segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

SIMPLES E INESQUECÍVEL, COMO A VIDA DEVE SER



Era um feriado de primeiro de maio de muito sol e calor. A data é comemorativa ao trabalhador, porém mais parecia o dia das crianças. Ruas movimentadas, pessoas seguravam crianças pelas mãos enquanto caminhavam pelas ruas do bairro, nas imediações da recém-inaugurada Ponte do Trabalho. 

Não eram os tempos de smarphones, tablets ou aplicativos de todo gênero. Era um tempo em que ter telefone fixo era investimento e a comunicação mais comum ainda dependia de papel, caneta, envelope, selos e correios. 

Eram lembranças da alegria daquele homem de cabelos brancos, olhos azuis, jeito calmo e simples. Nem parecia o mesmo homem que, por causa da morte de um parente próximo, assumiu as responsabilidades sobre uma criança, ainda que sua idade já lhe parecia avançada para isso. 

Na verdade, acabou criando tanto afeto que tratava a criança como a um filho. Tanto afeto, que a ideia de um eventual retorno da criança à família biológica, lhe trouxera depressão, e com ela, a tentativa de suicídio.

Olhar aquele rosto feliz e receber um convite para um passeio no feriado era o melhor prêmio que se poderia ganhar. Foram em caminhada pelas ruas do bairro vizinho. Em passos lentos, atravessaram a ponte de madeira, acompanharam o movimento intenso das bicicletas e de alguns poucos carros que transitavam, levando seus ocupantes para aproveitar aquele belo dia. 

Um pequeno, que agarrava com força os dedos das mãos enormes daquele homem, andava com um sorriso orgulhoso por poder desfrutar daqueles momentos.

Passado algum tempo de caminhada, chegaram a um sambaqui próximo a Ponte do Trabalho. Sem encontrar opções para as brincadeiras de uma criança naquele local, atravessaram a ponte. Na descida, logo após o término do pavimento da ponte, encontraram uma pequena inclinação de terreno, revestida de grama. Certamente veio a mente do homem de olhos azuis alguma lembrança da infância, pois pediu-lhe para aguardar naquela inclinação enquanto ele se embrenhava no meio do matagal próximo. 

Haviam muitas crianças caminhando com seus pais, passeando com suas bicicletas ou aproveitando o parque que havia não muito longe dali. A espera, apesar de angustiante, criava muita expectativa. O que será que foi buscar no meio daquele matagal?

O "logo" é um tempo com características distintas, vivida ao mesmo instante. Pode parecer demorado para quem espera, mas não para quem faz a ação; desaparecendo assim que existe o reencontro. Foi assim quando surgiu o mesmo homem que guiou o pequeno pelas mãos até aquele lugar, com algumas cascas de coqueiro nas mãos. 

Num primeiro momento não era possível entender, mas logo o mistério foi revelado. A casca serviria como uma espécie de prancha para a brincadeira de descer aquela inclinação de terreno. 

No começo era uma criança, uma casca de coqueiro e muitas risadas. Logo chegaram outras crianças e outros pais, repetindo todo o ritual de antes. Não demorou para aquele lugar virar parque de diversão improvisado. A brincadeira rolou solta durante várias horas. E nem parecia tanto tempo assim. Mais uma vez a dualidade do "logo" se fez.

A simplicidade da brincadeira, do momento, daquele calor e de uma casca de coqueiro realmente não importavam. De um momento de simplicidade partiu uma lembrança eterna. O estar perto, as boas gargalhadas que davam juntos, o caminhar de mãos dadas, nem de perto lembravam os momentos difíceis que aquele homem vivera.   

Logo escureceu, logo precisariam voltar. E tão breve quanto iniciou, aquele dia das crianças fantasiado de dia do trabalhador, acabou encerrando numa caminhada sorridente daquela criança e daquele homem inesquecível, o qual aquela criança tinha orgulho de chamar de PAI.

sábado, 27 de janeiro de 2018

PEQUENOS EXEMPLOS, GRANDES RESPONSABILIDADES.


“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina” – Cora Coralina

Lembro muito bem, quando era mais jovem, de um autoquestionamento que fazia. E quando eu for pai?

Sabe aqueles planejamentos que fazemos – alguns deles muito loucos – quando visualizamos um futuro incerto, e nos enchemos de esperança para que tudo aquilo que traçamos se realize? Pois é, um dos planos que fazia na minha juventude, acreditem, era ser pai. Mas não poderia ser qualquer pai. Teria que ser o pai mais legal do universo. Aquele que seria visto desde super-herói até uma enciclopédia ambulante, de tantas respostas que precisaria ter para todos os tipos de perguntas.

A ideia era ser um pai que passasse bons exemplos através de grandes atitudes. Pensava alto, grande, precisaria gerar tal impacto que ficasse bem gravado e, dessa forma, o exemplo se perpetuasse na vida do meu filho ou filha.

O tempo passou e os filhos vieram. Não um, mas quatro. Talvez você esteja pensando: “Meu Deus!”, “Que coragem!”, “Quatro?”, ou ainda, todas essas expressões juntas. Eu sei, fique tranquilo. Já ouvi isso muitas vezes e até me acostumei.

Era a hora de pensar nas grandes atitudes, nos grandes exemplos. Ser aquele “melhor pai da galáxia”. Precisava estudar o melhor momento para que esses grandes exemplos fossem passados. Não poderia ser quando fossem bebês, pois não entenderiam. Também não poderia ser enquanto crianças pequenas. Talvez quando fossem jovens. Será? Qual o melhor momento? Novos questionamentos aparecem, quando você toma para si a responsabilidade de ser um grande pai.

Tive a alegria e o prazer de acompanhar o pré-natal e o parto de todos os meus filhos. Fiz fotos, respirei fundo e, por mais que duvidem, não desmaiei. No último parto, o médico de tão acostumado, dizia brincando: “mas por que me chamar? Esse pai já é experiente, já pode até fazer o parto”. Na hora da alegria da chegada do bebê, era fácil brincar assim. Eu, também brincando, respondi: “Nem precisa. Esse já deve nascer e sair andando sozinho”. Era a descontração necessária para um momento delicado e feliz.

Também tive a felicidade de levar meu filho mais velho para o seu primeiro dia de escola. Aquele em que a criança fica no colo da professora, aos berros e chorando, chamando pelo pai, enquanto, de coração partido, você vira as costas e vai embora. Depois do terceiro dia repetindo o mesmo enredo, a criança já nem chama, mas ao contrário, se despede com um sorriso, deixando você com aquela cara de tonto e um misto de espanto e alegria.

No decorrer do tempo, vi meus filhos chegarem em casa sujos, felizes, arranhados, tristes, suados, sorridentes, sérios e tantas outras expressões faciais e corporais. O tempo passa mais rápido do que eu poderia imaginar. Foram vitórias das boas notas nas provas, derrotas quando o resultado não era tão bom assim. Sujos e suados por aproveitarem ao máximo o tempo que lhes era propício.

Hoje meu filho mais velho tem 16 anos. Outro dia, estávamos tomando café da manhã juntos, quando ele fez um comentário que foi a inspiração para esse texto.

- Pai, quando eu era criança, o que eu mais admirava – e queria fazer igual quando eu crescesse – era a forma como você adoçava o café. Você girava o café tão rápido que ficava aquele buraquinho no café, bem no centro da xícara.

Meio atônito, olhei para o meu filho. Todo aquele filme do planejamento inicial, passou na minha cabeça numa fração de segundos.

E os grandes exemplos, aquele impacto, o momento certo de quando passar, onde foi parar tudo isso? O tempo havia passado e a vida me ensinou que são nos pequenos exemplos diários que se constrói um grande impacto. O ato de acompanhar o nascimento, trocar fraldas, dar banhos, incentivar a amamentação, fazer caretas, fazer dormir – e dormir junto, fazer massagem na barriguinha quando tiver cólicas, levar a escola, preparar e adoçar o café.

Tantos pequenos exemplos. Tantas pequenas atitudes que fazem a grande diferença. Todos esses pequenos gestos que, numa fração de segundos, me tornaram no super-herói que sempre quis ser.  

Minha gratidão, filhos! Cora Coralina tinha razão.


João Borges

Escritor – Joinville/SC

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

FILHOS BUSINESS


É impressionante a vastidão que encontramos nas mais diversas redes sociais. Desde as mais simples banalidades, até as coisas mais incríveis. Sorrisos e lágrimas se misturam aos mais variados sentimentos que brotam no universo de conteúdo jogado lá todos os dias, incessantemente.

Outro dia, navegando por uma dessas redes sociais, me deparei com um post que me deixou preocupado. Não havia imagem, vídeo ou qualquer outro detalhe visual que pudesse chamar a atenção. Apenas um pequeno texto que dizia, em outras palavras, que para seu filho possa lhe enxergar como líder, você precisa trata-lo como cliente. O que chamou ainda mais a atenção, foram os inúmeros comentários como: “excelente ponto de vista”, “perfeito”, e por aí vai.

Oi? Perdi alguma coisa na educação dos meus filhos? Será que a velocidade das mudanças está tão alta que isso passou diante de mim e não percebi?

Vejamos, tenho quatro filhos. Como pai, perco as contas de quantas vezes digo sim e não a eles, todos os dias. 
Dizer não a um cliente, dependendo das circunstâncias, é quase perder negócios ou, até mesmo, o cliente.  Dizer não a um filho, dependendo das circunstâncias, é garantir que não irá perde-lo.

Aos filhos, dá-se o que é necessário e preciso, nem sempre o que ele quer.

Ao cliente, dá-se o que ele quer, mesmo que não seja preciso e tão necessário naquele momento.

Exercer liderança nas corporações requer ser participativo com a equipe, proporcionar e participar de workshops, treinamentos buscando alto rendimento, reciclagem e estudos constantes entre tantos outros requisitos.

Exercer liderança com filhos requer presença, brincadeiras, rir junto e chorar abraçado; dar um passe para que o filho ou a filha faça o gol num parque, e sair comemorando como se fosse final de campeonato; ler histórias para que eles possam dormir, viajar com eles nas mais inebriantes fantasias; crescer com eles, enquanto você envelhece; saber dizer não, mesmo que isso cause alguma dor. E garanto, fazer isso, as vezes, dói mais em nós.

É. Não perdi nada na educação dos meus filhos, nem a velocidade das transformações contemporâneas atropelaram minhas convicções. Ainda consigo fazer distinções, diante de uma realidade tão plural.


Não sou um pai perfeito, mas uma coisa tenho certeza: não abençoo, dou beijo de boa noite e vejo clientes dormindo nos quartos da minha casa. Vejo futuro. Vejo meus filhos.


João Borges
Escritor - Joinville/SC

domingo, 14 de janeiro de 2018

CAFÉ QUENTE, CABEÇA FRIA.


Era um dia de muitas nuvens. A chuva, aos poucos, ficava menos intensa. Já era possível sair para caminhar, se as poucas gotas de água que insistiam em cair não fossem fator de incômodo – e de fato não eram, pelo menos para mim.

Era necessário ir ao mercado próximo da minha casa, pois a desatenção acabou não permitindo perceber a falta de filtro para café – e minha vontade de tomar esse precioso líquido, era grande.

O mercado não é distante. Necessário caminhar uns oitocentos metros, já considerando ida e volta. No caminho, um estabelecimento para limpeza de carros, uma loja de roupas, uma igreja, uma sorveteria, algumas casas e o destino final, o mercado. Tudo muito perto.

No caminho percebo que, aos poucos, as pessoas iam tomando as calçadas, porém ainda portando seus guarda-chuvas. Aquela chuvinha enganava. A famosa “chuvinha de molhar bobo”.

Chego ao mercado, vou direto até a prateleira, apanho o pacote de filtros, me dirijo ao caixa, pago e faço o caminho inverso. Minha vontade de tomar aquele café só aumentava, a medida que a distância até minha casa diminuía.

No caminho de volta o cenário não havia mudado muito. Sons de carros passando na rua, pessoas caminhando, o som da música que era ensaiada na igreja – imagino que o culto estava prestes a iniciar – calçada molhada e, claro, o café. Aquela vontade era insubstituível.

Poucos passos depois de iniciado o caminho de volta, uma cena um tanto quanto inusitada. Um casal, elegantemente vestido, andava no sentido contrário, na mesma calçada. Ele de terno num tom claro, gravata azul, chapéu panamá combinando com a cor do terno, segurava uma pasta executiva e o guarda-chuva. Ela estava de vestido longo, detalhes floridos, cabelos cuidadosamente amarrados e salto alto. Caminhavam vagarosamente em minha direção. Aquilo poderia ser comparado a uma cena dos célebres filmes de Hollywood dos anos 50 do século passado, não fosse por um detalhe: quem estava protegido da chuva era ele, não ela.

Certamente Don Lockwood ficaria envergonhado e cederia seu guarda-chuva àquela dama, mesmo porque esse artefato era apenas detalhe nas mãos de Gene Kelly na famosa cena de “Cantando na Chuva”.

- Senhor, essa senhora está na chuva! Disse eu, sorridente para tentar “quebrar o gelo”.

- É bom para esfriar a cabeça. Disse ele grosseiramente, inversamente proporcional a elegância do traje.

A ela coube apenas me retribuir a tentativa com um sorriso tímido, enquanto caminhava ao lado do distinto “cavalheiro”.
A mim, coube ficar refletindo sobre aquela cena, avaliando o quanto conseguimos ser vazios enquanto somos cheios de si.

É, Gene Kelly. Algumas pessoas precisariam voltar aos anos 50 e extrair de lá algumas coisas boas que eram vividas naquele tempo.

E o meu café? Saboreei assim que cheguei em casa, pois acabara de esfriar a cabeça na chuva, a exemplo daquela senhora, no caminho de volta.


João Borges
Escritor - Joinville


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

AQUELE PRIMEIRO BEIJO QUE TE DEI


Quando queremos muito alguma coisa, é difícil não criar expectativa, mesmo que ela tenha o tamanho da unha do seu menor dedo do pé. E não é que isso seja ruim, pelo contrário. O que atrapalha são os excessos.

Uma expectativa boa gera cuidado com preparação, uma dose de ansiedade, sorrisos gratuitos, adrenalina, suor frio, aquela tremedeira imperceptível nas pernas e tantos outros sintomas. Olhando uma pessoa assim, é muito fácil perceber que está apaixonada.

Imagina só. Você está aguardando e, finalmente, terá a grande oportunidade. O primeiro beijo é um marco importante, apesar de muitos homens não darem o seu devido valor e os tempos atuais não darem tanta importância a isso.

É chegado o grande dia. O grande momento. Tudo preparado. De repente, ele ou ela aparece e você poderá dar seu primeiro beijo no seu filho ou sua filha, que acabou de nascer.

Poderá dar seu primeiro beijo no seu pet, que acabou de chegar.

Poderá receber o primeiro beijo da criança que acabou de aprender como estalar a boca, quando encostada no seu rosto.

Poderá dar seu primeiro beijo em alguém muito especial que, de tão longa viagem, demorou para chegar.

Ah, claro, também poderá dar o seu primeiro beijo no seu namorado ou namorada. Aquela pessoa especial que faz seu coração bater mais forte, cada vez que existe o encontro.

Não haverá outro primeiro beijo. Não haverá outro primeiro encontro. Então, valorize o momento. Aprenda a repetir a dose, quantas vezes forem necessárias. Viva intensamente cada uma delas, porém dê valor ao marco inicial.

A partir dali, serão alguns beijos roubados, mais sorrisos gratuitos, outros motivos de tremedeiras nas pernas, outras histórias, outros momentos, outros instantes.



João Borges
Escritor – Joinville/SC

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Errar é (DES)HUMANO


Estamos fadados ser máquinas, quando deveríamos ser humanos. Paradoxal?
É proibido errar quando se trata de vida.
É proibido errar quando o sim deve ser sim, e quando o não deve ser não.

Errar é (des)humano quando o tiro é dado, quando a bomba é lançada, quando a vida é dizimada.
Errar é (des)humano quando o EU é mais importante, quando o VOCÊ torna-se MAIS TARDE, quando a vida torna-se um QUEM SABE.

É (des)humano quando uma criança é abandonada, quando a natureza é maltratada e quando não vejo, sem ter que fechar meus olhos.
Errar é (des)humano quando transformo o riso em choro, a alegria em transtorno; o pleno, 
em pedaços.


Errar não pode SER HUMANO. Errar é (DES)HUMANO. 


João Borges
Escritor - Joinville/SC

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

MEU MELHOR AMIGO É O MEU AMOR



Se na medicina fosse possível fazer o diagnóstico do amor, seria necessário um bom exame de imagem para saber se lá dentro existe a amizade. Sim, ela mesma. A amizade. E a correlação entre os dois deveria ser quanto maior, melhor.

Na juventude, somos capazes de compartilhar nossos sonhos, defeitos, alegrias, imperfeições, vitórias e até os mais íntimos segredos com grandes amigos ou amigas, mas incapazes de fazer o mesmo com nossos pais. E se perguntados sobre o porquê disso, talvez tenhamos certa dificuldade em responder.

Na vida adulta, é possível que o mesmo venha a acontecer com aquela pessoa que você resolveu se relacionar. Por quê? Porque não aprendemos o suficiente sobre o MEU AMOR. Aquele que depositamos sobre nós mesmos. Fazer valer a letra da música que diz: “Meu melhor amigo é o MEU amor”. Esse mesmo. O meu. Aquele que dou a mim mesmo. O tão dito amor próprio. O mesmo que diz o quanto sou amigo de mim. Sem ele não há um “nós”. Quando aprendemos sobre isso, a vida acontece.

Se fosse dar um conselho, diria: tenha uma amizade sólida com aqueles que você insiste dizer que ama. Se tudo der errado no relacionamento, pelo menos haverá uma boa amizade a ser preservada.

Seja capaz de compartilhar tudo de você com aquela pessoa que você resolveu multiplicar sonhos e potencializar realizações. Se não for possível, meu amigo, algo deu errado e será necessário rever suas escolhas.

Amor não é degrau mais alto da amizade. É complemento dela. Bonito encontrar casais que são grandes amigos. Ao perguntar se são namorados, serão capazes de responder: também somos.

Amizade é valorizar cada instante. Aquele beijo roubado, aquela flor solitária numa despretensiosa quinta de manhã, aquele inesperado café na cama ou aquele carinho nos cabelos feitos durante uma troca de olhares.

Não há carro do ano, uma gorda conta bancária, cobertura de frente para o mar ou aquele iate ancorado que dirá o tamanho da amizade. Talvez até ajude, mas a ausência disso tudo – e mais um pouco – talvez diga muito mais.

E se no relatório do tal exame de imagem viesse a conclusão: amizade imperceptível, poderia diagnosticar: chame do que quiser, menos de amor.


João Borges
Escritor – Joinville/SC

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A MELHOR COR PARA USAR NA VIRADA DO ANO


Mais um fim de ano se aproxima e, para muitos, a tradição das cores se renova. Qual a melhor cor para usar na virada do ano? A expectativa de um ano melhor lança os olhares de expectativas positivas para o futuro, porém em muitos casos, não se olha para o passado com o mesmo critério.

E se invertermos a linha do tempo das cores para aprender um pouco mais com o passado? Se fizermos um bom exame de consciência e traduzir em cores as nossas ações no ano que está indo embora – aquilo que fizemos e que dependeu apenas de nós – qual cor usaríamos? O branco da paz? O vermelho do amor?

Não seria inteligente olhar para o futuro e esperar resultados diferentes, se repetirmos os erros do passado e do presente.

Usar o branco da paz e da pureza se minhas ações foram de impaciência causaram guerra dentro de casa ou no trabalho, não faz muito sentido. Usar o vermelho do amor se meus pensamentos foram voltados ao ódio ou divisão, também não.

Se o trabalho foi próspero e você conseguiu pagar suas contas em dia, use o amarelo sem medo. O dinheiro sempre virá como consequência de um trabalho bem feito.

Use o azul caso você tenha conseguido trilhar o caminho da serenidade. Caso contrário, não é a cor mais indicada.

Nossas expectativas do futuro serão moldadas pelas nossas ações do presente. Enfim, olhar uns para os outros e identificarmos tanto as nossas cores quanto as cores das pessoas próximas, talvez fosse um caminho de novas promessas para o ano novo que se inicia. Aquela promessa que precisa ser tão sincera quanto nosso exame de consciência.

Prometo SER melhor para usar a cor mais adequada no final do ano que vem.

Que tal?


João Borges
Escritor – Joinville/SC

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

AS DIFICULDADES SÃO COMO AS MONTANHAS. ELAS SÓ SE APLAINAM QUANDO...


Não são poucas as vezes em que nos vemos em situações onde a saída parece impossível. Que atire a primeira pedra, quem nunca passou por dúvidas diante de decisões importantes a serem tomadas. É incrível perceber as vendas nos olhos quando o problema é do outro. Mais incrível ainda é não tirar as próprias vendas, pois não as percebemos.

Viver um turbilhão é um processo que muitas vezes dói na alma. Os problemas parecem apenas crescer, os possíveis caminhos se multiplicam, gerando confusão e incerteza. Entretanto cabe aqui um provérbio japonês que diz: “as dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam avançando sobre elas”.

Desistir não é o caminho. Encarar o problema com força e coragem, utilizando-se de alguma ousadia e criatividade, apesar de parecer clichê, é a receita para que o provérbio se faça realidade. As dificuldades na caminhada da montanha são os problemas da vida, entretanto o objetivo não é ficar no meio do caminho, não é mesmo? Então, o que estamos esperando?

Uma dica: não suba a montanha sozinho ou sozinha. Andar é por sua conta, depende exclusivamente de você. Resolver seus problemas também. Contudo, fica mais fácil quando temos pessoas que realmente nos ajudam a subir, incentivam a caminhar, dão luz onde tudo parece uma grande nuvem escura. A vida fica mais leve quando sabemos dividir o peso, equilibrar as decisões. É a louca matemática da vida, onde o exato é, na realidade, inexato. Onde o dividir significa multiplicar. Onde erros, absortos, se convertem em lições e crescimento. Cabe a nós o cuidado de escolher as pessoas certas, para fazer parte dessa aventura, chamada vida. 

No livro Nove Meses e Quarenta Minutos, a personagem Amanda, desde sua infância, aprende com as dificuldades que sua existência lhe apresenta. Dessas que todos nós passamos e que fazem parte do processo natural de amadurecimento. Ela vive num ambiente familiar tido como o ideal, ainda assim as dificuldades insistem em fazer parte de sua vida. Até aqui tudo muito normal. Até demais, alguns poderão dizer. Mas o que fazer quando o problema envolve vida e morte? Para onde ir, quando uma decisão pode dar fim a própria vida? É, aparentemente o topo dessa montanha ainda não foi atingido. Existe mais um desafio a ser vencido, mais uma batalha, mais uma guerra, mais, e mais, e mais... Que bom que ela não subiu a montanha sozinha.

O texto apresentado no livro, leva a essas – e outras – reflexões. Subir a montanha é difícil. É uma tarefa árdua e complicada. Exige coragem, apesar de todos os medos. Exige força, apesar de todas as fraquezas. Exige decisão, apesar de todas as incertezas e dúvidas. No fim, um resultado: a certeza da transformação.
Ninguém é o mesmo depois que passa por algum tipo de dificuldade. Cabe a nós decidir o que pretendemos fazer com a oportunidade do aprendizado. Lamentar o problema e frear própria história ou olhar adiante e crescer?

Sempre em frente...


João Borges

Escritor – Joinville/SC

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

QUANDO TE AMAR ME DÁ MEDO


"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar" - William Shakespeare

Isso mesmo, mulher. Não estávamos acostumados a encontrar mulheres reais. Essas que não se escondem atrás das submissões, que falam, decidem, tem força e coragem de sobra, sem deixar de lado o coração e sua necessidade de amar.

Eu sei, talvez esse meu jeito grosseiro ainda precisa de adaptações. Também sei que preciso de lapidação... e de ajuda para isso. Por isso, estou na torcida para que o futebol com amigos e a cerveja gelada abracem o romantismo e a poesia. Não, não quero traduzir futebol, cerveja, romantismo e poesia em masculino ou feminino. Já estigmatizamos demais nossas existências. Tirando esse estigma, acredito que você entenderá o motivo do abraço.

Ainda preciso aprender a te amar, mulher. Não aquele tipo de amor que esconde nas entrelinhas um “preciso de você”, mas o tipo que é um convite a transbordar o outro. Olhar o igual, mesmo sabendo das diferenças. Encontrar a beleza das almas que se somam numa matemática inexata.

É, mulher. Os tempos são outros. As mulheres são outras, os homens também. Você aprendeu a conquistar seu espaço. Nós, homens, precisamos reaprender.

Te amar nesse contexto, as vezes, dá medo. Encontrar uma mulher decidida, forte, corajosa é colocar uma dúvida na cabeça do homem: será que conseguirei acompanhar o seu ritmo? Por isso, faço minhas as palavras de Shakespeare: “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar”.
Não é por medo de você, mas por medo de mim mesmo. De não ser suficiente, tanto quanto necessário. Medo de arriscar e acabar perdendo. Drama? Um pouco, talvez. Prefiro acreditar que ainda falta encontrar a receita do amor próprio. Saber de onde vem essa sua garra encantadora e assim encontrar um caminho convergente.

Não pense que te desejar irá deixar de existir, entretanto te olhar de um modo diferente é necessário.

Que o desejo de uma noite passageira possa ser substituído pelo eterno desejo de noites intensas seguidas de cafés da manhã, por mais simples que eles sejam; de beijos de despedida seguidos de beijos de reencontro. Que possamos substituir o ter, pelo ser. 

Ao invés de apenas contemplar, que possamos aprender a buscar na raiz, o motivo da beleza da flor.


Com carinho

Homem



João Borges

Escritor – Joinville/SC

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

SIM, NÓS TEMOS ESCOLHA.


Tenho acompanhado uma discussão nas redes sociais no que se refere ao aborto.

Será que minha visão das coisas anda tão deturpada assim? Ou será que as pessoas, no calor do debate, acabam se perdendo nos trilhos do assunto e acabam descarrilando os mais diversos vagões carregados com os mais variados tipos de ideias? – algumas delas sem o menor sentido.

Precisamos parar e analisar alguns pontos. Percebo que nessa discussão - e em outras pode se aplicar o mesmo - estamos errando em dois pontos fundamentais

O primeiro é nossa postura diante do contraditório. Virou moda destilar veneno, armar-se de ódio, unhas, dentes, punhal, revólver e algumas outras armas, para entrar num debate. 

No nosso processo evolutivo, retrocedemos e resolvemos à moda antiga, dando ares de inspiração nos filmes de “velho oeste”.

Um segundo ponto, não menos importante, é a mistura que está sendo feita diante de um assunto tão complexo, neste caso, o aborto.

Tudo começa com um PEC (Projeto de Emenda à Constituição), que criminaliza o aborto, incluindo os casos atualmente permitidos.

Sinceramente, a discussão começa muito antes de qualquer lei instituída. Pela escolha, ou não, a pena já é dada pela própria vida.

Uma das coisas que aprendi com meus pais é: “não faça com os outros, aquilo que não quer que faça com você”. Parece clichê, não é mesmo? Sim, e muito. Entretanto, se ampliarmos o contexto ao que essa frase clichê pode ser aplicada, podemos nos surpreender.

Vamos inverter a receita dos meus pais? Que tal fazermos para os outros o mesmo que queiramos que seja feito a nós?

Considerando os debates sobre aborto em caso de estupro, tônica da atual discussão, pergunto: a quem queremos punir? Estaremos resolvendo o problema com a execução de um aborto? Você, que defende o “direito” ao aborto, pode até argumentar sobre o direito da mulher em relação ao seu corpo, sobre os traumas decorrentes disso, enfim. Posso dizer que em nenhum de seus argumentos, o bebê terá culpa. E mesmo assim, está sendo sentenciado a morte por algo que ele não cometeu. Ao culpado pelo crime de estupro, que seja aplicada a pena. Esse sim deve pagar (e muito) pelo que fez. Ao bebê, infeliz inocente, deve ser dada a pena capital por estar no lugar errado e na hora errada? Mais um número nessa guerra informal.

Outra coisa que você, defensor(a) do “direito” ao aborto, pode dizer é: “é fácil falar tudo isso sendo homem, quando você passa por nada disso”. Confesso que ouvir ou ler isso me fere profundamente. Fere na dignidade de pessoa, de pai, de ser humano. De fato, não posso engravidar, sentir o movimento de um ser dentro de mim, amamentar ou viver qualquer momento próprio da mulher. Mas posso defende-lo. E vou. Dentro do corpo de uma mulher grávida, pode ter outra mulher que terá seus direitos defendidos. Poderá ter o corpo de um homem, que poderá ser educado para ajudar a defender esses mesmos direitos.

Não quero discutir ou tirar direito algum sobre o corpo da mulher. Não tenho esse direito. Ninguém tem. Porém, estamos discutindo os direitos que devem ser mantidos sobre outro corpo que se desenvolve dentro da mulher. Também não devem ser tirados. Não temos esse direito. Ninguém tem.

Num estupro, a mulher fica dilacerada em sua dignidade física e psicológica. Num aborto, também. Alguns motivos que podem fazer do aborto uma escolha podem ser: olhar a criança e lembrar da ferida, ter um filho não planejado – ainda mais, decorrente de uma violência, enfim. Pois bem, optando pelo aborto, a mulher terá duas feridas para tratar: o estupro e o aborto. Será que abortar é a saída menos traumática, já que traumas existirão de uma forma ou outra?

Efeitos psicológicos (e por vezes, físicos) precisarão de atenção especial, independente da escolha. Não há como fugir disso.


Sigo em frente, defendendo o direito a dignidade e a vida com a receita simples dos meus pais. Não quero para outros, o que não quero que façam para mim.


João Borges
Escritor - Joinville/SC

PERDI A CONTA

  Eu já perdi a conta das vezes que tentei te descrever. Faltou vocabulário. Faltaram adjetivos. Sobraram qualidades em meio aos defeitos...