentro do carro. Quando ao longe me avistaram, saíram correndo e me deram os abraços, beijos e sorrisos mais sinceros que poderiam existir. Ah, aquele carinho todo. É capaz de afogar todas as preocupações numa fração de segundo. Não que esteja sendo relapso com as obrigações que ainda restam. Longe disso. Mas aquele momento não poderia - nem deveria - ser dispensado. É único, verdadeiro, arrebatador. Daqueles que te arrastam de uma tormenta e carregam a um lugar seguro. 
É o tipo de gesto que não tem preço, é gratuito, mas tem um valor imensurável.


De tudo o que o dinheiro pôde pagar, das experiências vividas, e daquilo que ainda precisa ser pago, o melhor ainda é gratuito. 


João Borges, escritor.
Joinville/SC

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

“PAI, QUANTAS FORMIGAS EXISTEM NO MUNDO?...”

“A força não provém da capacidade física. Provém de uma vontade indomável” (M. Gandhi)

Quando percebemos o que temos guardado dentro de nós, nos surpreendemos. Isso é fato.

Encontramos determinadas situações em nossa vida que nos levam a questionar o quanto somos merecedores daquilo, porque tanto sofrimento, se vamos conseguir superar tantas adversidades,... São tantos os questionamentos, que acabamos sufocando o que realmente é importante.

Tenho muitas lembranças carinhosas do meu pai adotivo. Uma delas foi quando ele participou de um programa chamado “Olha o Peixe”. Não vem ao caso explicar a dinâmica do programa, mas sim as caminhadas que fazíamos entre nossa casa e o galpão da igreja onde era realizado esse trabalho.

Lembro das inúmeras perguntas que fazia, muitas delas sem muito sentido, assim como qualquer criança o faz quando quer puxar assunto com seu pai ou sua mãe, nem que seja para saber quantas formigas existem no mundo, ou se ele já tentou contar quantas estrelas existem no céu. Meu pai, pessoa de origem humilde e praticamente sem formação escolar, dotado de uma paciência que parecia não ter fim, tentava me explicar, ao seu jeito, que algumas perguntas não haviam respostas exatas. Eu mal sabia que aquele homem de cabelos grisalhos, olhos azuis e pele marcada pelo trabalho duro da roça, passava por momentos muito difíceis. Talvez ele não tenha conseguido sair dos problemas da maneira como gostaria, mas não foi por falta de vontade, muito menos por falta de força. De fato, a vida nos faz perguntas sem respostas exatas, não é mesmo?

Meu pai não deixou herança material. Isso me ensinou que o “ter” é passageiro. Entretanto, deixou o melhor legado que eu poderia receber: a vontade indomável de descobrir que sou forte e capaz de realizar coisas surpreendentes. Isso ensina que o “ser” é importante e duradouro.

Que eu tenha sabedoria suficiente para ensinar aos meus filhos sobre as dificuldades que a nossa existência enfrenta e que, apesar de algumas vezes não termos respostas exatas, somos dotados de vontades indomáveis e capazes de transformar.

Preciso fazer caminhadas com meus filhos e tentar responder as inúmeras perguntas deles, mesmo que sejam sem muito sentido...

João Borges – Escritor

Joinville/SC

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A CORAGEM PARA ENFRENTAR OS PRÓPRIOS MEDOS

Costumo dizer que a fronteira da decisão é o medo. Quando temos medo, somos impedidos de dar um passo a mais para ultrapassar a fronteira e verificar o que há logo em seguida.
Mas por que temos medo? Seria, por acaso, pura e simplesmente um processo químico que alimenta nosso cérebro em situações de tensão, desencadeando reações físicas como aceleração dos batimentos cardíacos, tensões musculares e aumento da frequência respiratória? Seria, ainda, uma forma natural de autoproteção em situações de perigo iminente? Poderia, quem sabe, ser uma mistura complexa de autoproteção aliado ao processo químico, fazendo uma junção das duas primeiras hipóteses.
A verdade é que não podemos ser precisos, pois cada pessoa reage de forma diferente as mais diversas situações de stress, gerando medo. A intensidade na sensação de medo pode ser maior ou menor não apenas pelo problema em si, mas também pela forma de encarar tal problema.
O inverso do medo é a coragem. Se estabelecermos um gráfico e nele colocarmos juntos o medo e a coragem, somados numa escala de zero a cem, onde seus tamanhos são valorizados de forma a facilitar a visualização, chegaríamos a uma conclusão comum: só teremos condições de enfrentar nossos medos a partir do momento em que a escala de coragem for maior que 50% em relação a escala do medo.
No livro NOVE MESES E QUARENTA MINUTOS, a psicóloga Amanda passa, desde sua infância, por situações que normalmente geram medo e certa insegurança: a perda de uma grande amiga, um assalto que acaba por influenciar na saúde de seu pai, a abnegação de sua mãe a própria vida em favor as necessidades dos seus, o término do seu namoro de forma inesperada e, finalmente, já adulta, por uma gestação de altíssimo risco a qual coloca sua própria vida “em xeque”. Com um diagnóstico prévio que a autorizava legalmente pela opção do aborto assistido, Amanda e seu esposo deveriam tomar uma decisão. Estavam diante de uma situação a qual a fronteira era o medo. O que viria após a decisão, independente se optando pelo aborto assistido ou não? O tamanho da coragem do casal é o destino final dessa emocionante história.
Importante salientar que para a tomada de uma decisão tão importante é necessário que se tenha responsabilidade, liberdade e, sobretudo, a saúde mental bem cuidada. Pessoas com sinais de ansiedade, depressão, ou qualquer outro transtorno psicológico importante, precisam de acompanhamento de profissionais especializados, para que a tomada de decisão não seja comprometida.
Ter coragem não significa não ter medo, mas agir de forma que o medo não impeça de seguir adiante. E para conhecer o que vem logo após a fronteira, é necessário dar um passo a mais.  Ter medo é natural, entretanto é salutar que o indivíduo desenvolva, com devido acompanhamento, sua capacidade de resiliência para que os processos advindos de insegurança e medo não se tornem traumas.
Sempre em frente... Sigamos!
João Borges
Escritor – Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...