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sexta-feira, 13 de agosto de 2021

FREQUÊNCIA

 


Eu tinha acabado de sair de uma reunião quando o celular vibrou no meu bolso. Era uma notificação de mensagem. Enquanto alcançava o celular, minha mente pedia que fosse alguma coisa dela. No lábio, meu sorriso discreto denunciava o quão satisfeito eu ficava toda vez que ela fazia qualquer tipo de contato. Não deu outra. “Antes de vir pra casa passei na Adega e comprei um vinho. Acho que você vai gostar”. Não era aniversário ou qualquer outra data comemorativa. Tínhamos o hábito de celebrar qualquer coisa, por mais simples que fosse. E nem sempre precisava de uma bebida especial. Bastava que estivéssemos juntos.

Lembro de uma vez em que eu quebrei o braço. Era uma noite chuvosa e estávamos voltando do hospital. No caminho, o pneu do carro furou e não havia ninguém na rua que pudesse nos ajudar. Ela, em toda sua vida, nunca havia trocado um pneu furado e aconteceu naquele momento, o mais inapropriado possível. Fomos à luta. Com um braço engessado e ainda sentindo um pouco de dor, virei ajudante. Não conseguiria fazer muito. Com esforço e alguma orientação, ela conseguiu fazer a troca. O resultado foi dois corpos completamente molhados e sujos, um gesso estragado e um pneu trocado. Sucesso total! Não havia vinho, mas havia uma garrafinha de água mineral, ainda na sacola de supermercado, no banco de trás do carro. Com a satisfação do dever cumprido, brindamos com meio litro de água,  antes, claro, de voltar ao hospital para trocar o gesso. Isso ilustra como qualquer coisa era motivo pra comemorar. O motivo era estarmos juntos em tudo.

Tão bom quando encontramos a pessoa em que “o santo bate”. Sentimos a mesma frequência desde o primeiro dia. Nos encontramos num momento da vida em que ambos tinham passado por um reencontro em si mesmos. Antes disso, cada qual viveu seus perrengues pessoais. Sofreram por quem não merecia tanto. Derramaram lágrimas e depois se arrependeram. Enfim, aqueles momentos que fazemos o possível para tirar da memória, mas que foram importantes para chegar ao que somos. Depois dos tropeços, enxergaram que quem merecia atenção e carinho eram eles mesmos, cada um em si. E quando encontramos esse ponto de equilíbrio fundamental, aprendemos que outra pessoa na mesma vibe virá naturalmente.

O sorriso no canto da minha boca ainda estava lá. Não via a hora de chegar em casa. Restava saber qual o motivo da nossa comemoração, além de estar novamente juntos.

 

JOTA B


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

POR TRÁS DO ESPELHO

 


Quando eu a conheci, ela tinha saído de um relacionamento de vários anos. Carregava marcas evidentes de uma relação não saudável. Não era difícil notar que ela estranhava a atenção que eu dava. Gestos de carinho eram confundidos com “golpe”. Apesar da nitidez do envolvimento, a sensação de medo a rondava e, de certa forma, causava aquela confusão de não saber como pensar ou agir. A consequência era algum distanciamento. Pessoas assim ficam tão “cascudas”, que resistem em receber gestos genuínos de carinho. Infelizmente ela não havia sido acostumada com a generosidade.

Apesar disso, havia sorriso nela. Os lábios expressavam fagulhas momentâneas de uma sede imensa de felicidade. As vezes algumas frases soltas do tipo “você me faz bem” mostravam que ela estava dedicada a tentar mudar uma história de algumas escolhas infelizes. Como era bom ouvir ela dizer “Eu estava aqui pensando...”. Era a certeza de que ela queria minha companhia. E era muito bom quando isso era possível. Qualquer programa, por mais simples que fosse, me fazia sentir realizado. No fundo... bem no fundo, talvez o meu jeito de ser tenha se aproximado de um ideal que ela esperava em alguém. Não que eu fosse o cara perfeito, mas somando minhas imperfeições e colocando-as na balança, minhas qualidades poderiam ter um peso maior e que chamaram a atenção, de alguma forma.

Tudo isso me faz pensar a respeito das intenções dentro de um relacionamento. Como alguém ainda é capaz se supor uma relação baseada na dependência, seja ela qual tipo for? Como ainda existem pessoas que entendem a submissão, as vezes análoga a uma hierarquização quase militar, como uma forma de construir um “casamento”?

Relação boa é troca saudável. Respeito é indispensável e não se negocia. Reciprocidade não é toma lá, dá cá, mas uma gratuidade natural dada sem muito esforço. Leveza é uma busca que não pode ser deixada de lado. Carinho é um presente que precisa ser genuíno, verdadeiro. Enquanto existirem pessoas que não acreditam nessa pequena via e que preferem o caminho dos abusos velados, teremos filas nas portas dos consultórios de psicologia e infelizmente não será por terapia preventiva.

Ame e respeite a pessoa que está ao seu lado. Ali tem uma história de vida que ainda acredita. Não seja a pessoa que vai ajudar na construção de uma sociedade de pessoas transtornadas com relacionamentos de mentira ou que sobrevive apenas de aparências.

 

JOTA B


quarta-feira, 10 de março de 2021

QUERO DIZER

 


Saudade sua. De tanto calor e da falta que você faz. Transpira quando estamos juntos, respira fundo quando a distância ajuda a apertar a dor.

Amor amarra. Com corda ou sem corda, com laço ou algum nó. Por isso posso afirmar o quanto estou amarradão em você.

Liberdade é presente. Sem fitas ou embalagens. Nua e crua. É agora, sem esperar demais.

Reciprocidade é preciso. Tão necessário quanto acertar precisamente no centro do alvo.

Respeito é o mínimo. Nem precisa de microscópio, porque é a maior das virtudes.

Você é o máximo. Porque, no mínimo, encontrei um infinito.

 

JOTA B


terça-feira, 9 de março de 2021

NADA MENOS


Você merece alguém que saiba caminhar ao seu lado. Que entenda suas lágrimas e encontre a melhor hora para enxugá-las.

Você merece uma pessoa que te dê motivos para sorrir. Que saiba ouvir o seu dia e comemore desde as coisas mais simples.

Você merece alguém que fale de você como se descobrisse uma mina de ouro por dia. Que se encante com quem você é, e não apenas com o que tem a oferecer.

Merece uma pessoa que te valoriza e ajuda a se reencontrar quando se sentir perdida.

Você merece quem não queira te subjugar, mas constituir reciprocidades.

Você não merece menos que alguém que saiba navegar nas suas tempestades e percebendo que você não é uma pessoa fácil, não fuja na primeira viagem.

Que tope suas loucuras e registre cada momento como se fosse o último da vida.

Um ser que entre em seu universo, mas não queira tomar posse dele. Que respeite seu espaço e não ameace sua liberdade.

Não precisa ser alguém perfeito, porque isso não existe. Precisa que enxergue a beleza nas imperfeições e saiba amar sua pior versão.

Quem ama seu pior, consegue eternizar o seu melhor.

 

JOTA B


 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

TE DESEJO

 



Te desejo paz e tranquilidade.

Te desejo a humanidade de um amor divino.

Desejo que encontre alguém que saiba te dar prioridade. Que queira ficar, ainda que tenha muitos outros lugares para onde ir. 

Te desejo o desejo. E alguém que também te deseja.

Te desejo alguém que te respeite. Que entenda seu mar calmo e suas tormentas. E ainda que seja difícil, não desista de navegar nesta imensidão que é você.

Te desejo alguém que dê valor aos seus sonhos. Que te incentive e reconheça a sua essência.

Te desejo amor. E que ele seja verdadeiro e recíproco.

Te desejo aventuras loucas e profundas. Momentos intensos e memórias eternas.

Te desejo respiração calma e coração acelerado.

Te desejo. 

Porque você merece. 

Nós merecemos.

 

JOTA B


terça-feira, 25 de agosto de 2020

SONHO REALIZADO

 



O que poderia acontecer de inusitado numa viagem de volta pra casa, depois de um dia incrível de trabalho? Você poderá ter diversas respostas na ponta da língua, afinal imprevistos acontecem em qualquer viagem. Eu não esqueço aquele fim de tarde de quinta-feira, que me presenteou com o melhor inusitado da vida.


Meu trabalho exige que eu viaje com certa frequência. E isso é uma das coisas que gosto na minha atividade. Dirigir me faz bem. Eu consigo ter ideias novas, sair da mesmice, montar estratégias, ser criativo e prestar atenção na estrada.


Na quarta-feira eu já estava me preparando. No dia seguinte eu teria uma reunião importante numa cidade próxima. Fechar negócio era questão de honra e eu estava muito motivado. Seria o resultado de quase seis meses de negociações e eu estava muito perto do objetivo. Entre a minha cidade e o local da reunião existem lugares que eu frequentemente vou para acampar ou fazer trilhas, ou seja, era um caminho absolutamente conhecido.


Banho, café da manhã gostoso, casa organizada, documentos na bolsa, computador, carregador de bateria, celular carregado, apresentação finalizada, playlist para ouvir no caminho, carro abastecido; sapato, calça jeans, cinto, camisa, blazer e meias separadas.

Check list finalizado na quinta-feira de manhã. Hora de me vestir e botar o pé na estrada. Meu dia estaria só começando.


A viagem foi fantástica. O cenário que se via pelo caminho trazia muita paz. Os olhos se perdiam pela beleza da natureza horizonte afora. Não é à toa que aquela região era uma das preferidas para meus momentos de descompressão. O dia ensolarado, o pouco movimento de carros e caminhões na estrada ajudavam no meu processo criativo, enquanto dirigia. Num dos pontos da viagem, passei pela entrada de uma estradinha de terra. Lembrei das vezes que a utilizei para chegar aos melhores pontos de acampamento no meio da mata. Ao passar, tive uma ideia. Se o negócio fosse fechado, minha comemoração seria naquele fim de semana, montando acampamento e curtindo a natureza.


Passei a manhã em reunião com a equipe técnica do cliente. No período da tarde, com a diretoria deles. A apresentação foi melhor do que eu esperava e o resultado não poderia ter sido outro: eu consegui. Saí da fábrica com uma sensação indescritível de vitória.


Voltei para o carro com sorriso largo. Precisava voltar pra casa sem deixar que a euforia tomasse conta e acabasse tirando a atenção que precisava no trajeto da volta.


A viagem de retorno estava tranquila até chegar na entrada daquela estradinha. Ali tinha um carro parado com porta malas aberto. Três senhoras idosas se colocaram na beira da estrada para pedir ajuda. Diminuí a velocidade, passei por elas e percebi que realmente era necessário parar. Voltei com cuidado e parei meu carro próximo ao delas. Junto com as três senhoras havia outra mulher. Essa era mais jovem e que se esforçava para resolver o suposto problema. Saí do carro e perguntei de que forma eu poderia ajudá-las. “O pneu furou, meu filho”, disse uma das senhoras. “Minha neta disse que trocaria, mas acho que ela está encontrando dificuldades”, completou. Olhei pra Ela, que me devolveu o olhar acompanhado de um sorriso. “Eu nunca troquei um pneu”, falou meio desconcertada. “Pode deixar que eu troco”. Percebi o ar de alívio enquanto as senhoras trocavam alguns sorrisos marotos como quem diz “quanta gentileza”.


Trocar o pneu não foi difícil. Difícil foi tirar os olhos daquela bela mulher. Enquanto trabalhava, Ela ficou ao meu lado, conversando. Disse que estava voltando de um passeio com a avó e duas amigas dela. Havia levado as três para uma caminhada perto do riacho, que corria ao longo da estradinha de terra. Enquanto ela falava, eu ouvia atentamente cada palavra. Aquela voz era música. Meus olhos intercalavam entre o trabalho e Ela. Como não notar aqueles longos cabelos castanhos claros, quase loiros que, lisos, escorriam pelos ombros e tomavam boa parte das costas? Como ficar indiferente àquele olhar sereno vindo de um par de olhos castanhos escuros, que eram acompanhados de um sorriso que encantava? Como seria possível desviar os olhos daquelas curvas, denunciadas pelo vestido longo que colava ao corpo até a cintura e soltava a imaginação junto com o tecido que a vestia da cintura para baixo? Impossível. Simplesmente impossível.


“Pronto, pneu trocado”. Olhei para as mulheres e percebi o alívio. Todas agradeceram. Ela me deu um beijo no rosto. A vitória daquele dia havia sido acompanhada por uma “vitória coletiva”, quando estendi minha mão para ajudar, mesmo que de forma simples. Retornei pra casa e Ela, as vezes, retornava às lembranças.


Na sexta-feira foi o dia de trabalho e comemoração com a equipe. Combinamos um happy hour no fim do expediente. Minha cabeça já pensava em organizar as coisas para o acampamento. O barulho da comemoração da sexta seria substituído pelo silêncio da natureza no sábado.


Cheguei relativamente cedo do happy hour. Ainda dava tempo de separar os equipamentos e mantimentos para um fim de semana na mata. Tomei um banho, preparei um lanche e fui à luta. Depois de tudo separado, colocado na mochila e levado ao carro, fui para o quarto. Na cama e de olhos fechados tentando dormir, Ela invadia minhas lembranças. Aquela voz ficou gravada de tal maneira que lembrando dela, aos poucos, consegui relaxar até finalmente dormir.


No dia seguinte acordei cedo. Me sentia revigorado pelo bom sono que tive. Tomei um banho, um café reforçado e saí em direção ao acampamento. A mesma estrada foi minha companheira de viagem. Ao passar pela entrada daquela estradinha de terra, não foi difícil lembrar do carro, das três senhoras e Ela. A memória ainda era recente. Seria muito interessante poder encontrar aquela bela mulher novamente.


Chegando ao final da estradinha, estacionei o carro embaixo de uma grande árvore. Todo o trajeto era margeado pelo riacho. O mesmo que Ela levou sua avó e as duas amigas dela. Resolvi montar meu acampamento não muito distante do carro, porém mais próximo ao riacho. O som das águas seria a principal trilha musical daquele fim de semana. A trilha, a partir dali, já era bem conhecida por mim. Daquele local, caminhando uns quinze minutos mata adentro era possível encontrar um lago, que seria meu local de banho. Montei a barraca, separei os mantimentos, preparei o terreno e saí em busca de gravetos, galhos e folhas que me permitissem fazer a manter uma fogueira. Durante minha busca por material, tentava concentrar a atenção nos sons da natureza. O canto dos pássaros, o som das folhas balançando ao vento, as águas que corriam lentas pelo riacho, toda essa orquestra era o início do espetáculo que minha mente esperava para fugir do stress. Misturado a trilha sonora natural, foi possível uma voz feminina, bem ao longe. No primeiro momento estranhei. Não era muito comum visitantes naquele lugar. Levei o material recolhido até a barraca e retornei para tentar encontrar a dona daquela voz. Parei no ponto onde ouvi a voz pela primeira vez para tentar identificar a direção de onde vinha. Parecia vir do lago. Caminhei um pouco mais até encontrar o lago e lá estava. Ela estava completamente nua, misturada as águas cristalinas e frias. Nadava com movimentos lentos e em perfeita harmonia com aquele lugar. A liberdade daquele momento era tanta, que não era difícil confundir a cena com um voo. Era pura poesia que ali nadava.


Eu estava em transe. O mundo havia ficado para trás e eu estava em outra dimensão, quando fui interrompido: “Vem, a água está uma delícia”. Desde o início Ela sabia que eu estava ali, observando. Não se furtou da sua liberdade e ainda me convidou para fazer parte do mundo dela. Tirei minha roupa e entrei no lago. A água estava fria, mas muito boa. Perguntei como ela havia parado naquele lugar. Ela chegou perto de mim sem falar nada, passou seus braços pelo meu pescoço, abraçando-me, e me beijou. Aquele beijo foi um pedido de silêncio. Nada era importante ser dito naquele momento. Ficamos aproveitando o voo nas águas durante um bom tempo, sem falar nada. Apenas ouvindo a orquestra e voando. Dado momento, Ela saiu do lago. As curvas do seu corpo, antes denunciadas pelo vestido longo, agora estavam visíveis sem um tecido que pudesse encorajar qualquer forma de imaginação. Também saí, nos vestimos e caminhamos em direção a estradinha. No caminho, colhi uma flor de um vermelho intenso. Coloquei entre seus cabelos, apoiada na orelha. Disse que havia montado um acampamento e se lhe fosse possível, gostaria que ficasse. Ela aceitou. Conversamos longamente e percebemos algumas afinidades. Ela me explicou como tinha chegado ali. Disse que era um dos seus locais preferidos para caminhada pela mata, além de acampar. E essa era só uma das afinidades que encontramos.

- Cadê seu carro? perguntei.

- Minha vó me trouxe. Noite passada ela teve um sonho. Disse que se eu viesse pra cá, te encontraria.

- Algo mais nesse sonho que é necessário que eu saiba? perguntei.

- Veremos. Disse sorrindo.  


A noite chegou rápida. A luz da lua tentava chegar completa ao chão, mas encontrava resistência das árvores que nos rodeavam. A umidade da mata trouxe uma leve sensação de frio. Fizemos nosso jantar, contamos boas e longas histórias. Entre as conversas triviais, olhares mais profundos. Aos poucos, as conversas foram ficando menos triviais e mais quentes. Nos demos a liberdade de jogar livres, sem restrições. Beijos e carícias foram surgindo. Toques mais intensos nos levaram para dentro da barraca. Ali a noite aconteceu livre. Despimos os corpos e as almas. A entrega foi excitante e completa. Descobrimos as marcas deixadas pela vida, mas levadas pela história. Nossa liberdade nos levou ao um novo voo, desta vez, pela descoberta de nós mesmos. Pele na pele. Poros visivelmente reagentes a cada movimento que fazíamos. Tudo isso temperado com o cheiro do mato e o sabor agradável da pele nua.


A noite passou rápida. “Algo mais nesse sonho?”, perguntei. “Não. Sonho realizado”, respondeu.

 


JOÃO BORGES





sábado, 8 de agosto de 2020

O CORETO DA PRAÇA CENTRAL


Outro dia resolvi fazer minha caminhada de fim de tarde em um lugar diferente, que há muito tempo não visitava. Fui até uma pequena cidade, muito aconchegante e vizinha da cidade onde eu moro. A calma daquele lugar é o contrate perfeito em relação a intensidade da sua vizinha maior. A praça central é dotada de muitas árvores e trilhas pavimentadas, ótimas para caminhadas urbanas. Apesar do tamanho da cidade, a praça central é relativamente ampla. No centro da praça existe um coreto muito bem conservado que, só de olhar, faz a imaginação voltar no tempo, tentando capturar a imagem das bandinhas tocando nas tardes ensolaradas de domingo. Casais bem trajados caminhando lentamente enquanto conversavam. Famílias que se encontravam na praça para assistir as apresentações. Ao redor do coreto, vários bancos e muitos jardins. Cena típica de novelas épicas que nos traz um exercício histórico, saudável para qualquer um.

 

Lembrei que naquela praça, oito anos antes, encontrei Ela pela primeira vez. Estava sentada em um dos bancos ao redor do coreto e conversando com um ex-colega meu, de faculdade. Naquela oportunidade, ao me ver passando, Ethan veio ao meu encontro para me cumprimentar. Apresentou-me sua esposa, Ela, e seus dois filhos. Tivemos uma conversa relativamente rápida, mas muito cordial.

 

Caminhei aproximadamente duas horas entre as trilhas da praça e as ruas da cidade. Para finalizar a caminhada, resolvi subir um morro próximo, onde havia um ponto de observação da cidade. Uma espécie de mirante que tinha uma estrutura de trilha com deck de madeira. De lá era possível observar boa parte da cidade e o olhar se perdia pelo lindo horizonte daquela região. Fui até lá para ver o pôr do sol. Várias pessoas fizeram o mesmo. Sentei-me num dos bancos para descansar e aguardar o espetáculo do astro-rei. Enquanto aguardava, uma doce e encantadora voz feminina se fez ouvir por trás de mim. “Oi! Lembra de mim?”, disse. Virei para trás e tal foi minha surpresa ao ver Ela. “Oi, claro que lembro”, respondi. Percebi que Ela estava só, sem Ethan ou os filhos. “Me admira, depois de tanto tempo você ainda lembrar. Posso sentar ao seu lado?”, perguntou. Acenei positivamente e sentou-se.

 

Ela tem estatura baixa e estava especialmente linda. Pele escura, cabelos pretos, lisos e longos. Olhar penetrante acompanhado de um sorriso singular, expostos por lábios perfeitamente esculpidos. Vestia roupa de academia, colada ao corpo, mostrando que não foram as duas gestações, nem mesmo o tempo que a impediram de ter belas curvas do início ao fim. Ela tinha me visto caminhando na praça e resolveu ir até o mirante também.

 

Perguntei por Ethan e os filhos. Disse havia se divorciado a apenas dois anos e os filhos estavam passando o fim de semana com Ethan. Estava aproveitando para passear e ver o por do sol daquele ponto. A conversa fluiu até o momento em que percebemos que foi necessário o silêncio para apreciar aquele espetáculo. Aos poucos, o crepúsculo chegava. A luz do dia era substituída pelo escuro da noite. As pessoas iam embora e nós acabamos ficando um pouco mais.

 

Fiquei surpreso, pois a conversa revelava vários pontos em comum. Hábitos de caminhada em cenários diferentes, pôr do sol, praia, preferências musicais, enfim. Vagamos por vários assuntos.

 

A lua já tomava conta do seu lugar no céu e nós estávamos ali, sozinhos. Não contamos as horas, nem os temas conversados. Apenas nos permitimos viver aquele momento. Num dos raros instantes de silêncio, Ela apoiou sua cabeça em meu ombro e ficou olhando para as estrelas. Entrei no silêncio dela e a envolvi num abraço. Com isso, Ela se aconchegou ainda mais, procurando espaço no meu peito. Aquele silêncio foi quebrado por um movimento. Ela estendeu sua mão, tocando o lado do meu rosto e fazendo com que eu virasse meu olhar para o dela. Sem dizer nada, lançou seus lábios contra os meus. Beijo doce e intenso. Impossível tentar explicar a sensação de saber que aquele beijo seria meu, algum dia. As palavras davam lugar aos olhares. Os beijos viajavam entre a docilidade e a lascividade. Nossas mãos passaram a percorrer nossos corpos, numa volúpia indescritível. Tudo isso interrompido de forma repentina pelo guarda que cuidava da vigilância daquele espaço. Momento tenso e estranho. Acalmamos os ânimos enquanto éramos orientados a deixar o lugar, por motivos de segurança.

 

Fui para o meu carro. Ela para o dela. Como tínhamos que sair dali, combinamos de nos reencontrar na praça central. E lá fomos. Aproveitamos aquela noite e o restante do fim de semana. Ela e seus filhos não moram na mesma cidade que eu, porém não é muito distante. Trocamos mensagens, nos encontramos e vivemos nossos momentos intensamente. As vezes eu aqui e Ela lá. Outras, eu aqui, Ela e seus filhos também. Outras ainda, eu e Ela em algum outro lugar. Ambos presos pela liberdade na qual vivemos. E assim vamos cantando a vida, como num coreto na praça central.

 

João Borges


quinta-feira, 18 de junho de 2020

ENTÃO, FAÇAMOS VALER A PENA




Ainda sou capaz de ouvir o som das ondas do mar daquela tarde ensolarada de sábado.

Eu vivia um momento muito particular e o que mais procurava era um pouco de silêncio e tranquilidade. Em geral o contato com a areia, com o vento do litoral e com a água do mar me faz reconectar. É como viver na prática essas frases prontas que encontramos na internet, tipo “não é água com açúcar que acalma, é água com sal”. Pra mim, uma espécie de mantra que resolve.

No celular, várias chamadas perdidas e mensagens enviadas dos amigos. Eles sabiam exatamente como eu me sentia e faziam de tudo para me dar um novo ânimo. “Cara, hoje é o aniversário da Yasmim. Ela convidou a galera toda. Vamos?”, “Te anima, toma um banho, te veste e vamos no aniversário da Yasmim”, “Partiu aniversário da Yasmim. Tua chance de renascer, meu irmão”, eram algumas das mensagens que eu havia recebido.

Eu procurava silêncio, meus amigos queriam me levar para o sentido contrário. Em tese, reencontrar os amigos, celebrar, dar boas risadas e jogar conversa fora era uma boa opção. A oportunidade de sair da minha apatia. As oportunidades surgem exclusivas. Podem até surgirem novas, mas nunca serão as mesmas. Passam como o vento. Sopram e vão embora. Você pode aproveitar ou simplesmente se esconder.

Fiquei caminhando na praia naquele fim de tarde. Era um momento só meu. Fiquei na orla até o pôr-do-sol. Confesso que a insistência dos amigos me inclinava para sair com eles durante a noite. Yasmim era namorada de um dos meus amigos de faculdade. Aliás, aquela turma conseguiu a façanha de permanecer unida, mesmo depois de tantos anos após a formatura. Dali saíram alguns casamentos. Famílias foram se formando e nossos encontros foram ficando cada vez maiores. Aquela noite certamente encontraria boa parte daquela imensa turma.

Resolvi voltar para casa. Ainda não muito decidido, caminhei a passos lentos. Procurei notar os detalhes de cada coisa. Desde o vento que já diminuíra, as pessoas caminhando, o cachorro que corria pela areia, os idosos sentados nos bancos do calçadão enquanto conversavam, a lua que já aparecia tímida, mas sorridente, o som das ondas, até mesmo o som dos meus passos na areia. Eu queria absorver o máximo de experiências daquele momento. Afinal, somos instantes. Então, façamos valer a pena.

Cheguei em casa, liguei uma música e fui tomar um banho. Daqueles que a água quente abraça o corpo num ritual mágico de ousadia, leveza e relaxamento. As mensagens dos amigos fizeram meus pensamentos revisitarem os tempos de faculdade. Lembrei das festas e viagens que fizemos, além dos acampamentos que organizamos. Era um saudosismo que insistia ficar. A impressão era que a isca havia sido jogada e o peixe aqui estava quase sendo fisgado. Saí do banho e sem dar muita chance a inércia, fui procurar uma roupa. Me decidi: iria rever a turma.

Passei mensagem no grupo, dizendo que os encontraria na casa da Yasmim. A reação foi imediata. Corri até o shopping, comprei um presente e fui pra festa. Yasmim morava em um casarão. Aos fundos, um imenso jardim, uma piscina e a área onde estava acontecendo a festa. Música boa, gente rindo e conversando. Fui chegando aos poucos, quando senti uma mão em meus ombros. Yasmim chegou por trás de mim. Me viu chegar e foi me encontrar. Junto dela estava o Ricardo, meu colega de turma, que chegou me abraçando e oferecendo uma bebida. Abracei Yasmim e entreguei-lhe o presente. Yasmim falou bem perto do meu ouvido que precisava me mostrar uma coisa. Olhei com ar de estranheza. Com tanta gente pra atender, ela ainda queria me mostrar algo? Na verdade, não era algo, mas alguém. Yasmim segurou minha mão e me levou até um grupo de pessoas que estava próximo a piscina. No curto percurso, percebi alguém que se destacava. Ela estava lá, com seus sapatos de salto alto, pernas estonteantemente esculpidas, vestido preto que combinava com sua linda cor de pele. Curvas que se desenhavam desde o início do calcanhar, passavam pela cintura, seios, ombros, pescoço, até chegar a cabeça. Um sorriso que tinha brilho próprio e o olhar que transpassava qualquer tentativa de lucidez. Seus cabelos leves e soltos, caiam pelos ombros.

Tentei entrar na conversa, mas meus olhos insistiam encontrar Ela. Não era difícil perder a concentração. Como se fosse combinado, aos poucos o grupo foi se dispersando, as conversas iam ficando mais rasas, até que eu e Ela ficássemos a sós, ainda próximos a piscina.

Fiquei extasiado, mas procurei me manter centrado. Conversamos demoradamente. Ficamos juntos durante a festa. Caminhamos pelo jardim e tive a oportunidade de reencontrar os amigos. Encontramos uma mesa de bistrô onde pudemos permanecer juntos e conversando. Num momento de distração, nossas mãos se encontraram sobre a mesa. Quase de imediato voltamos nossos olhares um ao outro, até que ouvi um “posso?” saindo daqueles lábios, me pedindo pra segurar pela mão. Retribuí o sorriso e acenei em sinal de positivo. Não há como esquecer aquele toque. Suas mãos eram macias e seus dedos buscaram entrelaçar entre os meus. As horas passaram como o vento. Encontramos alguns pontos em comum na conversa que fluiu leve. Aos poucos os convidados se despediam. O lugar foi ficando cada vez mais vazio. Yasmim foi ao nosso encontro e perguntou se Ela tinha como voltar. “Não, estou sem carro”, disse. Eu me ofereci para dar uma carona, mesmo sem saber o quão longe seria o destino. Ela deu um sorriso discreto e nem precisou falar para mostrar que havia aceitado.

As oportunidades surgem exclusivas. Podem até surgirem novas, mas nunca serão as mesmas. Passam como o vento...

Nos despedimos de Yasmim, Ricardo e dos demais amigos que ainda estavam por ali. Entramos no carro, nos olhamos e nos beijamos. Indescritível aqueles lábios. Tentando manter a serenidade perguntei: “pra onde?”. “Pra onde você quiser, desde que seja com você”, recebi como resposta. Rodei pelas ruas de forma aleatória. Ela apoiou sua mão sobre minha perna, enquanto eu dirigia. Queria sentir sua presença o maior tempo possível. Chegamos a um ponto da orla onde não havia calçadão, mas uma grande faixa de areia interrompida por dunas. Não havia movimento, nem a presença de outros carros. Parei, desliguei o motor e os faróis. Agora éramos nós e a noite. A mão, antes apoiada sobre minha perna, agora apertava minha coxa. A outra mão buscou meu rosto, puxando para perto de si e me beijar. Começou leve e foi ficando cada vez mais intenso. Sua boca buscava descobrir cada traço do meu rosto até encontrar espaço no pescoço. Os beijos foram ficando lascivos e intensos. Eu retribuí na mesma moeda, afinal intensidade com intensidade se paga. Ela, vagarosamente abriu minha camisa e a tirou. Passou suas mãos macias sobre meu peitoral até a altura da cintura. Como um ritual, repetiu o mesmo gesto com as demais peças da minha roupa. Com atitude dominadora, não deixou que eu fizesse o mesmo com as roupas dela. Entrei no jogo. Vamos brincar. Com toques macios, queria conhecer cada espaço do meu corpo. A cada lugar visitado, um beijo. A cada carinho, uma verdadeira viagem. Foi assim até se sentir quase satisfeita. Quando achei que Ela iria desistir, despiu-se completamente. Não, eu não poderia tocá-la. No máximo, beijos em lugares que Ela escolheria. O jogo continuava. Ela veio sobre mim e, sem poder tocá-la, mostrou-me a regência da orquestra que aquele corpo havia se tornado. Movimentos leves que se alternavam com intensidade e força. Nosso suor se misturava naquele pouco espaço do carro. As horas, que haviam passado rápido na festa, eu queria que fossem generosas, passando bem devagar. Queria aproveitar cada detalhe de cada segundo. Aquele momento corroborou com a fluência da nossa conversa durante a noite.

Eu queria absorver o máximo de experiências daquele momento. Afinal, somos instantes. Então, façamos valer a pena.

Era quase dia. A lua, sorridente, já se despedia para dar lugar ao astro-rei. Levei Ela para casa. Trocamos contatos e marcamos novo encontro. Afinal, intensidade com intensidade se paga.


João Borges

terça-feira, 26 de novembro de 2019

EU, ELA E O MOMENTO



Caía o entardecer. O crepúsculo era o prenúncio das cortinas do dia que se fechavam, para dar lugar ao espetáculo da lua cheia que já ensaiava seu brilho. Eu não fazia ideia, mas definitivamente aquela seria uma noite especial.

Chegamos quase ao mesmo tempo ao aeroporto, despachamos nossas malas praticamente juntas, entramos na sala de embarque e no mesmo avião, sentamo-nos em poltronas da mesma fileira, fizemos o check-in no mesmo hotel e éramos completos estranhos até então.

Enquanto eu fazia o check-in, Ela aguardava ao meu lado. Discretamente, pediu a caneta que eu usava para preencher a ficha de cadastro de hóspede. Sem qualquer esforço, sorria com os olhos. Não foi difícil perceber. Puxou assunto dizendo que havia notado que saímos do mesmo lugar para chegar ao mesmo destino. Contou-me sobre o objetivo da viagem, do trabalho, dos lugares que já havia conhecido. Quando nos demos conta, já estávamos num bistrô e as poucas horas da noite já queriam dar lugar as primeiras horas da madrugada.

Falamos desde as trivialidades das nossas rotinas, passando pelas vãs filosofias de bar até chegar ao profundo poético da alma humana. Isso mostra o quão fomos intensos, rasos e profundos em tão pouco tempo.
Viajamos pelas nossas histórias, contamos segredos que jamais seriam contados. Era a estranha intimidade normalmente vista num touchscreen. Mais estranho ainda era viver aquilo, sabendo que éramos apenas aquele instante. Não havia uma perspectiva de dia seguinte, nem tampouco arrependimentos por dias passados. Eram apenas eu, Ela e o momento.

Deixamos a conversa fluir até que a intimidade das palavras passou a ser intimidade na pele. Nos permitimos tocar mãos, braços, rosto, cabelos... As palavras, aos poucos, davam lugar ao silêncio, que em certa medida falavam mais alto que nossas próprias vozes.

Em mais um piscar de olhos, não estávamos mais no bistrô, mas no corredor do hotel. Para fechar o ciclo da conspiração universal, estávamos hospedados em quartos próximos. Levei Ela até a porta do seu quarto, me despedi com um beijo e fui para o meu quarto. 

Enquanto procurava o cartão de acesso, fui surpreendido por um abraço. Aquelas mãos já não me pareciam estranhas. Ela estava atrás de mim, querendo invadir minha madrugada muito mais que invadir meu quarto. Mais uma vez éramos três: eu, Ela e o instante. Beijei-a com intensidade. Nela escrevi poesia com os lábios, tendo o corpo como papel. Em mim, ela recitou cada verso em movimentos.

Já não estávamos mais no interior do quarto, mas na sacada. A lua cheia era uma testemunha inocente e distante. Passamos horas nos permitindo visitar os segredos ainda não contados e descobrindo a beleza da simplicidade. Ouvimos reciprocamente os mais profundos suspiros. Vivemos. E como vivemos.  

Acordei com o sol tomando conta do espaço. O calor serviu de despertador. Janela aberta. As cortinas ensaiavam esvoaçar com a pouca força do vento que entrava quarto adentro. Já havia perdido completamente a noção das horas. Ao meu lado, na cama, um vazio. Ela não estava ali. Fui até o quarto dela. Nada. Fiz contato com a recepção. Nem mesmo um check-in feito com seu nome. Que estranho...

Sonho? Quem sabe. Não tenho resposta certa. Talvez mais um devaneio da mente de um jovem escritor.

João Borges

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ELA, CAUSA E EFEITO



Cheguei em casa cansado, depois de enfrentar um dia cheio de problemas. Foi um daqueles dias que mereciam uma comemoração, mesmo que simbólica. Celebrar a capacidade de “matar um leão por dia” é algo que vale muito a pena.

Ela já estava em casa. Me recebeu com aquele sorriso que me conquista e desarma. Qualquer problema perde todo sentido, diante daquele presente que Ela me oferece gratuita e naturalmente, sem qualquer esforço.  

Eu a convido para sair. Chope, bom papo e um ambiente com música ao vivo eram o suficiente para espairecer e abandonar toda a tensão daquele dia. Ela, por outro lado, parecia saber o que eu realmente precisava. Sair e aproveitar um chope é bom, mas já percebeu o quanto ficar em casa e sentir o aconchego de um abraço, pele na pele, olho no olho, é gostoso?

Independente do lugar, o que eu mais precisava naquele momento era sentir o doce sabor da reciprocidade. Ela sabia exatamente disso. A singularidade daquela mulher me impressiona. Ela me conhece de um jeito que não é necessário falar. Sabia que eu precisava daquele sorriso, daquele olhar, daquele abraço, no exato momento que entrasse em casa. Impagável.

Me joguei na proposta dela. Viver aquele instante, mesmo com toda simplicidade, era se deixar envolver por um pedido sem condições de recusa. Vem cá, fica comigo.
Música ao vivo é bom. Ativa os sentidos e relaxa. Mas você já percebeu o efeito causado pelo silêncio, quebrado apenas pela intensidade de um beijo?

Ela é assim. A resposta de uma pergunta que ainda não fiz. A descoberta diária, mesmo quando seu humor não é dos melhores. Minha força, quando sou fraco. Meu ponto fraco, quando me acho forte.

Até esqueci do cansaço. Percebeu o efeito que Ela me causa?

João Borges

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...